Ele é ator, cantor e dançarino. Atualmente mostra todo o seu talento no espetáculo “I Love Neide”, que leva o público às gargalhadas no Teatro União Cultural. Em entrevista ao Guia de Teatro, o ator Eduardo Martini fala da carreira, dos novos projetos e das peripécias que faz para interpretar sua inigualável personagem.
Guia - O que te fez ser ator?
Eduardo Martini - Isso vem comigo desde pequeno. Eu comecei num colégio alemão, com cinco anos de idade. Eu me lembro perfeitamente. A minha professora fazia muitas comemorações. Festa do Coelhinho da Páscoa, festa do Dia do Índio, do Dia da Bandeira, e vestia a gente com aquele papel crepom. Eu me lembro da cor do papel ficar no meu braço por causa do suor. Eu acho que a gente nasce com essa coisa. Depois eu estudei na Escola Estadual Oswaldo Aranha, que tinha o teatro como uma das matérias. A Cláudia Alencar era minha professora e lá você repetia se não fosse bem em teatro. Mais tarde eu fui pro Rio de Janeiro porque meu pai foi transferido pra lá. Acabei entrando pro Tablado. Oito meses depois eu estava fazendo uma peça profissional com a Lupe Gigliotti, irmã do Chico Anísio. Era “A Bruxinha que era Boa” da Maria Clara Machado. Eu não acho que a gente simplesmente se transforma em ator. Acho que a gente nasce com uma coisa que leva a gente pra um caminho. As pessoas podem aprender o ofício de ator, mas essa paixão, essa história...Tem algo mais. Meu pai sempre falava “Você é viciado! Isso não é bom! Nada que vicia é bom” (risos). Porque eu só queria saber de teatro.
Guia - Você escolheu o humor ou ele te escolheu?
Eduardo - O humor me escolheu. Eu sou super tímido. Sempre fui. Quando eu falava alguma coisa querendo fazer uma crítica ou fazia alguma coisa que as pessoas não esperavam, todo mundo morria de rir. Isso também veio por causa da dança. Comecei a fazer balé com dezoito anos. Meu corpo tinha uma desenvoltura natural pra dança e ali eu descobri como é ter ritmo. A comédia tem um ritmo, também. O ritmo da dança me fez descobrir o ritmo do humor. E não tem nada melhor que o humor. Existem dramas maravilhosos! Tem peças sérias, espíritas, histórias de amor. Eu gosto de fazer de tudo, mas não tem nada melhor do que fazer humor porque você sai do teatro com a alma lavada.
Guia - Quando você faz a piada e o público se esbalda...
Eduardo - Quando vem aquele estouro “uaaahhhhhh” você pensa “que bom que as pessoas estão entendendo o que eu quero falar. Que bom que as pessoas também pensam dessa maneira”. É engraçado isso. Você pega um personagem, faz uma piada, cria uma história e faz as pessoas entenderem aquilo. Você vai pra dentro de uma história imaginária. Eu acho isso uma coisa maravilhosa! Uma maluquice! Eu me divirto muito.
Guia - E quem é a Neide? De onde veio essa personagem?
Eduardo - Eu não sei (risos). Eu sou maníaco por perucas. Tenho cinquenta e oito. Quando eu saí do programa da Adriane Galisteu, eu fiz uma proposta para a produtora da Hebe de fazer uma coisa engraçada, uma velha assim meio que envolvida com auto-ajuda. Não tinha uma coisa definida. Não tinha roupa definida. Eu queria fazer ela cafona, engraçada, de cabelo branco e com um dentão assim... Eu mandei fazer uma prótese. Aí eu entrei no programa e ninguém sabia o que era. Ninguém sabia nada. Nem a Hebe. Nem eu sabia! O meu coração parecia que ia sair pela boca. Eu me lembro que no primeiro programa eu falei algo assim: “Minha filha, se você está passando por algum problema sério e está pedindo ajuda pra Deus, não pede pra Ele não! Deus tem mais coisas pra fazer do que cuidar do seu caso. Pede pra um santo menos ocupado. Seu caso não tem solução. Você é uma pessoa nefasta!” Eu acabei com a pessoa. Ao invés de auto-ajuda, foi praticamente uma auto-destruição. Aí a Hebe pediu pra eu voltar de novo e a coisa foi. Falaram “ah, você tem que fazer um monólogo”. Mas eu não tinha uma história. Eu nem sabia direito quem era essa Neide. A gente foi fazendo, pegando um pouco aqui e ali, sem usar o nome do programa. Eu não queria usar o nome da Hebe e não faria isso porque eu tenho o maior carinho e respeito por essa mulher maravilhosa! Ela é única no Brasil. Eu acho que no mundo. Não tem nenhuma apresentadora como ela. Aí eu fiz a história da Neide e tudo foi acontecendo aos poucos. A Neide é uma personagem muito atual, por isso eu uso muita coisa atual na peça, porque ela é do dia-a-dia. Não dá para você trancar ela numa história do passado. Isso eu também fui descobrindo junto com o público. Nada foi preparado. Nesses dois anos e meio que eu estou fazendo a Neide, tudo foi acontecendo de uma maneira muito louca, como é o teatro.
