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Denise Fraga
Brecht com talento e bom humor
 

Ela pensou em ser ilustradora e aeromoça. Mas descobriu o teatro e hoje pode ser muitas pessoas sendo apenas atriz. Denise Fraga fala do amor pela profissão e do prazer em montar um texto de Brecht.

  

Guia - Por que ser atriz?

Denise - Aconteceu uma coisa curiosa comigo. Eu gostava de teatro. Ia muito com a minha mãe. Mas eu nunca achei que essa seria a minha profissão. Eu achava que isso era para os deuses, não para mim. Quando eu passei no vestibular (queria ser ilustradora de livros infantis), fiquei com seis meses livres até começarem as aulas. Então re-solvi fazer um monte de cursos grátis, pra não parar de estudar. Um amigo me chamou pra fazer um curso de teatro com a Sura Berditchevsky e a Guida Vianna. Disse que era muito legal e eu fui. Eu era muito tímida. Tinha vergonha de perguntar a hora pra pessoa do lado. Mas quando diziam “Denise, sobe pra fazer o exercício”, eu sentia um conforto... Não sei de onde vinha. Era como se ali não fosse eu. Como se eu não fosse responsável pelos meus atos. Era um personagem, uma criação. Eu me sentia mais à vontade no palco do que fora dele. Isso foi muito revelador pra mim. Mas, ao mesmo tempo, eu não achava que aquela seria minha profissão. Depois que eu entrei na faculdade, fui fazer um curso aos sábados com o Cláudio Corrêa e Castro. Foi ele quem disse pra eu prestar a escola Martins Pena, que era profissionalizante. Ele dizia que eu tinha que me profissionalizar. Eu duvidava. Mesmo assim, fiz o exame. Um exame dificílimo, mas eu passei. Aí comecei a achar que eu deveria mesmo fazer aquele negócio. A primeira vez que eu consegui pagar meu aluguel sendo atriz, foi uma felicidade inacreditável! Porque as pessoas desconfiam muito dessa profissão, no início. Você diz “Ah, eu sou atriz”. A primeira coisa que perguntam é “Que novela você faz?”(risos). Aí você fala “Não, eu não faço nenhuma novela”. É muito louco. Mas minha mãe sempre deu muita força. Isso foi bom. Quando você consegue pagar suas contas com seu teatro, isso é uma felicidade enorme! E aconteceu comigo. Antes de fazer televisão eu já vivia como atriz. Eu sou carioca. Vim pra cá com “Trair e Coçar” e fiquei.  Eu lembro que eu tinha um grupo de teatro e a gente tirou uma peça do nada. Chamava “A Desgraça de Uma Criança”. Eu peguei uma cortina emprestada na casa da minha avó. Rifamos o relógio do tio de uma das integrantes do grupo... Ou seja, levantamos ali uns poucos fundos pra fazer a primeira montagem. E depois montamos um repertório de cinco peças do teatro clássico brasileiro. Isso nos pagava as contas no início da carreira. Eu acho que o teatro é uma junção de talento, oportunidade e vocação. O importante é o fazer teatro. É a fé nele. Você saber que aquilo ali é o que você veio fazer no mundo e teimar! Eu acho que sem isso nem o maior talento se segura. É uma escolha. Mas eu gostei desse “Por que ser atriz?” Primeiro porque eu acho que é a melhor profissão do mundo. Só perde pra cantora (risos). Eu agradeço todo dia por ser atriz. Imagina! Você vive várias coisas... Eu quis ser atriz, porque uma vida só não basta, a gente quer viver muitas coisas, quer ser muitos. Então o meu grande barato com a profissão é realmente o de permear universos diferentes e ir pra lugares que só essa profissão me leva. Como na literatura, só que de uma maneira absurda, intensa. E depois a gente pode sair disso. Você mata o cara em cena, ele cai... e levanta depois.

 

Guia - Ele morre sexta, sábado e domingo.

Denise - Pois é. E você vai lá... E sofre sexta, sábado e domingo. Você ri, você grita! Eu acho que esse mecanismo de emprestar-se, de fazer acontecer em você a emoção do outro, do personagem, é um negócio mágico pra caramba.

