Ela é uma das atrizes brasileiras com maior projeção internacional. Após alguns anos fora dos palcos, volta a São Paulo com “As Traças da Paixão” peça escrita por Alcides Nogueira, com direção de Marco Antonio Braz.
Lucélia Santos conversou com o Guia de Teatro sobre o novo trabalho, sobre budismo e sobre sua apaixonante personagem, Marivalda Revólver.
Guia - Você esteve afastada do teatro por alguns anos. O que você estava fazendo nesse tempo?
Lucélia - Eu sou diretora, produtora e atriz de cinema. Eu fiquei muito ocupada nesses últimos treze anos, dirigindo e produzindo. Eu terminei agora um projeto que é uma co-produção imensa com a China. Por isso eu fiquei meio afastada dos palcos. Mas, além disso, eu estava procurando o texto certo pra interpretar. Não é uma tarefa fácil. Não cai do céu todo dia um texto maravilhoso na sua cabeça. Então, quando acontece um fenômeno como essa peça, a gente tem que agarrar. O texto é muito bom. Quando o Maurício Machado e o Eduardo Figueiredo me convidaram, eu estava exatamente atrás de um texto assim. Eu ia fazer “A Alma Boa de Setsuan” que é a peça da minha vida. Mas a Denise Fraga saiu na frente com o projeto. Por coincidência (na verdade, coincidências não existem), o diretor de “A Alma Boa”, o Marco Antônio Braz, é também o diretor da nossa peça. Isso foi uma das coisas que me atraíram para fazer a personagem Marivalda, em “As Traças da Paixão”.
Guia - O que são as traças da paixão?
Lucélia - É a própria relação entre os dois personagens da peça, que tem um jogo muito forte. Hora um está no comando e o outro está submetido. Aí o jogo vira, como na vida. As relações são assim. Então, essas são as traças. As mulheres ficam loucas com essa peça. Os comentários que eu ouvi foram ótimos. Eu acho que os homens também devem ficar. Eu não tenho muito essa visão do universo masculino. Mas os comentários das mulheres foram bem legais.
Guia - Quem é Marivalda Revólver?
Lucélia - A Marivalda Revólver é uma personagem extraordinária. Uma mulher brasileira, dessas do interior do Brasil, como tem milhares neste país, que mata um leão por dia. É mãe coragem. Uma mulher forte que é dona de um botequim. Uma mulher que, tudo indica, teve muitas decepções amorosas na vida. Então ela mora naquele fundão de mundo. De repente, aparece um homem, um rapaz, dizendo que ela é a mãe dele e que, além disso, ela é a Princesa Anastácia Romanov. O que é incrível é que, numa primeira leitura de espetáculo, num painel de frente, a Marivalda é uma dona de boteco que vive aquela vidinha, naquele lugar decadente. Mas por trás disso tem todo um mistério que a peça deixa em aberto. Você não sabe se ela é mesmo a princesa ou se é só uma mulher ferrada que vive no interior. O espectador pode escolher a versão que achar mais interessante para sua própria fantasia. A peça tem qualidades incríveis do ponto de vista dramatúrgico. É um grande jogo teatral. Tem milhões de leituras por trás e você escolhe a que mais te servir. Em cada cena há uma Marivalda.
Guia - O Eugênio Kusnet, seu mestre, dizia que “As ações é que fazem os personagens, e não os personagens que fazem as ações”. Como as ações da personagem a transformaram em Marivalda?
Lucélia - A direção do espetáculo vai muito ao encontro do que o Alcides propõe no texto e a gente seguiu essa orientação. Não há uma grande estruturação psicológica, como se faz no Stanislavski. O que acontece nessa peça é que cada cena se exaure em si própria. A próxima cena pode ter outro contexto, outro gênero de interpretação. Então, não tem uma construção como, por exemplo, “eu estou agora de pernas cruzadas para a esquerda e quando eu me virar para a direita, vou sentir um vento passar por debaixo do meu cabelo, e aí um sapo vai pular”. (Risos) Não tem uma história. É assim. Eu “estou” com a perna cruzada da esquerda pra direita. Ponto. As coisas simplesmente são. É a somatória das ações que mostra quem a personagem é. É fazer a cena um, a dois, a três, que conta para mim quem é essa Marivalda. Eu não estou preocupada com a última cena da peça. Eu estou com a minha mente totalmente presente, no momento, na cena que eu estou fazendo agora. As páginas vão se virando. Não tem psicologismo, tem ação. É isso que move a Marivalda.
Guia - E o que move você?
Lucélia - O que me move é a consciência de estar viva. A vida é uma coisa muito preciosa. Só de acordar todo dia a gente já tem em si, as condições de um enorme regozijo. O ato de estar vivo, de respirar, é a própria motivação. A gente nem pensa sobre isso. Está meio no “piloto automático” e acaba por não agradecer todos os dias pela vida. Eu sou budista. Na minha prática espiritual, no dia a dia, quanto mais eu entro em contato com os meus próprios pulmões, num momento de meditação ou num momento de respiração, mais emoção eu sinto por estar viva. Eu tenho a minha própria motivação que é minha própria vida. Porque a vida é assim, ela também se desfaz, como no teatro, em segundos. Quando você está presente em uma coisa, você está fazendo aquilo com a sua energia e isso é fantástico. O teatro possibilita isso.
Guia - Como você lida com a crítica?
Lucélia - Eu sou uma praticante de budismo vajrayana, onde uma das coisas mais importantes é você se preparar para a hora da morte. É a pratica mais importante do budismo e é baseada no Livro Tibetano dos Mortos. É muito profundo. Existem treinamentos técnicos de meditação e de contemplação. Para nós, ocidentais, pensar sobre isso gera medo, desconforto. Quando eu ouço uma crítica, eu penso “se eu não tenho condições de enfrentar isso, como é que eu vou enfrentar minha própria morte?” Aí eu fico tranquila.
As Traças da Paixão
Teatro Augusta
R. Augusta, 943 – Cerqueira César
Tel: 3151-4141
Sex, 21h30 e dom, 19h, R$40.
Sáb, 21h, R$50. Até 18/10
Classificação: 14 anos