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Plínio Marcos
A resistência da arte!
 

     Ele não gostava de ir à escola quando criança e, com certeza, nem imaginava que um dia se transformaria em motivo de estudo. Plínio Marcos de Barros nasceu em Santos, em 29 de Setembro de 1935, numa família humilde. Como não gostava de estudar, o pai sempre o incentivou a trabalhar, encaminhando-o para diversos empregos. Foi encanador, estivador, vendedor de livros, camelô, funileiro…

     A vida artística começou por causa de uma paixão de juventude. Queria namorar uma garota que trabalhava no circo, mas o pai dela só permitia que a filha namorasse alguém que também fosse circense. Problema resolvido. Lá foi Plínio Marcos trabalhar no circo. Como era um sujeito engraçado, em pouco tempo já estava animando as platéias como o palhaço Frajola. O nome veio de um apelido adquirido quando foi preso por tentar roubar um passarinho de uma gaiola. Daí, a comparação com o gato Frajola que, na época, acabava de surgir nas histórias em quadrinhos. Trabalhou em vários circos. Num deles, o espetáculo era dividido em duas partes. Na primeira, era realizado um show com palhaços e números de circo. Na segunda, encenava-se uma peça. Plínio fazia pequenos papéis cômicos. Também começou a se apresentar na TV-5, de Santos, como humorista e como o palhaço Frajola, alcançando grande popularidade. Já era apresentado nos shows como “o cômico mais querido da cidade”.

     Em 1958, Patrícia Galvão, a Pagu, estava precisando de alguém para substituir um ator na peça infantil Pluft, o Fantasminha. Plínio Marcos pegou o papel e acabou se tornando grande amigo de Pagu. Através dela, conheceu um grupo de intelectuais do qual recebeu forte influência. Aos domingos, os amigos se reuniam e Geraldo Ferraz, marido de Pagu, lia peças de teatro. Assim, Plínio Marcos se envolvia com o mundo da dramaturgia. Tornou-se membro do Clube da Poesia do jornal O Diário de Santos, no qual publicou várias poesias. Começou também a fazer teatro amador em Santos. Em 1958 e 1959, trabalhou com sucesso como ator e diretor em várias peças.

   Certo dia, ouviu uma história que o marcou muito. Um rapaz, preso por um motivo banal, havia sofrido abusos na cadeia e, dois dias após ser liberado, matou quatro outros presos que dividiam a cela com ele. Plínio ficou chocado e, de forma impulsiva, escreveu a história em forma de dramaturgia. Imaginou o que se passara no xadrez antes, durante e depois de o garoto entrar. Coisas que ele conhecia bem de tanto escutar histórias na boca da malandragem. Nascia “Barrela”. Plínio levou o texto para Pagu que, de imediato, reconheceu a força da peça. Ela então levou “Barrela” para Pascoal Carlos Magno, que estava realizando o Festival Nacional de Teatro de Estudantes, em Santos. Pascoal ficou atônito e disse que fazia questão que os estudantes montassem a peça. No início de 1959, a peça começou a ser montada. Plínio, em “Barrela”, era ator, diretor, cenógrafo e o que mais precisasse. A censura chegou a proibir a encenação, mas com a intercessão de Pascoal junto ao então presidente Juscelino Kubitschek, de quem era próximo, acabou por liberá-la para apenas uma apresentação, que aconteceu no dia 1º de novembro de 1959, no palco do Centro Português de Santos. Depois disso, a peça ficou proibida pela Censura Federal por vinte e um anos. Mas era tarde. A genialidade de Plínio Marcos já havia tocado as pessoas e o público clamava por novos textos. Plínio sentia-se sem inspiração, mas, pressionado a produzir, acabou por escrever a peça “Os Fantoches, ou Chapéu sobre Paralelepípedo para Alguém Chutar”. A peça recebeu uma péssima crítica e foi considerada um vexame. Mas Plínio Marcos havia jurado para si mesmo que não se deixaria levar, nem pelos afagos, nem pelas pancadas da crítica. Havia tomado a decisão de ser dramaturgo.

