Ela traz na bagagem a autoria de livros, peças de teatro, novelas e minisséries, além de traduções de escritores consagrados como Ingmar Bergman, Jean-Paul Sartre e Samuel Beckett. Esse acervo de obras faz de Maria Adelaide Amaral uma das dramaturgas mais respeitadas do cenário atual. Em entrevista ao Guia de Teatro ela fala de “As Meninas”, obra literária de Lygia Fagundes Telles, que adaptou para o palco e que está em cartaz no Teatro Eva Herz.
Guia - O livro “As Meninas” da Lygia Fagundes Telles possui muita ação presente. Isso foi fundamental na adaptação para o teatro?
Maria Adelaide - Você tocou em um ponto que para mim é vital. Eu acho que tanto os romances quanto os contos da Lygia são roteiros ou peças prontas. Ela tem uma qualidade de diálogo que raramente um romancista tem. Em geral, os romancistas trabalham com tempo e espaço infinitos. Eles não têm as limitações que o autor de teatro tem, que o jornalista tem. No romance existe todo tempo do mundo para contar uma história e para apresentar dezenas de personagens, descrevendo cada um deles. Uma vez o Sábato Magaldi me disse que o teatro é a arte da síntese e que os melhores dramaturgos vêm, em geral, do jornalismo e da poesia porque eles estão acostumados a trabalhar com a síntese. Geralmente os diálogos dos romancistas são carregados de literatura. Ou seja, são bons para você ler mas é impossível colocar um ator dizendo aquilo, porque vai soar muito falso. O teatro reproduz muito a vida como ela é (ou como ela foi, quando se trata de uma peça de época). O diálogo tem que fluir, tem que ser natural e você não pode perceber, atrás dele, os andaimes da literatura. Você tem que acreditar que aquilo sempre foi uma peça, com um roteiro. A Lygia foi uma grata surpresa. Eu já sabia que cada conto dela era um roteiro ou pelo menos dava elementos para fazer uma peça. Mas eu não sabia disso em relação a “As Meninas”.
Guia - Como se desenvolveu o projeto?
Maria Adelaide - Na época em que o Fernando Padilha me pediu para fazer a adaptação eu estava muito ocupada, porque a televisão me toma muito tempo. Eu hesitei, mas acabei dizendo que ia fazer. Acho que foi uma resposta muito mais intuitiva do que racional. Eu lembrava que o livro era bastante complexo. Mas aí eu fui lendo, lendo, e a peça foi aparecendo diante dos meus olhos, inclusive com os cenários. Então, o que eu fiz foi pinçar o que havia de suco dramático no livro e transformei em uma peça. Muito dos diálogos é da própria Lygia. Eu fiz um trabalho de edição. Priorizei uma determinada situação em detrimento de outra. Essa edição pode parecer meio arbitrária mas é com isso que a gente lida. Por que eu privilegiei esta situação e não aquela? É porque eu achei que esta rende muito mais cenicamente do que aquela. Mas estava tudo ali, no livro.
Guia - E o desenvolvimento das personagens?
Maria Adelaide - As personagens também já vieram prontas. A Lorena (Clarissa Rockenbach) é romântica. Acredita em príncipe encantado e que está pronta para se entregar a uma grande paixão. Sofre um pouco com a sua condição ainda virginal e não vê a hora de se entregar a uma paixão, fazer essa viagem. A Lia (Silvia Lourenço) tem um compromisso político, um compromisso de solidariedade com os companheiros e vai embora para a Argélia. É bem representativa desse momento. A Ana Clara (Luciana Brites) é absolutamente atual, a menina que se perde pelos corredores da droga química. Ela é bem moderna. A mais atual das meninas. Mas você não precisa assistir ao espetáculo como uma peça de época. Eu o vejo muito atual. A Lia, por exemplo, você pode fazer outro tipo de leitura. Um outro tipo de engajamento (na peça, ela está envolvida com a luta armada). Essa coisa rigorosa dela, essa necessidade de se engajar num projeto que seja transformador da vida, da população brasileira, é bonito isso. É um idealismo que infelizmente se perdeu. Naquela época, havia um inimigo bem definido. Tem também a personagem Mãezinha (Clarisse Abujamra) que é sensacional. Eu pincei no livro duas situações diferentes, separadas. Não precisou de mais nada para definir quem é e quem foi essa mulher e saber qual é o seu drama. Acho que a irmã Priscila (Tuna Dwek, engraçadíssima) é a personagem que eu acabei colocando mais a minha mão. Ela é a mistura de algumas freiras. É uma personagem exemplar, representativa das religiosas (freiras) daquela época, perplexas com o mundo mudando e principalmente com a igreja mudando, vindo de um momento em que não se podia mastigar a hóstia, em que se achava um absurdo os padres se meterem em questões políticas. Como ela é uma síntese de várias outras freiras, então eu tive a liberdade de colocar mais a mão, mas as outras eu não precisei inventar muita coisa. E isso tudo resultou num espetáculo de conteúdo atualíssimo, brilhantemente dirigido por Yara de Novaes.
Guia - Como você foi parar na TV? Dá para conciliar com o teatro?
Maria Adelaide - Em 1990, quando o Cassiano Gabus Mendes me convidou para escrever com ele a novela “Meu Bem, Meu Mal” eu hesitei no primeiro momento. Mas o Collor tinha confiscado as poupanças e eu estava totalmente sem grana. Então fui para a televisão, de onde não saí mais. Evidentemente eu não abandonei o teatro. Eu continuei escrevendo. Nesse ínterim foram montadas “Intensa Magia” com o Mauro Mendonça, fiz “Querida Mamãe”, que ganhou muitos prêmios aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, fiz a adaptação do “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do José Saramago, escrevi “Inseparáveis”, que foi montada no teatro FAAP, traduzi algumas peças, como “Cenas de um Casamento”, do Ingmar Bergman, “Três Mulheres Altas” do Edward Albee, entre outros trabalhos. Agora fiz a adaptação do livro da Lygia Fagundes Telles. Eu só faço isso quando a peça ou o livro me interessam muito. Mas a televisão consome a gente, principalmente se você é escritor titular. Até 1997 fui colaboradora de autor mas depois passei a ser titular. Aí não sobra muito tempo nem pra família. Principalmente quando você faz novela. Na época que eu fiz “Anjo Mau”, um “remake” do Cassiano Gabus Mendes, a minha mãe entrou e saiu da UTI três vezes aqui em São Paulo. Eu estava no Rio de Janeiro e não pude vir para cá nenhuma vez. É difícil. Você entrega um ano da sua vida. Não tem vida social, não tem vida familiar. Você vive em função da televisão. Por outro lado, não poderia fazer o que eu faço e ter esta vida, ter esta casa, se não fosse a televisão. E eu tenho tido muita sorte na televisão. Eu fiz os Maias, A Muralha, A Casa das Sete Mulheres, JK, Um Só Coração, Queridos Amigos... Isso é um privilégio! Se estivesse fazendo só novela, provavelmente estaria enlouquecida. Mas tive muita sorte de pegar esse nicho de minisséries.
Guia - Você tem algum outro projeto de teatro para breve?
Maria Adelaide - Tenho uma peça inédita que o Roberto Lage está querendo montar o ano que vem. A Miriam Freeland quer remontar o “Querida Mamãe”. E neste momento, Bodas de Papel está sendo encenada no Esporte Clube Pinheiros com a direção do Silnei Siqueira.
As Meninas
Teatro Eva Herz
Av. Paulista, 2073 - Tel: 3170-4059
Sáb, 21h. Dom, 18h. R$40. Até 13/12
Classificação: 14 anos