Entrevista – O ator Jair Assumpção fala sobre o musical “Avesso”

Um grupo de alunos sequestra um professor, em protesto contra a nova reitoria da Universidade. Essa é a trama central do musical Avesso, de Daniel Torrieri Baldi e Maria Elisa Berredo. O Guia de Teatro conversou com o ator Jair Assumpção, que interpreta o professor, sobre o espetáculo e sobre o momento político em que ele acontece.

 

Crédito: Francisco Júnior (Juh.Ninho)

Crédito: Francisco Júnior (Juh.Ninho)

Guia – Este espetáculo, inevitavelmente, nos remete ao momento polarizado que vivemos no Brasil e aos problemas que isso tem gerado. De que forma você acha que ele pode ajudar nessa discussão?

Jair – Eu não acho que a pretensão de qualquer espetáculo seja a de resolver uma questão, de encerrar uma discussão. Eu acho que o poder do teatro é o de gerar questionamento. Quando nós ensaiamos este espetáculo, claro que buscamos algumas referências do cotidiano, do que está acontecendo no país, mas em nenhum momento a gente falou neste ou naquele candidato ou partido político. Essa referência direta que o público fez com o momento político foi uma surpresa desde a estreia porque todo mundo começou a relacionar o espetáculo diretamente com a questão das eleições. Claro que muito do que nós falamos está presente nessa situação, mas não nesse contexto. Na verdade, hoje em dia, se você observar, pode colocar esse contexto em qualquer situação: essa polarização, o que é melhor e o que é pior e como isso vai se resolver.

 

Guia – A peça se passa em um momento violento gerado pela falta de diálogo dentro de uma universidade. Como o público reage a essa situação?

Jair – A peça retrata uma violência que realmente acontece na sociedade. A peça em si não é violenta. Ela é uma representação dessa violência, encenada em um palco. Eu ouvi de uma pessoa que assistiu “A gente vê isso na televisão diariamente. Mas ver isso diante dos olhos e com o corpo presente é muito mais violento”. O teatro tem esse poder. Eu sou professor e já dei aula pra turma pesada. Não apanhei – como o meu personagem na peça – mas já fui questionado e encostado na parede por aluno. Isso é uma questão real, que está aí. Mas o nosso propósito é muito mais o de discutir a torre de babel em que a gente está vivendo, onde ninguém mais se escuta. E cada um, de uma certa forma, tem a sua razão, dependendo do ângulo que você olha. Mas ninguém está a fim de abrir mão do seu olhar. Eu sempre falo que o teatro é uma vitrine em que você não tem muito controle do que colocou do lado de cá. Você precisa da confirmação do lado de lá. E a confirmação começou a vir no sentido de que a gente estava discutindo o que o país está atravessando. A violência está presente e eu falo que a torre de babel e a falta de ouvido também. O que mais falta é a gente se ouvir. Ninguém está a fim de ouvir, só está a fim de falar.

 

Guia – Como você vê o teatro neste momento político e cultural?

Jair – Dependendo dos caminhos que o país tomar, o teatro terá que ser uma afronta um pouco mais direta. E eu acho que, inclusive, o teatro está devedor disso. Quando eu vejo espetáculos internacionais que vêm para o Brasil através de festivais, por exemplo, eu vejo que os caras estão discutindo a política mundial, e a gente vê que isso ainda é um pouco reticente no palco brasileiro, ou se é visto, é visto por um ângulo só. Mas eu acho que o teatro não tem esse poder de finalizar uma questão. O grande poder do teatro e que o incrimina perante os ditadores é que ele abre a discussão, ele não fecha. Ele discute abertamente. O que eu vejo onde eu dou aula pra essa moçada é que a aula de teatro é aberta para se discutir absolutamente tudo, desde a ausência do caroço na azeitona até a questão do trans, da política… e a questão é abrir a discussão, não fechar. O teatro tem essa benesse.

 

Guia – Por que o formato musical?

Jair – Na verdade, o Hudson é um especialista. Ele trabalhou muito com o Wolf Maya, aprendeu muito com ele e traz muito essa questão do musical. Essa ideia do texto partiu do Hudson para o autor. Depois, sentados à mesa, os atores ajudaram a filtrar. Mas desde o começo já havia essa intenção de fazer um musical. Uma coisa muito interessante é o trabalho do Thiago Gimenes, que é o diretor musical. Um dos motivos de eu querer fazer esse espetáculo foi por poder trabalhar com o Thiago e o Glauber. O Thiago é um diretor de musicais com uma eficiência incrível. Quando ele vinha com a música de um personagem, isso eliminava uma página inteira de texto, que de repente era apresentado na música com muito mais propriedade. Esse foi um casamento muito feliz. E se você observar também, cada personagem tem a sua musicalidade própria. A minha, por exemplo, é uma valsa. O que o outro canta é um rap, o outro é quase um samba. E isso tudo quem trouxe foi ele, também alimentado por essa discussão.

 

Guia – Você está trabalhando com alguns atores que também são seus alunos. Como essa relação de fora do palco contribuiu para a relação dos personagens?

Jair – Às vezes eu vejo que um ator está tomando um caminho errado ou está com muita angústia e eu dou uma luz. Ou se ele não entende ainda como funciona esse tipo de produção, eu dou uma aula sobre o que é uma produção alternativa, que não tem verbas do Estado, onde você paga um camareiro e uma maquiadora. Aqui as pessoas estão fazendo tudo. E pra elas isso tudo é muito novo. Então, às vezes, elas trocam a bola. Eu chego, sento e a gente conversa. O teatro sempre teve essa abertura e você discute absolutamente tudo. Você não briga, você discute. Em alguns momentos eu tive que me calar porque não seria o melhor momento de me colocar, mesmo porque o meu personagem tem ascendência sobre eles na peça e isso gera uma certa antipatia. Há um antagonismo. Às vezes eu sentia que se eu me manifestasse, isso estaria muito presente no corpo do espetáculo. Então você tem que esperar acabar a peça, ter uma reunião, ou num dia que não tem ensaio onde as pessoas se abrem e colocam os seus problemas, aí você discute, porque não tem palco. Por outro lado, essa juventude deles nos trouxe muita verdade e muita referência. Teve essa questão de pesquisar a lei das cotas raciais. Tem um dos atores que acabou de se formar em faculdade e trouxe muito essa visão do que é a universidade por dentro. Como o próprio Glauber diz, não foi uma direção coletiva, mas foi sim um processo colaborativo. Inclusive o autor esteve presente em ensaios e discussões, e mudou partes do texto onde era levantada alguma questão que enriquecia a peça. Isso eu acho muito legal no teatro. Tem que quebrar um pouco essa pirâmide e colocar todo mundo num patamar mais razoável.

 

Serviço:

O Musical Avesso

Temporada até 25 de novembro de 2018
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 19h.
Local: Teatro Nair Bello R. Frei Caneca, 569, 3º piso – Shopping Frei Caneca
Vendas: Tudus

 

31.10.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

Adicionar comentário