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Oscar Magrini
Molière, com muito humor
 

Ele está comemorando vinte anos de carreira, fazendo sua primeira peça clássica depois de treze montagens teatrais. Interpretando o personagem Arnolfo, em “Escola de Mulheres” de Molière, faz o público rir e pensar. Oscar Magrini conversou com o Guia de Teatro e falou do prazer de estar no palco e da diversão de trazer a plateia para dentro do espetáculo.

 

Guia - Como é representar um personagem que foi criado há mais de trezentos anos?

Oscar - Das 14 peças que eu fiz, “Escola de Mulheres” é o primeiro clássico. Quando eu fui convidado para fazer o protagonista – o Arnolfo – eu fiquei muito contente, porque achei o texto muito intenso. É uma peça antiga, do século XVII, mas a montagem do Roberto Lage é atemporal. A produção do espetáculo teve a preocupação de mostrar isso na modernidade dos painéis que compõem o cenário. O figurino, por exemplo, você percebe que é de época, mas não consegue precisar de quando. A montagem não se localiza nem no século XVII nem no XXI.

 

Guia - A peça tem uma comunicação muito intensa com o público. Como isso foi estruturado?

Oscar - Molière fazia um teatro mambembe, popular, de rua. Ele escrevia as peças para protagonizá-las. Depois, por uma questão política, as peças foram sendo levadas para dentro dos palácios, teatros. Mas o intuito era ter essa proximidade com o público. Então decidimos fazer o espetáculo sem a quarta parede e o contato com a plateia surgiu naturalmente. O solilóquio, os apartes dos personagens, são todos feitos para o público, conversando, explicando, trazendo o público para dentro do espetáculo.

 

Guia – A peça é muito engraçada. Mas também existe uma questão ética exposta no texto. Como caminhar com esses dois aspectos juntos? Uma coisa ajuda a outra?

Oscar - O Arnolfo enviou a Inês (Thais Pacholek) para um convento, desde menina, e exigiu que ela fosse educada de uma forma que a tornasse a mais estúpida possível, onde ela aprenderia a ler e a escrever, mas sempre na maior ignorância, sem perder a inocência, para que fosse a mulher ideal, que nunca iria traí-lo. Ele apostou na ignorância dela para poder controlá-la. É incrível, mas ainda existe gente que pensa assim. “O homem é supremo, a mulher é subalterna. O sexo feminino nasceu para a dependência. Quem manda é o homem”. O Arnolfo é o exemplo de tudo o que se possa citar em termos de preconceito, de sentimento de supremacia masculina, de falta de confiança. Ele quer levar vantagem sobre os outros e não tem nenhum questionamento moral. Isso causa um burburinho na plateia. Uma vez, falei o texto olhando para umas mulheres sentadas bem na frente, e elas comentaram entre si “que absurdo o que ele está falando!” É divertido isso, quando você fala diretamente com o público e sente que causou um desconforto. Existe essa troca. Você meio que “contracena” com a plateia. Mas a ideia é justamente fazer rir ao mesmo tempo em que se faz pensar. O importante é causar esse questionamento. O humor prende a atenção das pessoas e a mensagem vai sendo passada. Isso é o teatro.

 

Guia - Quando você se descobriu comediante?

Oscar - Eu acho mais difícil fazer rir do que fazer chorar. Principalmente se você faz um trabalho centrado, sem fazer micagens. Eu não sou humorista. Tem cara que já nasce engraçado por si só. A primeira oportunidade que eu tive de fazer humor foi na novela “Torre de Babel”. Eu vinha de um personagem forte – Ralph – que era um cafetão em “O Rei do Gado”, e na sequência o Silvio de Abreu me chamou para fazer um cara engraçado, o Johny Percebe. Eu sempre fui de imitar os outros, de tirar sarro, de brincar com tudo, com as situações. Quando surgiu a oportunidade de fazer o Arnolfo em “Escola de Mulheres”, eu adorei. O desenrolar da peça em si é muito engraçado, porque ele começa como o dono da situação, mas com o passar do tempo e dos acontecimentos ele vai se desesperando. Ele sabe todos os truques para chegar na mulherada. Mas quando ele cria uma menina para ser a mulher ideal para ele, as coisas começam a acontecer de uma forma que ele perde o controle da situação. E para piorar, Horácio (Erick Marmo) se apaixona por Inês e toma Arnolfo como confidente. Descabelado, camisa para fora, suado, a situação em que ele se encontra é a própria graça, mas para ele ela é absurda. Ele não acha graça nenhuma (risos).

 

Guia - Você tem algum outro projeto pro teatro ou tv?

Oscar - Em televisão por enquanto não. Foram oito novelas em quatro anos. Duas novelas por ano. Teatro eu não fazia desde 2007, quando fiz “Isadora Duncan - É Dançando que a Gente Se Aprende”, texto do Aguinaldo Silva e direção da Bibi Ferreira. Novela, se acontecer, talvez para o final do segundo semestre. Assim dá tempo para me dedicar à peça, o que eu estou achando fantástico. É muito bom estar num palco, ainda mais voltando a São Paulo, onde eu não me apresentava há oito anos. Nos finais de semana estamos na capital e às quartas e quintas viajamos pelo interior paulista. Em abril e maio faço um longa-metragem, “Correndo na Parede” do Marcos Barbosa, neto do Benedito Ruy Barbosa. Queremos levar “Escola de Mulheres” para o Rio de Janeiro e para Portugal, no segundo semestre. Então, se não pintar novela agora, eu posso focar mais no teatro. Mas se pintar, a gente concilia. Estou muito feliz porque com esta peça estou comemorando meus vinte anos de carreira com chave de ouro. Graças ao bom Deus!

 

Escola de Mulheres

Teatro Vivo

Av. Dr. Chucri Zaidan, 860

Morumbi - Tel: 7420-1520

Sex, 21h30 e dom, 19h, R$40.

Sáb, 21h, R$50. Até 30/05

Classificação: 12 anos

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