Ele é o diretor de “Olhe para trás com raiva”, do dramaturgo inglês John Osborne, que tem tradução de Antonio Guimarães e Angela Ramalho e adaptação de Marcos Daud e que está em cartaz no Teatro Vivo. Em entrevista ao Guia de Teatro, Ulysses Cruz falou sobre a força do espetáculo que mistura ambiguidade, contradição e indignação.
Guia - Esta é uma peça que mudou parâmetros?
Ulysses – Com certeza. E é isso que fez a diferença dela na época (1956). O teatro inglês vivia de reedições dos grandes clássicos, de comédias ligeiras, um teatro pouco alinhado com o mundo do pós-guerra. Aí surge um teatro experimental, tocando em assuntos que não eram usuais como, por exemplo, o questionamento da santa ideia do casamento. Na peça, os personagens vivem quase um casamento a três. O personagem Jimmy Porter (Sérgio Abreu), num determinado momento, diz para a esposa Alisson (Karen Coelho) e o amigo Cliff (Thiago Mendonça) “Por que vocês não vão para a cama de uma vez?” Eu tenho certeza que se eles resolvessem realmente ir para a cama, haveria uma conversa interessante, mas não seria sobre ciúme. Provavelmente seria uma grande conversa sobre intolerância, sobre vulnerabilidade, nunca sobre ciúme. Então, a peça mudou parâmetros sim. Isso foi realmente uma ruptura.
Guia – Existem aspectos visuais muito marcantes na peça. O cenário, por exemplo, nos remete a uma pintura. De onde vem essa concepção?
Ulysses - Essa obra ajudou a criar uma escola em que as peças tinham como cenário o cotidiano da casa. Normalmente elas se passavam dentro de uma cozinha. Depois dessa peça, várias outras vieram. Por conta disso, nessa época, um grupo de artistas plásticos começou também a desenvolver um conceito dentro dessa mesma temática: óleos de espaços da casa, de cozinhas... Daí a ideia de o cenário se parecer com um grande quadro, uma grande pintura. Nós fizemos uma brincadeira na mesa do cenário. Evidentemente, nem todo mundo repara, mas ela é inteira composta como se fosse mesmo um quadro dessa escola, com excesso de objetos, de elementos. A peça tem um apelo visual muito forte por conta disso. Penso que é instigante a plateia tentar decifrar uma simbologia que para nós é clara. Na época em que ela foi concebida os dramaturgos dialogavam muito com os artistas plásticos, com o pessoal do cinema, com aqueles que estavam criando um novo olhar. Porque depois da Segunda Guerra as coisas se modificaram muito rapidamente e era importante definir um novo olhar .
Guia - A luz também é um elemento de muita expressão no espetáculo.
Ulysses - A Luz é um ótimo trabalho do Domingos Quintiliano. Esta é a vigésima terceira peça que faço com ele. O Domingos começou comigo a fazer iluminação, a desenhar luz. Hoje, na minha concepção, ele é um dos três melhores iluminadores do teatro brasileiro. O trabalho dele é absolutamente fiel ao conceito da cena. Ele entende a cena. Também, são tantos anos de um colaborando com o outro... Eu acho que às vezes ele ilumina aquilo que eu mesmo ainda não havia entendido direito. Eu gosto dessa dificuldade. Na verdade, a gente cria as dificuldades. A gente não quer fazer o simples, mas o plural. Às vezes a gente chega à conclusão de que até está demais. Mas acho muito melhor fazer mais e depois ir tirando, até chegar à essência, do que partir do pouco e faltar. Eu parto do princípio de que eu quero o máximo e o Domingos sabe como fazer. Depois a gente tira o que é excesso.
Guia – A ambiguidade e as contradições da peça marcam muito o período pós-guerra. O que o moveu a montá-la nos dias de hoje?
Ulysses - Eu sou de uma geração que gostava do debate, da discussão. Não era ir ao teatro simplesmente, mas conversar sobre o que se tinha visto. Isso completava o quadro. Algo além do “gostei, não gostei”. Claro que isso potencializava tremendamente a ida ao teatro. Ele ecoava. O teatro era mais politizado nas décadas de 70 e 80. Era até demais. Havia as chamadas patrulhas ideológicas. Hoje ninguém tem mais tempo nem paciência para a cultura, para tentar entender e se inserir nas grandes causas. O debate político fica restrito à televisão. Há um enorme desencanto com a política. Acho que para o jovem, hoje em dia, é muito mais importante conseguir uma graninha para comprar uma calça jeans e desfilar no shopping, com a namorada, do que ficar enfurnado num lugar, numa tarde, dialogando sobre ideias, assistindo a um filme importante, lendo algo revelador, aprendendo a se situar no mundo. O que mais me atraiu nessa peça foi a indignação do personagem principal, Jimmy Porter, dizendo “Ninguém faz nada, ninguém se preocupa com nada. O que eu queria, na verdade, era um pouco de entusiasmo!”. Isso é extremamente contemporâneo. É o retrato de nossa época. A gente só aceita as coisas e eu acho que simplesmente aceitar é ruim. Aceitar nos domestica. A pessoa aceita aquilo que está pronto na frente dela e só. O meu entusiasmo com esta peça veio disso. Dessa necessidade de questionamento que ela mostra, do combate que ela propõe. Ironicamente, também o Jimmy, ao final, nada faz. Mas há, nessa peça, essa chama jovem inquieta que merece uma reflexão.
OLHE PARA TRÁS COM RAIVA
Teatro Vivo
Av. Dr. Chucri Zaidan, 860
Morumbi - Tel: 7420-1520
Sex, 21h30 e dom, 19h, R$40.
Sáb, 21h, R$50. Até 22/08.
Classificação: 12 anos