     Mais tarde, em São Paulo, freqüentando o Bar Redondo, conheceu o Teatro de Arena, que ficava na mesma rua. Trabalhou como ator em várias companhias, mas estava sempre batendo de frente com a censura, que não permitia a encenação de seus textos. Para sobreviver a essas intempéries, ia se virando como dava. De manhã, vendia álbuns de figurinhas na feira, de tarde trabalhava na técnica da Tupi e à noite assumia a função de administrador do Teatro de Arena. Bem humorado, declarou um dia: “Sofri mais do que a mãe do porco-espinho na hora do parto, impedido de trabalhar”.

     Ator sem nome, sem carreira, trabalhando de técnico na TV Tupi, ninguém o convidava para nada. Escreveu, então, “Dois Perdidos numa Noite Suja”, para ele mesmo representar. Convidou para o projeto o ator Ademir Rocha e o diretor Benjamin Cattan. Como não tinham onde se apresentar, estrearam a peça no bar Ponto de Encontro, na Galeria Metrópole. O espetáculo recebeu boa crítica e, aos poucos, Plínio Marcos foi se reencontrando com a dramaturgia. As companhias pediam textos. Muita gente queria interpretar sua obra, mas a censura era, cada vez mais, uma pedra no seu sapato. Na década de 70, Plínio Marcos era o próprio símbolo do autor perseguido pela censura. Era considerado um maldito, que incomodava a ditadura e a Censura Federal. Foi preso pelo 2º Exército em 1968, sendo liberado dias depois, por interferência de Cassiano Gabus Mendes, então diretor da TV Tupi. Em 1969, foi preso em Santos, no Teatro Coliseu, por se recusar a acatar a interdição do espetáculo “Dois Perdidos Numa Noite Suja”. Foi transferido, depois, do presídio de Santos para o DOPS, em São Paulo, de onde saiu por interferência de vários artistas e sob a tutela de Maria Della Costa.

     Incomodado com a constante proibição da encenação de seus textos, acabou por se aventurar pela literatura. Escreveu romances, contos, reportagens, entrevistas e crônicas sobre vários assuntos.

     Em outubro de 1979, um grupo de atores se juntou para, clandestinamente, montar Barrela, que completava 20 anos de proibição pela censura. A peça estreou em dezembro, no porão do TBC, cedido por Antônio Abujamra, diretor do teatro na época. Os ingressos eram vendidos pelo próprio elenco para as pessoas nas ruas. Todas as sessões, que eram realizadas às sextas-feiras à meia-noite, lotaram. Um êxito.

     A partir da década de 80, Plínio Marcos intensificou uma atividade que já vinha exercendo: fazer debates e palestras em faculdades, universidades, teatros, clubes e até em praças públicas. Mas nunca deixou de escrever para o teatro, deixando sempre sua marca nos textos que criava.

      Plínio Marcos faleceu em São Paulo, em 19 de Novembro de 1999. Sua obra, sua perseverança, sua coragem e sua história continuam vivas.

 

Conheça a obra teatral completa de Plínio Marcos no site: www.pliniomarcos.com

 

 

MOSTRA PLÍNIO MARCOS

 

    A obra de Plínio Marcos serviu como uma luva para o Grupo TUSP, o qual preparava um trabalho sobre o tema “Estruturas do Poder”. Após lerem textos de vários autores, a escolha estava feita. Foram muitos encontros, discussões e pesquisas. Desse trabalho resultou a montagem de três textos pelo Grupo TUSP: O Abajur Lilás, Quando as Máquinas Param e Navalha na Carne. A partir daí, o TUSP resolveu montar a Mostra Plínio Marcos, com espetáculos do autor que vinham sendo apresentados por outros grupos de teatro. A mostra começou em agosto e vai até novembro. Confira os espetáculos em cartaz.

 

Abajur Lilás - 22/08 a 07/09

 

A Mancha Roxa - 12 a 28/09

 

Balada de Um Palhaço - 3 a 19/10

 

Homens de Papel - 24/10 a 09/11

 

Os espetáculos acontecem sempre às sextas e sábados, às 19h e aos domingos, às 18h. Ingressos a R$20 Informações e reservas: TUSP - R. Maria Antônia, 294 - Consolação - Tel 3255-7182 ramais: 41 e 53

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