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Juca Chaves
O eterno Menestrel do Brasil
 

Ele já chega para a entrevista com um sorriso maroto no canto da boca. A conversa é sempre costurada pelo seu humor afiado. Sentado em uma poltrona do teatro que leva seu nome, Juca Chaves falou ao Guia de Teatro sobre sua história, sobre humor e sobre os projetos que vêm pela frente.

 

Guia - De onde vem a sua relação com o teatro, com o palco?

Juca - Quando eu era menino, eu já representava. Eu fiz até um juiz de paz numa peça em que o Zé Renato era o diretor. Eu tinha quinze, dezesseis anos. Me formei no Centro de Oratória Ruy Barbosa, pra ser orador, porque eu gostava daquilo. Era meio esquerdão sabe? Esquerdão e meio. Não tinha idéia de seguir a sério com o teatro porque eu já era músico, mas acabei por fazer algo muito parecido com o que um ator faz. Eu faço monólogos. No fundo, é isso o meu espetáculo. E um monólogo é muito difícil de fazer. Isso quem me disse foi o Procópio Ferreira. Ele era muito amigo do meu pai. Quando eu fui apresentado a ele eu tinha oito anos, lá no Rio, na Urca, e falei: “Jurandir Chaves, o maior”. Ele disse: “Procópio Ferreira, o insignificante” (risos). A piada, assim como uma peça de teatro, tem que ter ‘time’. Você sabendo o tempo certo de contar uma piada, ela é perfeita. Eu às vezes conto uma piada errado e ninguém ri. Não é porque a piada é ruim. Às vezes a piada é boa...(risos) Eu nunca fiz curso de teatro. Aprendi sozinho, vendo. Aquilo de você olhar pra platéia, seco, sem rir junto, e fazer a platéia rir. Um humor meio inglês! É isso que eu aprendi. Eu fui o segundo a levar esse tipo de humor para o teatro. O primeiro foi o Zé Vasconcelos que é o pai de todos nós. Mas ele não tinha música e eu percebi que eu poderia fazer um espetáculo teatral de humor com música.

 

Guia - Você sempre satirizou os nossos presidentes, a nossa política...

Juca - Eu já satirizei todos. A sátira é a crítica aos costumes errados da sociedade. Muita gente confunde com paródia, que não tem nada a ver. A paródia é uma imitação vulgar de alguma coisa. A sátira é o que faziam, por exemplo, Gregório de Matos, Bocage. Inclusive, há um estudo sendo feito por uma psiquiatra, fazendo uma comparação do Bocage comigo. Duas personalidades com mais ou menos o mesmo padrão de sátira, vivendo com duzentos anos de diferença. O Bocage era um romântico acima de tudo. Ele tem sonetos de amor incríveis.

Guia - E você também tem.

Juca - É o que eu gosto de fazer. Aliás, eu gosto mais da minha fase romântica do que da satírica. Eu acho que a romântica é a mais importante porque é mais difícil. Eu gosto da rima rica. Gosto muito de rebuscar. A palavra é feita pra isso. É como uma roupa de mulher, quando é muito simplória. Se a mulher for muito bonita, fica boa. Mas se a mulher não for bonita, ela fica feinha. A mesma coisa é com a música. Pode até ter uma boa orquestração. Mas se a música não for boa, ela se perde.

 

Guia - E agora você construiu um teatro?

Juca - O teatro é o templo da Arte. Tem uns que vão à igreja, outros vão aos templos religiosos... Este é o templo da Arte. O teatro é onde vão os verdadeiros amantes da arte. É bem diferente do que você cantar ou representar, por exemplo, em praça pública. A princípio, a idéia era fazer uma sala de espetáculos mas eu acabei fazendo mesmo um teatro. E a luta foi muito grande. Eu fiz com o meu dinheiro. Não tive ninguém no começo pra me apoiar, salvo a Eucatex e o Cyro Del Nero. Esse teatro era uma sala que havia aqui pra vender produtos do Mappin Itaim. Eu aproveitei bem o local e abri o Espaço Cultural Juca Chaves. Eu usei a expressão ‘Espaço Cultural’ porque ninguém usava. Hoje todo mundo usa. Então eu tirei e botei ‘Teatro’ de novo. Daqui pra frente é teatro, porque é um teatro mesmo! E eu pensei: “vou dar uma melhorada nisso aqui”. Comprei as melhores poltronas. Você pode ver que são as melhores. Elas viram pra trás, pra frente, pro lado(risos). Coloquei ar condicionado, luz e som de primeira. Está tinindo! E temos trazido peças muito boas pra cá. Tivemos um espetáculo da Bibi Ferreira que fez muito sucesso. Agora vai estrear uma peça do Juca de Oliveira. O teatro pegou. O nosso sonho agora é fazer um café cultural junto ao teatro. Estou precisando só de alguém que queira fazer isso.  Eu tentei falar com uma empresa grande no ano passado. Me atendeu uma moça que era gerente de Marketing. São todos perigosos! Gerente de marketing é uma profissão perigosíssima. Eles falam “não” antes de saber o que é. “Bom dia”... “Não” (risos), quando não falam “não”, falam “o budjet”, quando não falam “o budjet”, falam “estamos em janeiro”, mas se tiver em dezembro eles falam também, “estamos em dezembro”. Eles estão sempre no mês corrente (risos). Então eu evito o gerente de marketing e falo sempre com os donos das empresas. Porque cultura no Brasil não é um bom negócio. Mas eu faço por prazer. É claro que uma cervejaria dá muito mais dinheiro que um café cultural. Mas não é por dinheiro.

 

Guia - Quais são os projetos para 2009?

Juca - Vamos fazer uma campanha boa esse ano. Não sou a favor de baixar preço de teatro. Eu acho que o governo tem que fazer uma força pra levantar a cultura, pra que o artista ganhe mais. Essa lei do meio ingresso é uma lei que prejudica o artista porque o governo faz cortesia com o chapéu dos outros. Eu pergunto: o cara que se forma como advogado, como médico... você acha que ele vai deixar o artista pagar meia consulta? E por que estudante também não tem direito a meio voto? Estudante teria que ter direito a meio voto. Ele é meio! Dois pra dar um. Mas a gente vai continuar tocando o teatro. Tá indo muito bem. O Itaim não tinha teatro. Então, essa é uma forma de habituar as pessoas com lugares culturais. Este teatro está situado num lugar maravilhoso. Tem uma passarela que sai aqui bem na porta. É a passarela do Juquinha. Deram esse nome, eu deixei. Só tenho medo do IPTU vir pra cima de mim (risos).

 

Teatro Juca Chaves

Rua João Cachoeira, 899

Dentro do Extra Itaim

Itaim Bibi - Tel: 3073-0044

351 lugares

Estacionamento no local

Acesso a deficiente físico

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