Ela vive nada mais, nada menos que Simone de Beauvoir, na peça “O Inferno Sou Eu” de Juliana Rosenthal K. Em entrevista ao Guia de Teatro, Marisa Orth fala das delícias e da responsabilidade de interpretar uma personagem tão importante para o nosso tempo, em especial para a compreensão do universo feminino.
Guia - Como é fazer um espetáculo baseado em uma personagem real como Simone de Beauvoir e daí partir para uma ficção?
Marisa - Eu acho que essa é a graça desse texto. A Ju (Juliana Rosenthal, dramaturga) fez uma pesquisa super séria sobre a Simone de Beauvoir e sobre essa viagem real que aconteceu em 1960. E ela achou esse período muito rico dramaturgicamente. Nos últimos dois dias do casal no Brasil a situação estava estranha mesmo. A Simone estava com tifo e o Sartre se apaixonou pela dona da casa onde eles estavam hospedados a ponto de pedi-la em casamento. Eles tinham um casamento aberto. Ele teve muitas namoradas mas nunca tinha chegado a esse ponto. A brasileira o abalou mesmo. Eles estavam exilados da França e a Simone estava longe do grande amor da vida dela, o Nelson Algren. Nunca mais eles voltariam a se ver. Tudo isso é real. Então a Ju criou uma personagem, a Dorinha, como uma interlocutora, uma mensageira, mostrando um outro jeito de ser mulher. A Dorinha se revela grávida e resolve ir atrás do homem que ama. A Simone vivia um momento meio contraditório em que o que escrevia não estava refletindo exatamente o que vivia. A Juliana partiu dessa situação e criou a personagem da Dorinha pra botar isso em xeque. Além disso, tem o desafio de fazer a Simone de Beauvoir, que é uma mulher real e quase contemporânea - ela morreu em 1986. Existem vídeos dela, tem gente viva que a conheceu. Ela era mais velha que eu (estava com 52 anos em 1960). Era uma mulher quente, mas francesa. Polêmica, mas européia. Eu sou mais italianada, sou mais brasileira, sou mais grandeloquente, meu braço é gigante (risos). Então eu tive que trabalhar uma certa contenção, mas sem ser morna. Foi difícil.
Guia - Então a peça funciona independentemente de o espectador conhecer a Simone de Beauvoir?
Marisa - Sim, porque é sempre um diálogo interessante. São duas mulheres de “backgrounds” totalmente diferentes. Uma é a mulher livre, famosa, vivida, que já transou com um monte de gente, super intelectual. A outra é uma menina do Recife, num terceiro mundo violento, semi-virgem, tiete da primeira. Esse encontro é interessante em qualquer situação. Então, mesmo quem nunca ouviu falar de Simone de Beauvoir pode se interessar pela peça porque ela trata de questões que até hoje nos afligem. Como diz a famosa frase: “caso ou compro uma bicicleta?” (risos). “Vou ser fiel pra sempre e ele vai ser fiel pra sempre? Será que isso dá certo? Ou vamos ter um casamento aberto? Quem aguenta? Por que casar?” São questões sempre atuais e que a gente não sabe a resposta.
Guia - Quais foram as alegrias e as dores de fazer esse papel?
Marisa - Foi difícil. Eu diria que se estivesse cantando, eu estaria usando notas que não são as que eu normalmente alcanço. Não é um instrumento que eu domino. Por isso eu estou muito orgulhosa. Fazia tempo que eu não exercitava esse lado. O José Rubens é o diretor que me formou. Ele trabalhou comigo quando eu tinha dezenove anos e por isso eu o chamei, porque eu sabia que ia ser um desafio muito grande. E o Zé não cai no meu papo. Eu não ia conseguir enrolá-lo. Não estou trabalhando na minha área de conforto. Então é óbvio que eu tive um monte de crises. Achei que não seria capaz, fiquei cega, surda, muda. Eu não tinha noção do que estava fazendo. Foi aquele processo que você não tem a menor ideia, entendeu? Eu achei que não ia colar. A grande alegria é que no final deu tudo certo.
Guia - No programa da peça tem uma declaração sua dizendo “todas nós somos filhas de Simone”. Isso pesa?
Marisa - Sinto uma responsabilidade grande. Minha mãe era muito fã da Simone. Ela faleceu o ano passado. Então esse espetáculo tem uma carga emocional muito grande para mim e eu sinto essa responsabilidade. Se eu fizesse uma Simone de Beauvoir caricata, exagerada, tendenciosa, minha mãe ficaria brava. E uma série de outras mulheres. A Simone foi um ícone para uma geração anterior à minha. Gente que hoje está com cinquenta anos (cinquenta e poucos, cinquenta e muitos) foi muito pautada pela Simone. Então eu não podia passar a ideia “ai, a Simone é errada”, ou “ai, a Simone se enganou”, ou “a Simone está certíssima”. Existe sim uma crítica em cima da postura da Simone nessa peça. Mas a responsabilidade é muito grande, sem dúvida.
Guia - A peça tem momentos de humor. Como foi pra você fazer esse humor diferente, talvez mais intelectual?
Marisa - Isso não foi determinado. Foi uma surpresa quando eu vi o público rindo. E tem grandes tiradas engraçadas que são da Dorinha. Ela acaba por causar o maior número de risos, até pela ingenuidade, pela inconveniência. A gente brincava nos ensaios que a relação da Dorinha com a Simone é meio como a do Burro Falante com o Shrek. Sabe quando o Burro Falante entra no pântano do Shrek? O Shrek fica “ai, meu Deus!” e o Burro “blábláblá” (risos).
Guia - Mas também há um certo humor na Simone
Marisa - Eu acho que todo mundo que é muito racional tem sempre um pouco de humor. O humor acompanha as pessoas que não têm muita fé na humanidade. Acho que a Simone e o Sartre não tinham. Talvez seja uma característica de grandes pensadores, grandes intelectuais. Eu acho que quem tem muita fé na humanidade não é muito engraçado.
Guia - E você tem algum outro projeto de música, teatro, tv?
Marisa - Vamos seguir com o Romance Vol. 2, um show que eu já vinha fazendo. Tem disco e tudo pra vender. A gente conseguiu um patrocínio esse ano com a Porto Seguro, então nós vamos fazer mais shows. E eu vou começar um novo programa na Rede Globo. Um “sitcom”. O nome provisório é “Emergência”. É tipo um ER avacalhado. Eu serei a Doutora Michele, uma obstetra. É esperar pra ver!
O Inferno sou eu
Teatro Jaraguá
Rua Martins Fontes, 71
Centro - Tel: 3255-4380
Sex, 21h30 e dom, 19h, R$50.
Sáb, 21h, R$60. Até 25/04.
Classificação 12 anos