Guia - Você também é dançarino e cantor. Como isso influencia seus personagens?
Eduardo - Eu não me cobro muito, não. Eu vou até onde eu acho que o personagem tem que ir. Não adianta a Neide dar quatro piruetas porque isso é o Eduardo que faz, não a Neide. Eu não defendo o personagem de jeito nenhum. Se ele é cafona, ele é cafona. Se ele é filho da mãe ele é filho da mãe. Se ele é escroto, ele é escroto. Se ele é bom, ele é bom. Se ele dança um pouquinho, ele dança um pouquinho. Claro que eu coloco um acabamento na dança, mas eu não faço o Eduardo dançando, eu faço a Neide dançando. Isso me preocupa muito. No “Chorus Line” eu tinha um personagem que dançava mal. Então eu o fiz, dançando mal. Foi ali que eu descobri o humor na dança, porque as pessoas morriam de rir vendo aquele cara fazendo um teste pra passar entre cinquenta bailarinos e dançando mal. Então, eu me preocupo com o corpo, mas dessa maneira. Eu malho, faço dieta, depilo o braço. Tem coisas que eu uso para o personagem, mas eu não o defendo. Se é pra usar um salto, não é pra usar um salto baixo. É pra usar um salto alto. Então vamos usar um salto alto. Eu uso um 10,5 do Fernando Pires. Neguinho fala, “caraca!!” É que essa mulher é uma perua cheia de jóias, que usa salto alto! Porque salto alto é um símbolo de elegância. Eu vou até o limite. Eu aguento. Por exemplo: eu estou com a perna depilada porque rasgou a meia. Saiu um chumaço da minha perna direita (risos) e as pessoas começaram a comentar. Eu nunca mais quis passar por isso. Então eu raspei a perna inteira porque senão a meia rasga. Não tem o que fazer. O público está lá, vendo. Parece que você está debochando da mulher, fazendo coisas pra parecer uma Drag Queen. Nada contra, mas o objetivo é outro.
Guia - Quais são os projetos pro futuro?
Eduardo - Eu acabei de descobrir uma cena em que a Neide vai a um centro espírita e eu quero começar a próxima história dela nesse centro. Além disso eu tenho outros projetos: “Até que o Casamento nos Separe”, uma peça que eu escrevi com a Cris Nicolotti e estou fazendo com a Viviane Alfano, e que vai voltar. Eu estou dirigindo “Dez Maneiras Incríveis de Acabar com o Seu Casamento”, com Noemi Gerbelli que está pra começar e eu tenho “João Pedro e o Mundo Louco da Dona Boca” que é uma história sobre higiene bucal que eu quero fazer para crianças. Tem também o Monólogo da Neide. Eu queria fazer um festival de comédia aqui no teatro, em janeiro. Cada dia uma comédia, de todas aquelas que eu já fiz. O Monólogo, na medida do possível, a Neide, o Casamento, Dez Maneiras, fazer cada dia uma pro público se divertir. E queria muito que o “Pano pra Manga” um programa que eu fiz na TVB Campinas, SBT Interior, fosse veiculado em rede nacional porque eu descobri coisas muito bacanas sendo apresentador. A curiosidade de ator faz com que a gente consiga tirar do entrevistado coisas incríveis, mesmo sem um release na mão! Por isso eu acho que o diretor tem que tomar cuidado quando vai dirigir a gente, porque, às vezes, a visão do ator pode ser melhor que a do diretor. O diretor é só pra orquestrar o total. O ator tem que ir e fazer. Essa é a função do teatro. Essa é a função do ator. É você de repente destravar alguma coisa lá dentro de alguém na plateia, pra que emocionalmente ele consiga ter uma passagem, subir um degrau na vida. Eu já vivi isso e é muito bom!
I Love Neide!
Teatro União Cultural
Rua Mário Amaral, 209
Paraíso – Tel: 2148-2904
Sex, 21h30 e dom, 20h, R$40.
Sáb, 21h, R$50. Até 15/11.
Classificação: 12 anos