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Ronaldo Ventura
A Trilogia Lésbica
 

O homossexualismo continua sendo um tema polêmico. Talvez porque muitos ainda não o vejam com a naturalidade que ele realmente tem. Duas pessoas se gostam, se atraem, e isso é o suficiente para que busquem a felicidade juntas. Daí para a frente, a vida segue como qualquer outra, com alegrias, problemas, expectativas, etc. O dramaturgo e diretor Ronaldo Ventura mostra isso em sua “Trilogia Lésbica”, três peças que não têm nem o pudor de mostrar no palco o amor entre mulheres homossexuais, nem a pretensão de vender a idéia moralista de algo certo ou errado. Justamente por essa posição em relação ao tema, o espetáculo “Les” ganhou o Prêmio GLBT do Ministério da Cultura. Em entrevista ao Guia de Teatro, Ronaldo fala de sua trilogia e da expectativa de encantar o público com seus espetáculos.

 

Guia - Por que uma Trilogia Lésbica?

Ronaldo - Eu sempre me interessei muito pelos relacionamentos. Eu gosto de falar sobre relacionamentos. E o universo homossexual feminino sempre me atraiu muito. Eu percebi que no teatro e no cinema as lésbicas geralmente são tratadas como pessoas de guetos, meio assim como umas coitadas “ah, ela é lésbica, foi expulsa de casa, coitada dela”. É tudo ruim, tudo dramalhão. E eu sempre achei que não era assim. Eu quis contar histórias de amor sem isso. Do amor que independe de ser ou não homossexual, mas que está acontecendo entre homossexuais.

 

Guia - Quais são as três peças que compõem a trilogia?

Ronaldo - A primeira das três é a Les”, uma história de duas amigas, em que uma delas tem uma namorada. A trama gira em torno do relacionamento tumultuado entre as duas namoradas e os conselhos e “pitos” que a outra amiga dá. A segunda é “Eu Queria ser a Cássia Eller” - É uma noite de bate papo em que uma mulher está tentando conquistar outra. Ela começa a contar a história da sua vida, das mulheres que ela teve. Aí rolam situações engraçadas, românticas, atrapalhadas e até meio trágicas. A terceira peça é “Conheci uma pessoa”, a história de um casal que marcou de se encontrar num bar. Surge um problema, o cara não pode ir e ela, enquanto espera, acaba conhecendo a bartender, que começa a dar em cima dela, cria drinks, surpresinhas, conta histórias... Ela devagar vai se envolvendo e, quando percebe o cara já não faz mais diferença.

 

Guia – As peças carregam algum tipo de bandeira em defesa do homossexualismo?

Ronaldo - A intenção principal não é carregar nenhuma bandeira, mas é inevitável que isso aconteça porque a naturalidade do espetáculo acaba mostrando ao público o que realmente importa naquela trama. E certamente não é o homossexualismo. E como o que se vê ali poderia acontecer com qualquer pessoa, o espectador mais atento vai sim, naturalmente, fazer uma análise sobre a visão que ele tem sobre os homossexuais. Nós apresentamos a peça “Les” no Dia da Visibilidade Lésbica, em Diadema. Teve um garoto que assistiu e comentou “Eu achava que lésbica era mulher que queria ser homem. Foi a primeira vez que eu vi uma mulher ter orgulho de ser mulher porque senão ela não teria a mulher que ela tem”. Eu achei isso sublime. A peça não explica o que é ser lésbica. Nem tem essa pretensão. Mas por meio de uma história cotidiana de amor, alguém que tinha uma visão deturpada, conseguiu mudar seu modo de ver essa relação.

 

Guia - Uma das peças já foi inclusive premiada.

Ronaldo - A peça “Les” ganhou o Prêmio GLBT 2009, do Ministério da Cultura. O mais legal é que esse prêmio não é dado para um projeto, para depois você montar a peça. Quando nós montamos o “Les”, nem sabíamos da existência desse prêmio. As pessoas assistiram e, justamente por tratar o homossexualismo com clareza, respeito e naturalidade, a peça foi escolhida. O dinheiro do prêmio nem foi muito, mas deu para a gente dar um impulso para montar as outras duas.

 

Guia - Qual a sua expectativa em relação ao público?

Ronaldo - Eu quero que as pessoas vejam uma peça sobre o amor e não sobre o preconceito. Uma peça charmosa, uma comédia romântica, onde elas possam rir das situações e não das personagens e que possam sair do teatro apaixonadas pela história. Quero que as pessoas se encantem com personagens engraçados, interessantes, plausíveis. O público em geral, não só o público GLBT. Se isso acontecer eu ficarei muito feliz mesmo.

 

As três peças são escritas e dirigidas por Ronaldo Ventura e acontecem às terças-feiras, às 22h no Espaço dos Satyros II - Pça. Roosevelt, 134 - Tel: 3258-6345. R$20. Classificação 12 anos.

 

LES

com Kátia Valentin, Jack Cavalcante e

Valéria Lavieri. De 23/02 até 25/05

EU QUERIA SER A CÁSSIA ELLER

de 01/06 até 31/08

CONHECÍ UMA PESSOA

de 07/09 até 30/11

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