Após ser fechado para reforma, o Espaço dos Fofos reabre suas portas com o espetáculo “Memória da Cana”, adaptação da obra “Álbum de Família” do pernambucano Nelson Rodrigues, com referências à sociedade patriarcal dos canaviais, tão bem descrita em “Casa Grande & Senzala” do também pernambucano Gilberto Freyre. Em entrevista ao Guia de Teatro, o diretor e dramaturgo Newton Moreno fala sobre a peça, sobre dramaturgia e sobre o processo colaborativo utilizado pelo grupo na concepção do espetáculo.
Guia - A dramaturgia é algo que se ensina? Como formar bons dramaturgos nos dias de hoje?
Newton - Eu sou um dramaturgo autodidata porque a minha formação é de ator. Com o tempo, eu fui descobrindo mecanismos e me aproximando de alguns núcleos de estudo e de formação em dramaturgia para poder entender um pouco como é que ela funciona, quais são as ferramentas... E foi fundamental me aproximar desses núcleos porque eu acho que existe uma lacuna de espaços voltados para a dramaturgia. Existem algumas ações isoladas que são importantes. Tem o SEMDA, do Chico de Assis. Tem o Núcleo de Pesquisa da Escola Livre de Teatro de Santo de André. Tem um grupo na USP chamado NUDRAMA. Tem o Luis Alberto de Abreu, que já formou um grupo de estudos há tempos atrás. Tem o CPT do Antunes. Ou seja, existem nichos. Mas eu acho que o mais belo seria termos uma escola voltada para a produção de textos e dramaturgia, que conseguisse reunir figuras como Chico de Assis, Luiz Alberto de Abreu, que têm experiência prática de dramaturgia, têm textos montados. Uma escola que fosse o centro desses saberes, desses mestres. Então, eu acho que dramaturgia se ensina sim, e acho necessário um investimento nisso, para você colocar junto, pessoas com a mesma idéia, ver como elas trabalham, que temas interessam para elas, o que elas pesquisam, quais os personagens das histórias delas. Só essa troca, já fermenta alguma coisa, já potencializa algo. Você agrupa uma série de pessoas que começaram a escrever, e que solitariamente acham aquilo bobo, mas que juntas começam a perceber que há um movimento. Há muita gente interessada em produzir dramaturgia e isso cria um estímulo, uma sinergia. Apesar dessa escola ainda não existir, há uma nova safra de dramaturgos que está se impondo, chegando junto, e felizmente está conseguindo colocar seus textos no ar.
Guia - Como e quando surge um texto na sua cabeça?
Newton - Eu estreei meu primeiro texto há oito anos. Então, pra mim, esta fase é uma certa adolescência. É o momento de entender um pouco o que é essa seara. Como eu sou ator, a minha formação é a do intérprete. Eu geralmente tenho o interesse voltado para o personagem. Eu sinto que começo quando vejo que existe um personagem que me interessa, que eu quero conhecer melhor. Acho que a minha investigação começa a partir dele, com a história dele, com a fábula que dá pra contar sobre ele. Enfim, eu acho que a minha investigação primeira vai sobre esse olhar para o personagem. Eu sei que tem gente que pega, por exemplo, uma nota no jornal e cria uma história. Enfim, cada um tem um “portal” aí pra entrar. Mas pra mim é aquela pessoa, aquela situação, aqueles problemas. Com o aprendizado dela, com a jornada dela, com as questões dela, eu tenho um primeiro personagem. Depois eu vou pensar numa estrutura, vou pensar em quais são os temas que eu estou trabalhando. Vou ler coisas que tenham a ver com aquilo pra me alimentar. Uma pesquisa de campo, uma pesquisa de arquivo, como ir a um lugar onde eu encontro pessoas como aquela. Vejo o vocabulário, a gramática, para ter matéria-prima e referência para poder trabalhar.
Guia - E o processo colaborativo, como funciona?
Newton - Esse processo aproximou o dramaturgo dos grupos de teatro. Com essa explosão de grupos na cidade de São Paulo, acho que o dramaturgo cresceu junto, veio à tona. E veio com mais força, ligado a esses grupos. Eu participei de alguns grupos, com o processo colaborativo, e acredito muito nesse tipo de construção. É sempre uma construção coletiva, mas cada um tem sua função. E cada um tem que responder por ela. É uma troca coletiva, uma criação coletiva. Porém, alguns processos colaborativos que eu participei se desenvolveram de formas diferentes. Por exemplo, eu fiz um trabalho com a Companhia Livre, que é dirigida pela Cibele Forjaz , que foi o “Vemvai O Caminho dos Mortos”. Ali acontecia um trabalho de acompanhar todos os workshops, todas as cenas, todos os improvisos dos atores, e tentar, junto com a Cibele, fazer algumas escolhas. Então nós criávamos uma estrutura a partir dessa observação prática do que eles traziam. Já com a Maria Thaís, diretora da Companhia Teatro Balagan, foi um outro percurso. A gente passou por uma série de palestras, vídeos, conversas e aí eu produzi um material. Posteriormente, esse material foi visto e revisto várias vezes por eles, até chegarmos no resultado que a gente achou legal, pra estrear e tudo.
