Por Tiaraju Aronovich
Certamente um dos tópicos mais polêmicos e controversos quando se menciona atuação metódica ou o nome de Stanislavski é a tão famosa "Memória Emotiva". Professores, diretores e atores parecem pisar em ovos quando tocam nesse assunto, e, o mais interessante parece ser o fato de que, talvez por conta da mítica que envolva o tópico, ninguém consiga dizer com clareza quais os mecanismos ou eficácia real do uso e aproveitamento dessa tal memória emotiva (e, mais especificamente, o que ela vem a ser
exatamente?). Irônica e tristemente, o próprio Robert Lewis, autor de um trabalho fundamental e de referência no que toca a decodificação do Método, evitou elucidar o assunto quando da publicação de sua belíssima obra entitulada "Method or Madness" (já mencionada em artigos anteriores aqui no Espaço Actor Studio SP Brasil). Robert Lewis alerta que se trata de um assunto delicado e polêmico, mas ele próprio limita-se a somente
alertar, sem, porém, elucidar (hoje sabemos que Robert Lewis abraçou essa posição neutra por questões políticas, já que o uso da memória emotiva foi justamente uma das principais razões do "racha" entre Stella Adler e Lee Strasberg, principais pilares do Método nos EUA).
Aqui no Actor Studio SP Brasil, não temos medo ou receio de abordar esse tópico com segurança, já que o cerne de nosso trabalho é justamente o estudo, pesquisa e aplicação das mais variadas vertentes do Método, contudo, é sempre bom lembrar que nosso espaço é curto para um debate aprofundado de temas complexos, e pretendemos portanto somente abordar e elucidar questões chave para o entendimento da pauta em questão. De maneira superficial e grosseira, quando se pensa em memória emotiva, sempre vem à cabeça aquela situação pitoresca e clichê: se numa determinada cena o ator precisar chorar, ele então poderia "buscar" uma memória pessoal triste o suficiente que pudesse levá-lo às lágrimas, ainda que essa memória não tenha nada em comum com a cena em questão (me ocorre
o velho exemplo do ator que sempre lembra da morte de seu cachorrinho para as cenas trágicas de uma peça). Basicamente, isso ilustra um mecanismo simples e rudimentar: sempre que o ator precisar transmitir à audiência ou ainda inserir em cena emoções específicas e intensas, ele deveria então buscar em suas próprias memórias lembranças que o fizessem trazer à tona emoções igualmente intensas, pois somente com emoções "verdadeiras" o ator poderia dar realismo à uma cena (ainda que a SITUAÇÃO utilizada como fonte dessa lembrança seja COMPLETAMENTE diferente da situação ilustrada na peça
ou filme) - daí o nome "memória emotiva". É justamente aqui, porém, que as coisas ficam nebulosas. Esse tipo de uso da memória emotiva, que hoje chamamos de MEMÓRIA EMOTIVA ALEATÓRIA (damos o nome de "aleatória" pelo fato de que ela não precisa ter NADA em comum com os fatos ilustrados na cena da peça ou do filme, basta que alcance
resultados satisfatórios) é justamente um uso defendido e propagado por Lee Strasberg (é claro que ele desenvolveu mecanismos e meios mais complexos para acessar e explorar essas memórias, técnicas que vão além de "lembrar do cachorrinho morto". Técnicas aliás posteriormente desenvolvidas por grandes professores como Utah Hagen). E esse tipo de uso da memória emotiva, em associação ao relaxamento e foco do ator, são as principais características da vertente do "Método" encabeçada por Lee Strasberg.
Mas afinal de contas, quais os problemas e polêmicas associados à esse tipo de técnica? Bom, são vários. Vamos começar:
1) Primeiramente, vamos supor que o ator simplesmente NÃO tenha em sua bagagem de memória NENHUMA lembrança que o faça produzir a emoção necessária para a cena em questão. O que fazer nesse caso? Nem todas as pessoas vivenciaram experiências suficientes para produzir toda a sorte de emoções.
2) Ainda que o ator possua tal lembrança, até que ponto ele pode reutilizá-la obtendo os mesmos resultados? Traduzindo: talvez na décima quarta vez que o ator lembrar do "cachorrinho morto" para provocar o choro na cena, pode ser que essa lembrança já não o abale tanto!
3) Outra questão grave: dentro das práticas do "Método", o ator batalha e se esforça durante um longo período de tempo para "CONSTRUIR" uma nova personagem, ou seja, um novo ser-humano com lembranças, emoções e espírito próprios que deve ser "incorporado" técnicamente durante o processo de encenação da peça ou filme, porém, se em dado momento, o ator se utilizar de uma lembrança SUA, será que ele não estaria ABANDONANDO momentaneamente a personagem construída e VOLTANDO a ser ele mesmo? Afinal de contas, aquela memória utilizada é do ATOR e não da PERSONAGEM.
4) Talvez, contudo, o mais polêmico dos entraves seja este: e se o ator buscar uma memória que o abale demais? O inconsciente é incontrolável e misterioso, e certas memórias são bloqueadas por mecanismos psíquicos que visam preservar a integridade emocional de cada indivíduo. E se esse equilíbrio for quebrado e o ator remexer em memórias que o derrubem de forma que ele não esteja mais no controle de suas faculdades psíquico-emocionais? E se o ator se abalar a ponto de não conseguir repetir a cena ou a tomada?
(...) CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.
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