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Actor Studio
Um pouquinho do “Método”
 

Por Tiaraju Aronovich

No dia 20 de Novembro, estreou em São Paulo o longa metragem “SEM FIO”, dirigido por mim e escrito e fotografado por Vaner Micalopulos, sócio fundador da produtora Reticom Filmes. Seria apenas mais um filme nacional em cartaz – como outro qualquer – não fossem algumas características que fazem desse projeto uma iniciativa muito particular:

1. Foi realizado de forma absolutamente independente, ou seja, sem qualquer tipo de apoio estatal ou governamental através de leis de incentivo ou uso de verba pública;

2. Contém muitas cenas e sequências de ação, raramente vistas em filmes nacionais bem como uma linguagem estética um tanto quanto ousada que vem gerando bastante polêmica em diversos festivais por onde SEM FIO marca presença;

3. Possui um elenco assustadoramente grande, com mais de 80 (sim, oitenta ) atores!

Cada um desses tópicos dá pano pra muita manga, em especial as polêmicas que a estética do filme vêm gerando (o que para nós é motivo de alegria, já que a pior condenação a qualquer obra de arte seria a indiferença do público em relação à obra).

Porém, para o público leitor do GUIA DE TEATRO, acredito que o terceiro ponto – o que toca o elenco – seria o foco de maior interesse.  Em se tratando de um elenco tão grande, dezenas de atores provenientes das mais variadas escolas e tradições cênicas, tínhamos em mãos um desafio enorme: colocar em prática, ainda que longe da forma ideal (por falta de verba e tempo), um pouquinho do “método”. Sabíamos que tínhamos uma batata quente nas mãos e arquitetamos uma forma simples para atravessar os obstáculos. Como fizemos isso? O processo se iniciou pelos testes – que foram tudo menos o teste “convencional” ao que o ator está acostumado (e quem participou sabe disso!). Recebemos na sede da Reticom Filmes cerca de 500 atores e selecionamos alguns exercícios e jogos cênicos simples comuns aos praticantes do “Método” para avaliar a capacidade que cada ator teria de se encaixar naquilo que buscávamos. Após os testes, convidamos os atores selecionados a participarem de um workshop (conduzido por mim mesmo e por minha assistente de direção, a excelente atriz Luciana Stipp) com a duração de 8 horas ANTES MESMO que eles soubessem que papéis iriam interpretar.  Isso foi planejado por uma razão simples: eu queria introduzir os atores a todos os conceitos básicos que  utilizaria durante as gravações, e queria também que eles absorvessem os conceitos por completo, sem se preocuparem com a dimensão ou perfil do papel – somente após o workshop os papéis seriam distribuídos e teriam início os ensaios.

Tínhamos plena ciência de um fato: o sistema ou “método” é complexo demais para ser destrinchado em apenas oito horas, portanto precisamos fazer escolhas e estabelecer prioridades, abordando somente os elementos que julgamos essenciais para a realização da obra. Durante o workshop, frisamos tópicos como o trabalho de “circunstâncias e imaginação” (já bastante mencionado em artigos anteriores do GUIA DE TEATRO como o cerne das técnicas eleitas por Stella Adler) associados ao improviso, ou seja: os elementos inerentes à cena com a  liberdade necessária para torná-la real.  Além disso, sublinhamos com ênfase outro tópico fundamental do sistema: a “linha direta de ação”, ou, ainda, a clareza dos objetivos. Cada personagem deveria saber quais eram seus OBJETIVOS em cada cena e na obra como um todo. Para conferir “verdade” à uma cena qualquer, MAIS IMPORTANTE do que ter suas falas ou “deixas”  decoradas é saber o que a personagem QUER ou PRECISA fazer/alcançar em cada momento. Elucidadas as questões referentes às  “circunstâncias dadas” e “objetivos”, era momento de passar para o próximo tópico: a construção das personagens.  Fizemos uma reunião INDIVIDUAL com cada ator e cada um deles precisou escrever todo um “histórico” de sua personagem (comumente chamada de “Gênese” aqui no Brasil), para que fosse possível familiarizar-se com os detalhes referentes à vida de cada papel: afinal de contas, o roteiro apresenta-nos apenas um fragmento da vida de cada personagem – e cabe ao ator, orientado pelo diretor, preencher as lacunas. Cada construção foi lida cuidadosamente por mim e por Luciana Stipp, e, sempre que necessário, sugerimos as alterações que julgávamos pertinentes. Terminado esse processo, chegava o momento de dar vida física à personagem, e cada ator  elaborou uma série de características externas enquanto muitos iniciaram também os processos de laboratório, ou seja,  a vivência e/ou pesquisa daquilo que iriam interpretar. Todos os atores envolvidos em cenas de luta, por exemplo, foram convidados a participar de treinos ministrados na própria sede da Reticom Filmes e posteriormente na sede da equipe de lutas da “GIBI THAI”, onde puderam entrar em contato real com o universo profissional das artes marciais.  Outros foram encaminhados para um laboratório mais acadêmico  através da leitura de livros especificamente recomendados para seus papéis.

Somente então iniciaram-se os ensaios! E como deu resultado! Ter trabalhado ao menos os conceitos de “circunstâncias”, “objetivos”, “improviso” e  “construção da personagem / laboratório” foi vital para a unidade dramática do filme. É claro que, como artistas, estamos num constante processo de aprendizado e temos plena ciência de que sempre há muito a melhorar, mas temos orgulho dos resultados alcançados. Evidentemente, nem todos os atores seguiram à risca as orientações, assim como nem todos tiveram o mesmo aproveitamento. Outros ainda tinham suas próprias “malinhas” de truques e ferramentas que lhes conferiam segurança, e, na hora “H”, preferiram deixar o sistema de lado e usar aquilo que lhes seria mais confortável, mas, de modo geral, o resultado foi surpreendente e a qualidade das atuações tem arrancado elogios praticamente unânimes.  Recentemente, o excelente cineasta argentino Ezio Massa declarou, após assistir  SEM FIO, que “...nunca tinha visto atuações com essa qualidade na América Latina...”.  Se eu fosse mencionar nomes de atores que se destacaram no longa, com certeza faria uma lista injusta, já que o elenco é grande e muitos que realizaram um trabalho magnífico acabariam ficando de fora – mas fica aí a dica: quem quiser conferir um pouquinho do “sistema/método” colocado em prática no cinema (tanto na atuação como na direção), está convidado a assistir o longa SEM FIO.  Por enquanto, o filme encontra-se em cartaz somente em São Paulo (basta conferir a programação das salas de cinema), e em breve deve estrear em outras partes do país.  Mas cuidado! Quando for assistir o filme, prepare-se, já que, nas palavras do cineasta e crítico Fernando Severo:  “...o filme é uma porrada na cara, que entra sem pedir licença...”. Até a próxima edição! 

Tiaraju Aronovich é cineasta, ator e músico formado pelo California Institute of the Arts em Los Angeles. É professor do Actor Studio SP Brasil. 

IMPORTANTE: O Actor Studio SP Brasil, sediado na Escola de Cinema, não é representação oficial nem filial do The Actors Studio.

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