Bonita, com um olhar marcante e um sorriso inconfundível, Tania Alves é uma das atrizes mais completas do Brasil. Em entrevista ao Guia de Teatro, ela fala do seu amor pelo teatro, pela música e do atual trabalho em Tieta do Agreste, musical adaptado e dirigido com sensibilidade por Cristina Trevisan e com direção musical impecável de Pedro Paulo Bogossian.
Guia - Ser atriz é algo que sempre esteve nos seus planos ou aconteceu por acaso?
Tania - Não foi por acaso. Eu estou certa de que o artista já nasce com um dom, que geralmente se expressa espontaneamente na infância. Eu me lembro que já cantava e fazia teatrinho com meus primos. Mas sem nenhuma consciência. Não sabia nem que aquilo poderia ser uma profissão. Eu não fui criada pra ser artista. Tive uma educação tradicional. Fiz faculdade de letras. Fui criada pra um outro tipo de vida. Então, nunca passou pela minha cabeça ser atriz profissional. Mas não adianta, o destino da gente se impõe. Eu queria expressar as coisas que eu sentia e acabei entrando em um grupo de teatro. Fiz canto coral. Fui cantora lírica. Também fui flautista num quarteto de música Barroca. Tudo isso porque sentia necessidade de me expressar. Nunca pensei em ser famosa, profissional... Quando eu estava na faculdade, fiz um teste para atriz porque o pessoal do coral dizia “você tem que ser atriz”. Eu dizia “Nunca vou conseguir fingir ser alguém que não sou. Eu não nasci pra isso. Sou cantora”. Mas enfim, alguma coisa me levou. Entrei no grupo. Fiz um teste. Passei e eles adoraram saber que eu cantava. Me botaram pra cantar nas peças do teatro da Faculdade Nacional de Letras (RJ). Eu fiz uma peça chamada “As Incelenças” do diretor Luís Mendonça com um grupo de teatro amador da Faculdade. O tempo passou. Fiz a faculdade, saí, casei. Esse momento foi muito confuso porque eu perdi o contato com o teatro. Estava casada, já tinha a Gabriela e queria muito trabalhar. Aí alguém me falou “Por que você não procura essas empresas de dublagem?” Estavam começando a dublar filmes para a televisão e todo mundo dizendo “Ah, você tem uma voz tão boa, vai lá”. Eu procurei a Cinecastro e conheci a Dona Carla, uma Lituana, que me perguntou “você é atriz?” eu disse “não”. “Já trabalhou com microfone?” Eu disse “não”. Ela riu de mim, mas depois ficou com peninha e deixou eu fazer o teste. Passei na hora! Então deu tudo certo e eu comecei a fazer dublagens. Lá na Cinecastro, eu encontrei uma atriz baiana chamada Ilmara Rodrigues e ela me chamou pra montar “O Rapto das Cebolinhas” da Maria Clara Machado. Eu fui. Fazia a gatinha Florípedes. Lá eu reencontrei o Tonico Pereira que tinha sido meu amigo e até meu namorado na época que eu fazia canto coral. Ele me chamou pra ver a peça que estava fazendo e que, por coincidência, era a mesma que eu tinha feito no teatro da faculdade, e com o mesmo diretor, o Luiz Mendonça. Eu comecei a frequentar os ensaios e virei tiete do grupo. Um dia uma atriz faltou, porque estava doente, e o diretor falou “Você vem aqui todo dia, já conhece a peça. Não quer substituir a atriz que faltou? Só tem três falas e tem que cantar as músicas”. Eu aceitei e fiz o papel nesse dia. A outra atriz nunca mais voltou. Por isso eu sou atriz. Então eu fiquei. Eu tocava flauta na banda, cantava as músicas, dizia aquelas três falas... Na montagem seguinte, “Viva o Cordão Encarnado”, o Mendonça me convidou pra participar e eu fui. Eu fazia figuração e a crítica falou de mim. Aí eu pensei “então eu tenho jeito, né?” Porque se na figuração a critica já falou bem... A estrela do espetáculo era a Elke Maravilha mas quando o espetáculo foi remontado pra vir pra São Paulo ela não pôde fazer. Eu tomei um porre pra ter coragem de pedir pro Mendonça pra fazer o papel dela, porque eu cantava e tudo mais. Ele disse “tudo bem”. Foi meu primeiro prêmio pela APCT.
