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Antonio Fagundes
Ele vive um grande amor em "Restos"
 

Depois de três anos longe dos palcos, o ator Antonio Fagundes volta ao teatro com a peça “Restos” de Neil LaBute, com direção de Márcio Aurélio. Em entrevista ao Guia de Teatro ele falou sobre o novo espetáculo e sobre a riqueza do seu personagem Edward Carr.

 

Guia - Você é um ator consagrado e deve recebe muitos convites para fazer teatro, cinema, novela, com personagens escolhidos para você. Como é poder “escolher” você mesmo um texto?

Fagundes - Na televisão eu tenho o meu contrato e tem algumas obrigações que eu devo cumprir. Mas eu tenho tido muita sorte sempre que escolhem papéis por mim. Têm sido boas escolhas. Eu gosto muito de teatro, de cinema e de televisão. Então, eu procuro sempre escolher trabalhos que me agradem como espectador, que eu tenho certeza que se fosse assistir eu gostaria muito de ver. Assim, eu acho sempre um bom caminho. Se você é capaz de se colocar no lugar da plateia antes de fazer um personagem, você já está estabelecendo uma pequena comunicação com ela. Então, um dos critérios que eu uso para a escolha de um personagem é se eu gostaria de ver aquilo como espectador.

 

Guia - O personagem Edward Carr, de sua atual peça “Restos”, a princípio, é um homem comum. Como é interpretar esse homem comum e o que ele tem de interessante para estar ali, sendo apresentado à plateia?

Fagundes - Eu o acho um personagem extremamente rico e instigante porque esse homem comum, com os valores que ele apresenta, chega a ser um conservador. Ele pede desculpas quando fala um palavrão, abre a porta do carro para a mulher entrar. Ele tem atitudes bem conservadoras, mas é um revolucionário na sua vida. Ele é capaz de perseguir o destino, de interferir no destino, de mudar o destino com uma força insuspeitada. E quando chega o fim do espetáculo, você é obrigado a rever tudo aquilo que você viu antes. Você para e pensa “Espera aí! Onde foi que eu me perdi?” Não, você não se perdeu. Ele estava mostrando tudo aquilo desde o começo. Então, eu acho que a excepcionalidade desse personagem consiste exatamente nessa força interior que você não suspeita que ele tem, até o momento em que essa força fica tão evidente que você tem que voltar e rever tudo. Aparentemente ele é superficial e “romantiquinho”, mas por baixo disso está rolando muita informação importante, o tempo todo. Ele aparenta ser comum, mas de comum ele não tem nada, nem na paixão. Ele é realmente um personagem excepcional.

 

Guia - O dramaturgo da peça, Neil LaBute, declarou uma vez que nós não devemos ter medo de colocar as grandes crueldades e verdades da vida em cima do palco. Em “Restos”, o personagem Edward celebra a vida e o amor durante um velório. Essa celebração é uma das grandes verdades da vida e da peça?

Fagundes – “Restos” é basicamente a história de um grande amor. Uma história fantástica e intensa. Eu tenho a impressão que de tudo que eu li do Neil LaBute, essa é a peça mais romântica, onde ele poupa mais a plateia. Ele gosta de jogar a plateia no meio do conflito e normalmente ele é bastante amargo. Você pega por exemplo “A Gorda”, que é uma peça extraordinária dele. É uma história de amor também. São duas pessoas que se amam, sendo que a mulher é muito gorda. O cara é apaixonado por ela, mas a sociedade não aceita aquilo, não admite. “Como você pode gostar de uma mulher gorda como essa?” Então, o Neil LaBute joga isso no colo da plateia. “Olha como você é preconceituoso!” O título da peça em inglês é “Fat Pig”. Ele é um provocador mesmo. Já em “Restos” ele deixa a provocação pro final. Mas mesmo assim ela chega a ser delicada porque ele nos apresentou uma visão de vida tão extraordinária durante uma hora e cinco minutos que, quando vem o choque, você já está entregue.

 

Guia - O protagonista de uma peça é aquele que mais muda de qualidade durante a trama. Em “Restos” a plateia também é um pouco personagem, meio que uma confidente. O público, nessa peça, é também um pouco protagonista à medida em que muda a forma de entender esse amor?

Fagundes - Não sei se exatamente um protagonista mas, no sentido em que o LaBute joga o conflito no colo da plateia, eu acho que ela pode ser considerada sim um “coadjuvante privilegiado”. Eu sempre brinco que eu gostaria de ter uma câmera para fotografar o rosto das pessoas na hora dos agradecimentos, depois da peça, porque elas ainda estão em choque. Ainda estão absorvendo aquelas informações. É muito engraçado você perceber que não dá tempo de elas se libertarem. Então eu acho que a plateia é sim um personagem importante do espetáculo. Mas o “condutor” é o Edward. E ele não é vitima em momento nenhum. Ele conduz.

 

Guia - Você já tem algum outro projeto para o teatro?

Fagundes - Eu tenho quarenta e três anos de teatro. Durante trinta e cinco anos eu fiz teatro ininterruptamente. Eu terminava um espetáculo domingo e estreava outro na quarta. Naquela época a gente fazia de terça a domingo. Então eu resolvi parar um pouquinho com essa ansiedade. As pessoas me chamavam de “workaholic”. Eu dizia que era prazer mesmo. O “workaholic” não tem prazer, tem compulsão. No meu caso era uma busca pelo prazer. Mas eu resolvi dar um intervalinho entre uma produção e outra. Foi maravilhoso porque eu descobri que existia vida no sábado e no domingo, pra jantar normalmente com as pessoas. Porque meus jantares são depois da meia noite. Todo mundo já está dormindo. Eu não conseguia juntar os amigos. Esse último intervalo meu foi de três anos. Confesso que gostei mesmo. Agora eu começo a me poupar. Antigamente eu estreava uma peça e já começava a ler pra ter mais um ou dois projetos adiantados na fila. Eu não faço mais isso. Agora eu estou fazendo “Restos”. Quando acabar, acabou. E eu vou me dar um tempinho novamente. Depois eu penso em outro projeto.

 

Restos

Teatro FAAP

Rua Alagoas, 903 – Pacaembu

Tel: 3662-7233 / 3662-7234

Qui e sex, 21h. Sáb, 20h.

Dom, 18h. R$100. Até 29/11

Classificação: 12 anos

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