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Rubens Ewald Filho
Do cinema para o teatro
 

Ele já assistiu a quase 30.000 filmes e é o crítico de cinema mais respeitado do Brasil. Rubens Ewald Filho conta como se transformou em diretor de teatro e fala da experiência de estar do outro lado da crítica.

 

Guia - De onde vem a sua paixão pelo cinema? Você teve influência de alguém da família ou é algo totalmente seu? 

 

Rubens - Não foi influência da família não. Ao contrário. A família foi sempre contra.  Eu sou de Santos. A minha família era extremamente repressora. De classe média. Eu tinha uma avó matriarca que controlava a família inteira. Até os 9 anos eu era filho único, neto único e a gente morava com a minha avó. Eu tenho a infância bloqueada. Não me lembro de praticamente nada até essa idade. Mas me lembro dos filmes que assisti. Eu nunca tive um coleguinha, nunca brinquei na rua, nunca joguei futebol. Era uma criança absolutamente solitária e a imaginação então cresceu em mim como uma válvula de escape. A minha “droga” foi o cinema. Eu lia duas revistas que eram muito importantes para mim: A “Cinelândia”, que falava dos bastidores, das estrelas, aquele glamour, e a “Filmelândia”, que trazia resumos dos oito filmes mais importantes do mês. Naqueles momentos solitários, com dez pra onze anos, a revista era meio que um guia pra mim. Eu pegava um caderninho e ia anotando os filmes que eu via. Comecei com o nome do filme. Depois, com o nome do cinema. Aí eu comecei a anotar a censura, que naquela época era super importante. Tinha aqueles porteiros que brecavam a gente (risos). Aí vieram os nomes dos atores e, depois, o nome do diretor. Também instituí uma cotação de 1 a 5, que é basicamente a que eu uso até hoje. Nesses caderninhos eu passei a fazer também as minhas primeiras críticas. Depois eu passei a selecionar os melhores do ano, como se faz no Oscar, separando por categorias. Era o meu próprio Oscar. O livro mais importante que eu fiz, o “Dicionário de Cineastas”, começou nesses caderninhos. E até hoje eu ainda mantenho os cadernos. Então eu sei quantos filmes eu vi. Foram 29.850 até agora. Uma vez disseram que eu era o primeiro crítico que começou como fã, o que eu acho que é uma coisa boa, que nunca me afastou da minha preocupação com o público. Eu sempre escrevi para o público. Eu falo para o público e sempre me baseio muito no que o público sente e pensa. Eu me sinto público nesse aspecto e sempre procurei passar pras pessoas que eu não sou o dono da verdade. O que eu digo não é definitivo. Muitas vezes eu mudei de opinião. De uns tempos pra cá, eu procuro passar uma mensagem sobre o filme, mais do que falar bem ou mal dele. Hoje eu carrego uma bandeira de amor ao cinema. Acho que por isso eu tenho me empenhado tanto em publicar livros como a “Coleção Aplauso”, por exemplo. É uma preocupação com a formação de público. De uma certa maneira, às vezes eu publico os livros que gostaria de ter. Mais do que um crítico, eu quero ser uma pessoa de cinema. Outro dia, nos Estados Unidos, eu fiquei radiante porque consegui ver três filmes antigos que estavam na minha lista. Ainda tem filmes que eu li a história na Filmelândia mas não consegui ver. Provavelmente porque eram proibidos. Então, até hoje eu ainda corro atrás do filme perdido.

 

Guia - O que te levou a fazer teatro? Foi você que quis ou alguém te convidou?

 