Então o que acontece são essas interferências, o tempo todo. Você não tem um texto perfeito. Por sorte eu tenho me aproximado de pessoas muito fortes e acho que isso tem sido muito importante para mim, não só dentro do grupo mas fora também. Por exemplo, no caso do “Agreste”. O Márcio Aurélio é um encenador muito forte, muito potente. Então essa escolha de parceiros é fundamental porque você entende quem pode trabalhar aquele material, quais pessoas confiam no seu trabalho e em quais você confia. Então isso gera uma sinergia, uma redoma de confiança que é muito rica pro trabalho. Aqui no Espaço dos Fofos o conceito é esse, trabalhar sempre em cima do colaborativo. Aqui todo mundo participa das idéias, todo mundo interfere. A construção da linguagem do espetáculo vem muito dos workshops que os atores propõem. Então eu jogo um monte de idéia na música, a música joga uma outra idéia no ator... Enfim, o processo criativo vai circulando. Eu solicitei as memórias de todo mundo. As memórias vieram e a gente foi tentando costurá-las depois, em cena. É um material que vem de uma provocação. Isso é um contágio positivo. A gente vai se contagiando um do outro para constituir essa linguagem de espetáculo.
Guia - Você reuniu Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre num só trabalho. Como surgiu essa idéia e como vocês transformaram o resultado disso em algo tão crível, como se vê em cena?
Newton - Eu trouxe essa ideia pra gente trabalhar depois do “Assombrações do Recife Velho” que é uma livre adaptação, também do livro do Gilberto Freyre. Eu sempre tive adoração pelo “Álbum de Família” do Nelson Rodrigues. Então eu pensei nessa aproximação. Essa “casa grande” do Gilberto Freyre ligada a essa “casa grande” da família que é proposta pela fábula do Nelson. Pensei nessa comunicação entre eles, pernambucanos que são, também como algo que falasse dessa “casa grande” como quem fala de um caminho de volta, da formação dos dois, da história, da raiz. O “Álbum de Família” também fala das memórias familiares. Acho que em algum lugar tinha um eco. Essa formação patriarcal que o Nelson herdou. E nesse álbum de família, então, pareceu que esse sotaque podia os reaproximar. Fazer uma comunicação entre eles. E o que tem a ver com a questão do resultado se tornar crível talvez seja porque a gente reuniu nesse elenco os atores que tinham ascendência nordestina (neste espetáculo não estão todos os atores do grupo “Os Fofos Encenam”). Pela primeira vez a gente fez esse experimento. Então também tinha a memória deles em jogo. Em algum momento eles tinham que se jogar em cima disso pra poder devolver as suas memórias pra gente poder investigar esse lugar. É um tripé, uma trinca, uma relação entre essas três forças que são: a fábula do Nelson, o suporte teórico do Gilberto e essas memórias por dentro dos atores. Isso constitui um pouco a linguagem do que está em cena. Os cheiros que o espectador sente durante a peça, os objetos, muitas marcações, muitas músicas. Tem muita coisa costurada. O figurino do espetáculo, por exemplo, também vem das memórias dos atores. Então essas memórias não são só do Nelson Rodrigues e do Gilberto Freyre. Elas são também dos atores. A gente obedece a fábula do Nelson, mas para dar verdade ao que está se construindo aqui, a gente sabe que não está se comunicando apenas com uma criação ficcional do Nelson. Cada um está se comunicando com um registro pessoal.
Então, a pessoalidade que está em jogo passa por dentro do ator e vai para o Nelson. Agora, uma coisa muito legal é que quando a gente foi pro Festival de Teatro de Recife com “Assombrações do Recife Velho”, no ano passado, a gente visitou alguns engenhos na zona da mata norte e lá a gente ensaiou as cenas do “Memória da Cana” no cenário do Gilberto. Um exemplo disso é a cena de Glória e Guilherme em uma capela, que a gente ensaiou em uma capela de engenho mesmo. Também tem a cena de Jonas e Rute na mesa da casa grande. A idéia da mesa foi tirada de uma mesa de jantar de uma casa grande de um engenho que a gente ficou hospedado. A segunda parte, que é a parte do canavial, foi ensaiada no meio de um canavial real. Então a gente percebeu que essas coisas se comunicavam e que existia um diálogo possível entre esses dois caras que são fortíssimos para a cultura brasileira. Ambos pensando família. Só que um pelo lado do antropólogo, do sociólogo, do cientista, e o outro pelo da ficção, da dramaturgia. Mas a discussão é família. Uma família brasileira em algum lugar, só que em diapasões diferentes.
Guia - O público assiste tudo de dentro dos cômodos da casa. O espetáculo sugere uma visita aos nossos cômodos interiores?
Newton - Com certeza. A gente leu o livro “A Poética do Espaço” do Bachelar, que fala justamente sobre isso. Essa questão dos ninhos, dos espaços, dos cômodos, do sótão, do que está guardado. Além disso, o público fica numa posição privilegiada porque ele pode testemunhar de dentro de um cômodo, a verdade daqueles personagens que estão ali. Os cômodos acabam virando cochias. Alguns nichos são mais povoados pelos personagens do que outros. A gente acredita que se você assiste a peça de um determinado cômodo, talvez você faça um pouco o percurso daquele personagem, porque você ganha intimidade com ele. Parece que você vê a peça pelo olhar dele!
Guia - O que vem pela frente?
Newton - O grupo tem dois diretores artísticos, um sou eu e o outro é o Fernando Neves. Ele trabalha dentro da linguagem de circo-teatro que é uma herança da família dele. A gente vai começar a desenvolver um novo espetáculo dentro dessa linguagem e já começou as pesquisas. Mas devemos estrear só no ano que vem. Ainda não tem título, não tem nada. Está tudo no começo, mas já tem uma sementinha plantada. Fora do grupo eu tenho um trabalho que se chama “Da possibilidade da alegria no mundo” que deve acontecer no SESC Paulista.
Memória da Cana
Espaço dos Fofos
Rua Adoniram Barbosa, 151 – B. Vista
Tel: 3101-6640
Sex e sáb, 21h. Dom, 19h. Seg, 20h. R$16
Classificação: 16 anos