Guia - Como foi fazer “Trair e Coçar” por seis anos?

Denise - Eu sempre fiz “Trair e Coçar” de uma forma muito leve. Era um espetáculo que me alegrava muito. Era um grande circo.  Eu acredito que muitas pessoas que foram ver o “Trair e Coçar” só foram ao teatro aquela vez. Mas eu falava, ao final do espetáculo, que elas nunca deixassem de ir ao teatro. Eu achava que tinha realmente uma coisa muito boa acontecendo ali. Um espetáculo que estava reunindo muita gente que nunca tinha ido ao teatro. Até hoje, muitas pessoas que eu cruzo em táxis, restaurantes, falam comigo da peça. Era algo realmente popular. Era como um jogo de vôlei com a platéia. Eu jogava a situação e eles me devolviam em gargalhadas. Eu tinha uma obsessão constante em limpar o espetáculo, em criar o tempo certo. Eu ia atrás daquilo que nem uma louca e às vezes ficava até meio obsessiva. Eu me lembro que uma vez eu saí de cena e falei assim: “Ah! Não funcionou”. Um ator virou e disse: “Você está maluca? Eles morreram de rir.” Eu disse: “Mas não é só esse riso que interessa”. Com comédia você não pode viver só de risada. Você tem que medir pela história. A piada que é só uma piada, atrapalha. Então, a medida não é só o riso. O importante é contar aquela história, divertindo as pessoas, provocando risadas. Quanto mais risadas, melhor. Mas dentro da história. “Trair e Coçar” foi uma grande escola. Imagina, seis anos! E eu com esse traço obsessivo da minha personalidade (risos). Agora mesmo, em “A Alma Boa de Setsuan”, às vezes eu chego no camarim e falo: “aquele negócio tem que ajustar ali, aquele outro está saindo”. Eu sinto que nós atores somos aquele artista de circo que segura os pratos girando nas varetas e aquilo morre se você não rodar. O teatro não se faz por si. Não é só o texto que você decora. Isso é o que os antigos chamam de fazendo na chave. Liga a chave e vira um bonequinho falando o texto. Eu acho que o grande desafio do ator no teatro é trazer o frescor para cada apresentação. Eu fiz mais de 1500 apresentações no “Trair e Coçar”. Fazer aquilo com frescor pela milésima vez é difícil pra caramba. Você canta “atirei o pau no gato” e nem pensa. Quando você vai ver, você está falando que tentou bater num gato com um pau mas não conseguiu matá-lo. E a Dona Chica ficou admirada porque o gato deu um berro. Você canta essa música, sei lá, desde os doze anos de idade. E um belo dia você fala assim “Dona Chica admirou-se do berro que o gato deu?” (risos). Se você vacilar, acontece isso com você no teatro. O teatro é uma grande música e eu acho que esse é o grande perigo. Eu acho que a platéia toda noite te fornece a história de novo. É como quando você conta uma piada. Você pode ter contado essa piada não sei quantas vezes na sua vida, mas cada vez que conta, você pensa no que está falando e é isso que acontece no teatro. Nossa profissão não tem manual, não tem fórmula, não tem 2+2. Cada ator faz do seu jeito. Eu, por exemplo, sinto que tenho um gosto pela limpeza cênica. Você pode condensar um gesto, uma palavra, um olhar, um brilho no olho. Mas tem que dizer aquilo toda noite. Então, você pode adquirir camadas que vão cada vez mais recheando o personagem. Senão, a temporada corre o grande risco de perder o frescor, o vigor. O personagem se dilui e as relações cênicas se esgarçam. Tem que tomar muito cuidado porque o teatro se movimenta o tempo todo. Um espetáculo não se encerra na estréia. Ele começa ali. O teatro é uma comunhão imensa. É você compactuar com aquelas pessoas que estão ali naquela noite e saber que, juntos, vocês vão fazer algo único, que só vocês vão presenciar. Ele realmente não é igual de um dia para o outro.

 

Guia - Em “A Alma Boa de Setsuan” você consegue falar de ética, com muito bom humor. Brecht tem esse humor?