Rubens - Quando eu morava em Santos, nos anos 60, o cinema era um sonho muito distante porque era irrealizável. Naquela época eu conheci a Neyde Veneziano e a gente ficou muito amigo. Ela teve uma influência muito grande sobre mim, porque eu era absolutamente tímido, tinha medo do mundo. O cinema acabou sendo meu grande companheiro. A Neyde me levou para um grupo de teatro chamado “Teatro Escola Faculdade Filosofia”, onde os meus contemporâneos, além da Neyde, eram a Jandira Martini, o Carlos Alberto Sofredini, o Ney Latorraca, a Eliana Rocha, a Bete Mendes, o Nuno Leal Maia. Na verdade, eu comecei no teatro. Mas eu não gosto de ser ator. Fiz até alguns filmes como ator, mas foi só pra aprender. Quando vim para São Paulo, eu comecei a escrever pro Jornal da Tarde e ainda muito jovem eu fiquei conhecido. Fui fazer crítica de televisão, que não existia.  Assim, o teatro ficou um pouco afastado e curiosamente eu não pensei em voltar até que a Maximiliana Reis e o Jarbas Homem de Mello me chamaram pra fazer “Querido Mundo”. Na verdade, esses anos todos eu continuei assistindo tudo da Broadway. E sempre frequentei muito a classe. Os meus amigos eram mais do teatro do que do cinema. Eu já conhecia o Jarbas. Ele e a Maximiliana estavam se auto dirigindo. Então eles me chamaram com a idéia de eu ser a figura do crítico que acompanha a montagem, uma coisa muito comum na Europa. Acontece que na primeira reunião eu dei tanta opinião, mudei tanta coisa, mexi tanto, que a Maximiliana disse “Você está dirigindo né? Você já percebeu que você virou o diretor?” Eu disse “Não. É isso que é ser diretor?” Em quinze dias a gente montou o “Querido Mundo”. Eu dizia “Faz isso aqui.” “Mas isso não vai dar certo.” “Vamos fazer. Se não der certo a gente muda”. Por isso eu insisti em pré-estréia. E a pré-estréia mostrou o que a gente queria. Os dois são muito disciplinados. Eles seguiram e o espetáculo deu certo. Eu via todos os musicais da Broadway e dizia: “Isso aqui está errado. Mas por que está errado?” E essa informação toda, se você não deixa sair, começa a te enlouquecer. Essa foi a minha maneira de soltar. Ém “O Amante de Lady Chatterley” a gente levou só um mês e meio pra montar.  Eu levei um ano pra conceber a peça. Aí deixei na mão do Germano Pereira pra escrever o texto. Ele conseguiu dar um tom poético que eu jamais saberia dar. Quando nós pegamos pra ensaiar, foi um mês e meio e pronto. Ele já estava todo na minha cabeça.

 

Guia - Você é crítico. Como que é estar do outro lado?

Rubens - As pessoas às vezes me falam que eu não precisava disso. Mas primeiro, eu estou tendo um prazer enorme. Segundo, está dando certo. Terceiro, eu não tenho medo de dar a cara pra bater. Qual o problema, nessa altura da vida? O que resta, senão desafios? E queira ou não, as três peças até agora deram certo (Querido Mundo, Hamlet Gashô e O Amante de Lady Chatterley) e tem outras engatilhadas. Eu não estaria tendo convites se não estivesse dando certo. Eu tenho que agradecer à classe artística. Se não tivessem me aceitado eu não teria ido pra frente.

 

Guia - Então vem mais teatro por aí?

 

Rubens - Eu vou continuar no teatro. A gente está ensaiando uma peça do Emilio Boechat, “Hamlet no País de Oz”, que é muito divertida. Tem o “Into the Woods”, um musical da Broadway, e a gente está escrevendo um musical brasileiro pro ano que vem. Além do teatro, eu vou dirigir um documentário, que é um pouco um prolongamento da Coleção Aplausos, sobre Cacilda Becker. O fotógrafo é o neto dela, Guilherme Becker, e a gente deve começar já! A ideia é fazer uma grande exposição sobre a Cacilda no fim do ano. São 40 anos da morte dela.

 

Guia - Exercer esse lado criativo te ajuda como crítico?

 

Rubens - Definitivamente sim. Eu sou muito criticado. Cada vez que eu faço um Oscar,  tem mil e-mails falando mal, você sabe como é. A internet é terra de ninguém, qualquer coisa pode acontecer. Mas é bom pra o sucesso não subir à cabeça.  Mas eu descobri uma coisa. Quando, numa crítica, a pessoa diz a coisa certa, você passa a respeitá-la pra sempre.  Eu fiz um curta e a primeira pessoa que viu foi o Inácio Araújo. Ele falou “Engraçado. A primeira parte não tem nada a ver com a segunda”. E ele tinha razão. Eu estava tão envolvido que não tinha nem percebido. A Beth Néspoli do Estado de São Paulo veio assistir o ensaio do Hamlet e ficou super agradecida porque nunca ninguém tinha deixado ela assistir um espetáculo antes de estar pronto. Eu não tenho esse problema porque tudo que me trouxerem, vai me acrescentar, vai ser maravilhoso. Eu vejo o teatro como um “work in progress”. Pra mim, o espetáculo nunca está pronto. Cada dia eu estou descobrindo coisas e melhorando. Mas de um determinado tempo em diante o espetáculo passa a ser dos atores. Isso é fascinante. No cinema, se você foi embora e não fez aquele plano de cobertura, seu filme vai ficar com um buraco. No teatro se corrige pra próxima apresentação. Eu acho que o teatro é do ator como o cinema é do diretor.

 

Querido Mundo

Teatro Gazeta. Av. Paulista, 900

Sex, 21h30, Sáb, 20h e Dom, 18h.

 

O Amante de Lady Chatterley

Espaço dos Satyros II. Pça. Roosevelt, 134

Sáb, 23h59. Dom, 20h30.

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