Guia - Você sempre representa personagens muito marcantes, com características muito fortes da mulher brasileira. Você se acha a cara do Brasil?
Tania - Eu sou mestiça de negros, índios portugueses, holandeses e judeus. Imagina só. E o Brasil é isso. Um caldeirão, uma mistureba. Eu sou carioca. Minha mãe é carioca e meu pai era pernambucano. Mas não foi com ele que eu conheci os modos, comportamentos e costumes nordestinos. Foi com o diretor Luis Mendonça. Eu fiquei seis anos no “Grupo Chegança”. Por ali passaram Elba Ramalho, Alceu Valença, Geraldinho Azevedo, Walter Breda, Tonico Pereira, Joel Barcelos, Madame Satã... Era um grupo muito louco que fazia musicais brasileiros. Minha escola é essa e, de todas as vinte e poucas peças que eu fiz, só duas ou três não foram musicais. Eu viajei muito mambembeando com o Luis Mendonça pelo Brasil inteiro. Então eu guardo um arquivo muito grande de sotaques. Não é a toa que me chamavam na televisão pra fazer personagens nordestinos. Porque os diretores iam assistir as peças de teatro e pegavam nos palcos os atores pra fazer televisão. E eles viram como eu tinha um arquivo grande de comportamentos, de costumes e de sotaques de cada estado. Porque no nordeste não fala todo mundo igual. Cada estado fala diferente. Eu acho que o grande barato do ator é fingir, é ser algo completamente diferente do que ele é. Então, quanto mais diferente de mim, mais eu gosto. É sempre um desafio. Eu não gosto muito de rótulos que me prendam. De qualquer forma, essa brasilidade é uma marca registrada, mas eu gosto da liberdade de poder mudar, de experimentar. Meu sonho é fazer uma novela do Gilberto Braga, totalmente urbana. Uma mulher sofisticada. Eu tenho esse lado. Eu não vim de pau-de-arara do nordeste, como muita gente pensa (risos). Não é assim a minha história. Eu gosto de fazer coisas sempre bem diferentes. Eu estava fazendo “Os Monólogos da Vagina” do Miguel Falabella, que é bem internacional, bem legal. Adoro fazer Tieta que é baiana, é musical, é brasileira. E o baiano é muito especial! Ele tem umas características muito próprias que eu adoro. Adoro a Bahia. Meus avós por parte de mãe eram baianos. Eu vou sempre pra lá.
Guia - O livro “Tieta do Agreste” já virou novela e filme. O que o espectador vai encontrar de diferente nesta adaptação para o teatro?
Tania - Eu vi o filme mas não assisti a novela. Não vejo muito televisão. Eu acho que o fato de ser um musical muda toda a pegada. Não dá pra comparar com outras linguagens totalmente diferentes. Mas o espetáculo mantém o que tem na obra do Jorge Amado. Aquela descaração... Talvez aqui no sul a palavra “descaração” tenha um sentido meio pesado. Mas o baiano leva isso com muito bom humor porque o descarado lá é um debochado, com uma sensualidade inocente, com aquela coisa do jocoso, do brejeiro, do sensual... Tudo isso é muito do Jorge Amado e a gente conservou. Acho que o grupo foi muito bem trabalhado. Os atores são maravilhosos. A Maria do Carmo Soares, que eu adoro, está ótima. O Luis Araújo, que faz o par romântico e é o sobrinho da Tieta... Eles têm uma química maravilhosa! E é muito bom ver esses atores tão bem preparados aqui de São Paulo, que cantam e dançam. São ótimos! A música do Pedro Paulo Bogossian é linda. A Cristina Trevisan fez uma adaptação maravilhosa. E o fato de o espetáculo ser musical, sendo que a Bahia é meio que um berço musical do mundo, tem tudo a ver. E tem aquela coisa do melodrama também. É muito engraçado. As coisas vêm acontecendo de um jeito e, de repente, do nada, dá uma virada. É uma coisa linda! Eu estou achando muito legal fazer a Tieta.
Tieta do Agreste
De Jorge Amado
Dir. e Adapt: Christina Trevisan
Teatro Brigadeiro - Av. Brig.Luis Antonio, 884
Tel: 3115-2637.
Sex, 21h30 e Dom, 19h, R$50. Sáb, 21h. R$60.
Até 01/03. Classificação - 14 anos.