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Antonio Petrin
Mais um doente do coração!
 

 

Ele está em cartaz com o monólogo “Só os doentes do coração deveriam ser atores”. Quem for ao espetáculo, sairá com a sensação de ter assistido a uma verdadeira aula de teatro. Antonio Petrin conversou com o Guia de Teatro e falou sobre seu trabalho atual e da experiência de representar um personagem que também é ator.

 

Guia - Como começou o seu amor pelo teatro?

Petrin - No meu bairro, Parque das Nações, em Santo André, a única diversão que tinha era a igreja. A gente participava das irmandades e os padres italianos costumavam fazer um teatrinho pra ensinar o catecismo. A gente ia lá participar de algumas apresentações. Eu era ainda bem criança. Mais tarde, na adolescência, eu comecei a fazer com eles umas pequenas comédias de costume, uma coisa muito ingênua, no salão paroquial. Eu gostava muito daquilo. Mas depois isso passou e eu fui cuidar da minha vida, estudar, pra ter uma formação profissional. Com certeza, foi ali que eu despertei pro teatro. Mais tarde eu fui fazer teatro amador no centro da cidade com um diretor chamado Ademar Guerra que foi de São Paulo pra lá através da Comissão Estadual de Teatro. Eles fizeram uma espécie de teste para formar um elenco e eu entrei. Fiz a peça e foi um sucesso. Aí, por sugestão dele, eu acabei indo pra Escola de Arte Dramática. Depois da escola tudo mudou. Minha vida ganhou outro movimento. Eu fui convidado pelo Jorge Andrade para ser professor no serviço de ensino vocacional, onde ele era orientador. Acabei indo trabalhar com ele e aí começou a minha carreira como ator.

 

Guia - Na peça “Só os doentes do coração deveriam ser atores” você interpreta Jacek, um ator. Como foi pra você criar um personagem que é um ator? Ele é um pouco Petrin também?

Petrin - Todos os atores sempre têm alguma coisa em comum. Existe um certo traço de ansiedade, de preocupação, que parece caracterizar atores no mundo inteiro. O que me levou a aceitar esse papel nesse grande monólogo, foi o encantamento que o texto me causou. Ele conta a vida desse grande ator, o Jacek. Eu sabia que o que eu estava lendo tinha a ver comigo, com a minha idade. Então, existem sim alguns pontos em comum. Na peça, ele é proibido de representar pelos médicos, porque tem problema do coração. Eu já fiz espetáculo doente, mas não tinha tido proibição de nenhum médico. Se eu tivesse um problema como o do Jacek e fosse proibido pelos médicos, eu não sei se eu iria atuar. Não sei se eu faria isso. Agora, tem coisas que eu gosto muito nele. Por exemplo, essa atitude admirável de contar sobre as suas mulheres. É saboroso ouvi-lo confessar que a mulher que ele mais amou, acabou o traindo. Mas de tudo ele tira um ensinamento. Em todos esses pequenos problemas que vão surgindo, a gente percebe que há um entendimento. A mulher que marca um encontro com ele, por exemplo, e não aparece. Ele tira daí um ensinamento. Porque ele começou se preparar para vê-la, prática que ele já tinha esquecido.

“Eu vou me preparar para ver uma mulher”, ele confessa. Ela não vai ao encontro, mas vale pelo resgate daquele sentimento. Então, ele utiliza esse interlocutor fictício, que na verdade é o próprio público, para fazer as confissões da sua vida. Ele se abre. Às vezes se confunde um pouco com o personagem que ele quer fazer. Ao falar os textos de Ricardo III, ele bebe, bebe e, de repente, se sente um pouco o próprio Ricardo III. Isso é que é legal. Essa interação do ator com seu personagem, essa preocupação que qualquer ator tem. Geralmente você faz um personagem que você não tem tanta intimidade. Você cria, você inventa. Cada um com a sua técnica, cada um da sua maneira. Agora, são poucos os personagens que você tem intimidade, que você fala a mesma linguagem e o entende. Aí, você humaniza esse personagem. Este espetáculo tem a grande preocupação de humanizar esse ser, que por acaso é um ator. Ele poderia ser qualquer outro profissional. O importante é a gente extrair de um personagem a sua humanidade e passá-la para o público. E fica muito claro que a platéia gosta disso. Ela também acarinha esse personagem. E aí o ator tem que ter a humildade de deixar o personagem fluir na frente dele, sem querer aparecer. Como eu sou ator e ele também é, eu poderia querer trazer tudo pra mim. Mas não!! Eu deixo sempre o Jacek na frente e o manipulo conforme a minha construção, com humildade, pra mostrar o personagem por inteiro.

 

Guia - O nome da peça é muito sugestivo. Ele quer dizer que o ator é sempre ator, acima de tudo?

Petrin - Esse título mostra também que para ser ator você precisar ter sensibilidade de coração. O “doente do coração“ você pode interpretar como um coração sensível. Alguém que pode pegar um personagem e transformá-lo, que pode viver esse personagem. Então o titulo é bastante sugestivo. Faz com que as pessoas se perguntem, “por que só os doentes do coração?”. Talvez, todos os atores devessem ser doentes do coração.

 

Guia - A música é um elemento fundamental no espetáculo. Como ela entrou na peça?

Petrin - Realmente é fundamental. Num primeiro momento, a idéia era trabalhar com música clássica. Mozart, Debussy. Mas durante os ensaios a Elaine Giacomelli e o Eduardo Contrera começaram a pesquisar outro tipo de música, um pouco mais chegado a nós no Brasil. Uma música que eu reputo de fundamental importância para o espetáculo, por exemplo, é a que acompanha o momento em que Jecek conta da viagem à Dinamarca. Ele achou que ia morrer naquele momento, mas não foi daquela vez. Parecia que aqueles aplausos seriam os últimos da vida dele. A música que sustenta essa cena é de uma força dramática maravilhosa. Isso faz com que a minha interpretação, escorada nessa música, ganhe uma força muito maior.

 

Guia - Então a música, na peça, é mais para o personagem do que para o público?

Petrin - Sim, ela é feita muito mais para o personagem. É claro que ela tem que refletir no público também, e é um prazer ouvir a Elaine. Mas às vezes você assiste um espetáculo que tem essas intervenções musicais, só que elas ficam desassociadas do que se fala. Não têm essa interação. Servem só como um fundo musical, mas não têm essa sustentação. Eu ainda outro dia falei isso pra Elaine. Ela estava afônica e não pôde cantar. Eu disse “Olha Elaine, sem o seu canto o espetáculo já ficou incompleto porque ele só é completo com você. Você tem uma importância muito grande nele, com o seu piano, com a sua voz, com a sua presença”. O espetáculo foi composto para isso e a música tem um papel muito importante nele.

 

Guia - Quanto tempo você vai ficar com a peça ainda? Já tem algum projeto para outro espetáculo?

Petrin - Por enquanto a gente fica com “Só os Doentes de Coração” até o último final de semana de julho. Eu tenho um projeto mais pro fim do ano que é uma peça do Friedrich Dürrenmatt que se chama “Seria cômico se não fosse sério”. Estamos ainda armando a produção. Vamos ver o que vai acontecer.

 

Só os doentes do coração deveriam ser atores

Teatro Coletivo.

Rua da Consolação, 1623 - Tel: 3255-5922.

Sex, 21h30. Sáb, 21h. Dom, 20h. R$30. Até 26/07.

14 anos.

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