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Cleyde Yáconis
A cada trabaho, um novo desafio
 

     Ela queria fazer medicina. Enquanto se preparava, trabalhava com camareira no TBC - Teatro Brasileiro de Comédia. Mesmo sem pretensão alguma de seguir a carreira artística, aceitou o convite para substituir às pressas a atriz Nydia Lícia, que adoecera. Por se encaixar fisicamente no papel e por saber as falas da personagem, estreou no papel de Rosa Gonzales em “O Anjo de Pedra”, de Tennessee Williams, contracenando com sua irmã Cacilda Becker, em 1950. Depois, foi convidada pelo diretor Ziembinski, e fez o papel de Annette na peça "Pega-Fogo", de Jules Renard. Acabou desistindo da faculdade e se entregou à profis-são de atriz. A medicina perdia uma seguidora e o teatro ganhava uma estrela. Hoje, aproximadamente noventa montagens depois, ela reestréia a peça “O Caminho para Meca” no Teatro Jaraguá.

 

   Em entrevista ao Guia de Teatro, Cleyde Yáconis fala da entrada repentina nos palcos, da importância do TBC para o teatro brasileiro e do seu atual trabalho: “O Caminho para Meca”.  

 

Guia - Você queria fazer medicina, mas acabou fazendo teatro. Como foi essa troca?

Cleyde - Eu nunca havia pensado em fazer teatro. Nunca havia lido uma peça. Nunca tinha visto um ensaio. Eu não tinha a menor noção do que era representar. Estava me preparando pra fazer exames pro vestibular de medicina porque, desde que me conheço por gente, quero fazer medicina. Acho que numa próxima vida eu vou fazer. Meu talento sempre foi mais para a ciência do que para as artes. Na verdade, eu acho que eu tenho talento para o teatro. Mas vocação eu tenho para a ciência. Porque em muita coisa de teatro eu continuo muito fechada. Eu gosto de ensaiar e representar. Só. O enfeite do teatro não me pegou. A importância da fama, retratos e críticas... Nada disso conseguiu me pegar. Mas o princípio no teatro foi mesmo por acaso. Eu não consigo explicar como nem porque entrei em cena sem saber nada... E fiquei. Mas não me arrependo.

 

    Hoje, sabendo o que é o teatro, eu tenho um prazer enorme. Porque eu não sabia o que era. Eu não conhecia os fundamentos. Não sabia o quanto eu poderia dar. E eu achava que a medicina seria um caminho de doação. A profissão de médico é fascinante. Você cuida do ser humano. Mas quando eu descobri que também no teatro você cuida do ser humano, de uma outra forma, e também exige atuação, aí é que ele me pegou. Porque eu não sabia que teatro era isso, que era tão importante. Não sabia o quanto eu poderia me dar. É você representar e saber que, para a platéia, você está mandando um recado. Eu só achava importante o bisturi, o remédio. Hoje eu vejo que a palavra é uma coisa muito importante e eu trabalho com uma arte que se baseia na palavra.

 

Guia - “O Caminho Para Meca” é uma dessas peças que ajudam a cuidar do ser humano?

Cleyde - Com certeza. A peça tem uma grande qualidade. Ela diverte, ela é leve, bonita, delicada, sutil. Mas ela manda mais de mil recados e não um recado só. Tem muita coisa pra pensar, mas pensar gostoso. O público chora, mas ela não é pra baixo. Ela é esperançosa. Até pra mim faz bem porque eu não sou muito esperançosa em relação ao nosso planeta. Eu sou muito preocupada. Mas a peça não. A peça mostra esperança no ser humano.

 

Guia - Você tem um currículo invejável de peças representadas. Que peso isso tem na hora de encarar um novo trabalho?

Cleyde - Pra mim toda peça é nova. Eu representei perto de noventa peças. O teatro é uma coisa fantástica porque cada peça que eu começo, começo do zero. Não adianta ter feito noventa peças. A próxima eu tenho que começar do zero. Isso é fantástico! É uma profissão terrível, de pânico, de pavor, porque você pode ir pro palco com a melhor das intenções, mas você só sabe se acertou quando abre o pano. Enquanto não tem o público, você não sabe! É um mistério. Você ensaia o espetáculo. Ele está pronto. Num dia é maravilhoso, no outro dia não é. Por que um dia baixa o santo e no outro dia não baixa? Acontece como um milagre. Você só sabe quando abre o pano.

 

     Agora, tem coisas que eu não me conformo. Não me conformo de não ter mais cortina no palco. Não é saudosismo não. Por que as peças que eu faço ou as que eu vou assistir, não têm mais o pano? Isso quebra o mistério do cenário. Aliás está acontecendo a mesma coisa que na igreja, não tem mais o misticismo. É braço pra cima. Tanto faz assistir a um programa de auditório na TV como a uma missa. É a mesma coisa. E acontece isso agora com o teatro. O mundo quebrou o mistério, o fascínio, o estranho, o místico. Quebrou a magia! É tudo cru. Já joga no colo da pessoa: “É esse cenário”. Não tem descoberta, não tem o mistério das relações humanas, é tudo muito fácil e aberto.

 

Guia - Você participou ativamente do TBC. Ele foi mesmo um divisor de águas pro teatro brasileiro?

Cleyde - Foi. Eu acho que, infelizmente, nem o teatro paulista nem o teatro brasileiro dão o justo valor ao Franco Zampari (fundador e diretor administrativo do TBC). Ele foi muito injustiçado. Ninguém fala o que ele deu para o teatro paulista e para o teatro brasileiro. Eu realmente amo apaixonadamente a figura dele e lastimo que ele não tenha uma estátua em praça pública como o grande homem do teatro paulista. Ele era terrível! Mas a paixão dele pelo teatro... O que ele fez, o respeito que ele tinha pelos atores. Ele morria de in-veja da gente em cena e você sentia que ele tinha aquela paixão! Ficava inebriado com a arte de representar. Mas infelizmente eu não sei se um dia ele vai ter seu justo valor reconhecido. Quando ele morreu, acho que não tinha meia dúzia de atores. Estávamos eu, Cacilda Becker, Walmor Chagas, Carlos Vergueiro, Zilah Maria... Não lembro se foi mais alguém. Ninguém reconhece. Só abrem a boca pra falar mal. Injustamente! Um homem extraordinário! Mas eu não fico triste não. Quando a gente ama uma pessoa a gente fala dela com alegria. Ele foi embora, mas era maravilhoso! Como ele era bravo! Um desrespeito qualquer com o teatro e esse homem ficava possesso. Se alguém chegasse um minuto atrasado, caía o mundo! Ele era passional. O TBC foi realmente um divisor de águas. E Franco Zampari foi um grande homem para o teatro.

 

 

 

O CAMINHO PARA MECA

De Athol Fugard. Dir. Yara de Novaes.

Teatro Jaraguá. Rua Martins Fontes, 71 

Centro - Tel: 3255-4380. Sex, 21h30.

Dom, 18h. R$40. Até 14/12. 12 anos.

 

O espetáculo tem o patrocínio da COSIPA

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