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Clube da Comédia
O stand-up veio pra ficar
 

Definitivamente, o stand-up é um formato que agradou. Seja no cantinho de um bar ou num grande palco de teatro, ele vem arrastando uma multidão de pessoas que adoram rir das situações cotidianas que elas mesmas vivem e que são mostradas com muito humor, da forma mais simples possível: um texto, um microfone e um humorista. O espetáculo “Clube da Comédia” é um desses campeões do riso e conta com alguns dos precursores do stand-up no Brasil. Em entrevista ao Guia de Teatro, Marcelo Mansfield, Marcela Leal e Oscar Filho falaram um pouco do processo de criação desse estilo que, ao que tudo indica, veio para ficar. Danilo Gentilli, o quarto integrante do clube, não participou da entrevista porque estava gravando o programa CQC no dia em que ela foi realizada.

 

Guia - Quando e como vocês descobriram que eram engraçados?

 

Marcelo Mansfield - Desde criança. Meu tio me chamava de Dr. Simpatia. Eu sempre fui muito de brincar, sempre dei muita risada. Sabe aquelas montagens fotográficas de criança dos anos 50, 60? Tinha um monte de fotos: no telefone, rindo, chorando... Eu não tenho foto chorando. Eles me davam um ursinho para brincar e depois o arrancavam de mim para eu chorar, mas eu não chorava. Continuava rindo. Mas quando eu virei adolescente e comecei a pensar na carreira de ator, não pensava em comédia. Pensava que podia ser um ator dramático, trágico, galã, alguma coisa assim. Até que comecei a ver que não, que não ia dar certo. Comecei a fazer publicidade e sempre era chamado para gravar propagandas engraçadas. Aí as coisas engrenaram. Percebi que eu vendia bem com comédia. E fiquei.

 

Oscar Filho - Sempre tive aquela coisa de ser o engraçadinho da turma. Vim fazer teatro aqui em São Paulo pensando em fazer peças sérias, dramas. Fazer as pessoas chorarem. Mas eu sempre colocava humor nas coisas, afinal eu era o engraçadinho (risos), e isso começou a dar certo. Eu comecei a fazer um evento aqui, outro ali, em bares, teatros. A bilheteria foi dando bons resultados e quando eu vi, estava vivendo só disso. Não foi uma coisa que eu corri atrás. Na verdade o que eu corria atrás era de ser ator, um cara sério no teatro. De ser humorista eu nunca corri atrás. Aconteceu naturalmente.

 

Guia - Como funciona o Clube da Comédia? Cada um faz seu próprio texto? Qual é o processo?

 

Marcelo Mansfield - Eu acho que a grande atração do stand-up não são os atores, são os textos.

 

Marcela Leal - Com certeza. A nossa máscara, a nossa peruca, o que a gente usa pra se apoiar é o texto. E o texto tem que ser muito bem feito, muito bem trabalhado, pra gente não chegar na hora e se ferrar. O processo é muito pessoal. Cada um tem a sua loucura, seu mérito. Eu, por exemplo, que sou “Caxias” pra caramba, sento e faço mil exercícios para escrever. Escolho um tema e fico esgotando todas as possibilidades de se criar uma piada em cima dele. Por exemplo: café. Loja de café, cafezinho, bombom de café, tudo sobre café. Tudo o que eu consigo sobre o tema. Eu gosto de fazer assim. Mas cada um tem um estilo. O Marcelo, por exemplo, improvisa muito e as coisas viram.

 

Marcelo Mansfield - Às vezes eu improviso uma coisa de cinco, dez segundos no palco e aquilo vai ficando na minha cabeça. Aí vai esticando como uma bala puxa-puxa. Quando eu vou ver, tem dez minutos de texto. Agora, se rola uma piada que não dá certo, ou a gente tenta consertar ou tira. Na semana passada a gente fez uma reunião e eu mostrei algumas coisas. Eles me ajudaram a consertar aqui e ali. Fui testar no palco e algumas piadas não funcionaram. Aí fui tirando um monte de coisas. Ou vai esticando, ou vai diminuindo. Cada um tem um método.

 

Oscar Filho - Eu, no começo, era muito neurótico com isso. Andava com um caderninho, uma caneta e ficava anotando tudo o que achava que poderia ser engraçado. Com o tempo, fui ficando mais seletivo nas coisas que eu anotava. Depois eu comecei a selecionar só com a cabeça mesmo. Agora, se eu observo alguma coisa e acho muito interessante, eu já escrevo algumas linhas pro stand-up. Algum tempo depois eu olho para aquilo e aquela ideia vai puxando uma outra. A gente encontra as melhores situações olhando a vida, prestando atenção em tudo o que acontece em volta, porque a vida é muito engraçada.

 

Guia - Como surgiu a idéia de fazer um espetáculo stand-up?

 

Marcela Leal - A primeira vez que eu ouvi falar de stand-up no Brasil foi num curso com o Cláudio Torres Gonzaga, que é roteirista no Rio de Janeiro e fundador do espetáculo “Comédia em Pé”. Foi muito legal. Ele colocou um vídeo do seriado “Seinfeld” num curso de humor para TV e eu pirei. Falei “nossa, quero fazer isso”. Eu já conhecia o “Seinfeld” mas ainda não atinava que aquilo era um tipo de humor diferente. Daí eu comecei a importar livros.

 

Marcelo Mansfield - E a gente começou a fazer sem ter nenhum espelho. Foi fazendo do jeito que achava certo, se baseando apenas nessas referências e até chegou a ir pro Rio de Janeiro fazer com o pessoal do “Comédia em Pé”. A gente começou a descobrir tudo isso junto. “O que é esse negócio?” E no fim acabou virando meio que um movimento espontâneo. Mas tem muita gente que está confundindo o novo estilo e o novo formato de comédia stand-up com modinha. Eu acho que está havendo um “boom” desse tipo de humor, mas é como se fosse a bossa nova: uma grande explosão, mas daqui a pouco vai ficar só o bom do stand-up. A pessoa vai poder sair de casa e dizer: hoje vou assistir um drama, uma comédia, um stand-up. O stand-up está entrando na grade teatral não só como uma moda, mas como um formato dentro da comédia. E eu me sinto o Vinícius de Moraes dessa história (risos). A Marcela é nossa Nara Leão, o Oscar é nosso Tom Jobim. No fim, sempre tem uma turma que vai ficar.

 

Clube da Comédia Stand-Up

Teatro Procópio Ferreira

Rua Augusta, 2823 – Tel: 3083-4475

Qua, 21h. R$40

Classificação: 14 anos

 

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