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Actor Studio
A Rússia chega no Actor Studio SP Brasil!
 

Por Tiaraju Aronovich

 

Em nosso último artigo, Hollywood desembarcou nas páginas do Guia de Teatro através da entrevista concedida pelo fabuloso Chad Christopher, um dos mais destacados atores norte-americanos da nova geração e representante legítimo e direto de Stella Adler e Lee Strasberg. Para esta edição, reservamos mais uma surpresa especial: fomos beber direto da fonte – na Rússia! A equipe do Actor Studio SP Brasil juntamente com os produtores e atores Gunther Mittermayer e Beto Gonsalvo teve o privilégio de conversar demoradamente com uma das maiores autoridades mundiais no sistema de Stanislavski: a Doutora Elena Vássina.

Dona de um currículo assombroso, Elena possui a titulação de Doutorado e (pasmem!) Pós-Doutorado na Universidade Estatal de Moscow e no Instituto Estatal de Pesquisa da Arte na Rússia com foco em História e Teoria da Arte, Cultura e Literatura! Como se não fosse o suficiente, um tio de Elena trabalhou diretamente com Stanislavski no período áureo do Teatro de Arte de Moscow!

Num bate-papo descontraído, Elena Vássina revelou verdadeiras pérolas referentes à criação e desenvolvimento do sistema de Stanislavski na Rússia e no mundo. Quando indagada acerca das bases teóricas do método, a professora nos emocionou discursando sobre a ênfase que Stanislavski dava ao “Auto-Aprimoramento” do indivíduo, ou seja, o mestre russo acreditava que, para tornar-se um grande ator ou diretor o indivíduo deveria tornar-se primeiro um grande artista e antes ainda, um grande ser-humano, com uma formação completa e abrangente nos mais variados campos de conhecimento. Somente assim sua arte seria verdadeira e profunda. Justamente por isso, ele também alertava que seu sistema jamais seria definitivo, pois deveria evoluir e progredir de acordo com as necessidades, avanços e descobertas de cada artista e praticante. Elena falou ainda sobre a grande importância da imaginação no trabalho do ator, o famoso “se” mágico tão popular entre os estudantes de teatro.

Abordando um tópico sobre o qual já falamos num artigo anterior, a especialista russa também discorreu sobre as diferenças entre as vertentes de Lee Strasberg e Stella Adler nos EUA, afirmando que as ferramentas abraçadas e desenvolvidas por Lee podem ser atreladas ao sistema de Stanislavski em sua fase mais prematura e embrionária, enquanto os tópicos focados por Stella Adler já condizem com o trabalho mais maduro de Stanislavski, na década de 30. Ainda assim, Elena não defende uma visão em detrimento da outra, pelo contrário, afirma que cada interpretação de Stanislavski serviu seu propósito em momentos diferentes.

Outro tópico que nos chamou a atenção e que é de especial importância para uma publicação como o Guia de Teatro foi a comparação entre Stanislavski, Meyerhold e Brecht. Frequentemente no Brasil, atores, diretores e estudantes posicionam estes nomes em lugares opostos, como se fosse necessário escolher apenas um deles como linha de trabalho, ou ainda: como se fosse impossível adotar dois ou os três ao mesmo tempo! Com embasamento teórico de peso e conhecimento abundante em primeira mão, Elena Vássina nos provou por “A + B” que os três ícones do teatro são complementares, possuem muito mais pontos em comum do que divergências, e que estudar e adotar teorias e práticas de Stanislavski, Meyerhold e Brecht não só é possível como também saudável e interessante!
Finalmente, perguntamos à Elena Vássina por que o nome e a obra de Stanislavski são tão conhecidos e difundidos no Brasil em grande parte das escolas e grupos de teatro ao mesmo tempo em que, na prática, o que vemos na maioria das montagens é o extremo oposto daquilo que o mestre russo pregava, ou seja, atuações mecânicas e artificiais, peças completamente “marcadas” ou coreografadas e atores inteiramente dependentes do texto.

A resposta de Elena foi interessante: primeiramente, a especialista russa alertou para a “pouca idade” do teatro brasileiro. Com vida ativa considerável somente a partir da Segunda Grande Guerra, ainda falta ao Teatro brasileiro uma tradição técnica e acadêmica sólida e madura – o que só virá com o tempo. Além disso, com bastante humor Elena também apontou para a falta de disciplina de muitos atores brasileiros. Revelou que na Rússia os estudantes de Artes Cênicas estudam tanto quanto os estudantes de medicina (!), enquanto no Brasil, ainda é comum presenciar nossos jovens atores mais tempo nos bares e nas festas do que nos palcos!

A entrevista espetacular com Elena Vássina se estendeu por bastante tempo, reunindo ainda outras curiosidades e detalhes sobre Stanislavski. O resultado e o conteúdo completo desta conversa faz parte de um documentário sobre o “Método” atualmente em fase de produção pela equipe da Reticom Filmes, mas isso já é assunto pra outro artigo! Até lá!

 

Tiaraju Aronovich é cineasta, músico e ator especialista no “Método” formado pelo California Institute of the Arts em Los Angeles. É professor do Actor Studio SP Brasil.

 

IMPORTANTE: O Actor Studio SP Brasil, sediado na Escola de Cinema, possui parcerias com os fundadores e criadores do “The Actors Studio”, porém não é filial nem representação oficial do mesmo.

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