Denise - Quando li o texto eu disse: “Brás eu quero montar este texto” por que ele tem o tipo de humor que eu mais gosto na minha vida, que é essa graça que enfia uma faca no coração do sujeito. E ele dizia “É claro que tem humor!”. Brecht foi um artista de caba-ré. Dizia que não adiantava comunicar sem divertir. Primeiro divertir. E aí você fala o que você quiser. O humor é um veículo altamente transgressor, porque através dele você pode falar o que você quiser e a recepção é muito mais fácil. O filósofo Henri Bergson que escreveu “O Riso” fala uma coisa muito interessante: “Só ri quem raciocina”. Ou seja, só ri quem entende. Você se reconhece ali. Quando o Brecht colocou essa fábula em um lugar muito distante, ele estava mostrando que você reconhece a sua esquina ali. É uma parábola. E tem hora que a peça é escrita em “gag”. O cara fala “Você tem uma loja? Você não é mulher da vida?”. “Eu tenho uma loja mas antes eu era mulher da vida” É piada, é clássico isso. E está lá. A gente não colocou humor em Brecht. A gente viu humor em Brecht. Ele era um absoluto fã do Chaplin, que eu acho o rei desse tipo de humor que eu mais gosto de fazer.

 

Guia - Esse humor que seria qual? Feito com simplicidade, humor do dia-a-dia?

Denise - No início eu chamava de “graça triste, depois de “graça poética”. Mas eu acho que é esse riso com uma faca no coração mesmo. Você ri porque se reconhece. E está levando alguma coisa daquilo pra sua casa. Não é só o prazer da gargalhada. A função do ator é botar um espelho na frente das pessoas. Fazer com que elas se vejam e descubram aquilo que elas não estavam enxergando. O ator interpreta algo que vê, um texto, uma imagem que ele tem na cabeça. E você só vai ver aquele personagem daquele jeito, através daquele ator. O que vale é o filtro, é a sua visão. Portanto, não tem essa coisa de dizer “o ator tem que obedecer ao diretor e ponto”. Não. É uma comunhão de visões em cima de um personagem e o que fica é a visão do ator junto com a visão do diretor.

 

Guia - “A Alma Boa” é uma peça sobre a generosidade?

Denise - Sim. Ela fala disso. Eu estou pra montar essa peça faz 5 anos. Talvez eu nunca tenha feito um espetáculo onde eu quisesse tanto dizer o que é dito em “A Alma Boa”. A peça fala de uma coisa que é muito reconhecível: o bem e mal de cada um. Todos nós temos o nosso Chen Tê e o nosso Chui Ta. Resta saber quando usá-los. Eu sinto que Brecht coloca na peça a Chen Tê num momento em que há a necessidade de chamar o seu lado mal. Mas ela mesma não consegue assumir isso como uma dualidade. Então ela finge ser um primo e, num determinado momento, ela gosta do que encontrou. O que eu acho louco é que a humanidade gostou de ser dura. Acho que a dureza não é mais uma alternativa. Ela virou lei primeira. Hoje, uma pessoa já chega pra fazer uma reunião de uma forma dura, para se impor. Ela não tenta uma abordagem carinhosa, generosa, onde gentileza gera gentileza, porque ele acredita que gentilezas não geram mais gentilezas, mas sim abuso. E aí a gente foi perdendo a capacidade de conversar. Eu acho que, na hora que eu dou a mão e me pegam o braço, eu devo dizer “Não, o braço não. Eu estou te dando a mão. Vamos nos organizar”. Mas a gente não quer mais conversar. Então eu deixo de te dar a mão, porque acho que você vai me pegar o braço. A gente elimina o processo e não se compromete.

 

Guia - Você é a produtora do espetáculo?

Denise - Eu produzo há muito tempo, por conta desse grupo que eu tive logo no início. Essa foi a maneira que a gente achou de fazer teatro. Aí me deu essa luz. No momento em que eu consegui levantar aquela peça pegando a cortina velha da minha avó e rifando um relógio, eu poderia levantar a peça que eu quisesse. Todas as peças que eu tenho feito eu tenho produzido porque eu acho que é a maneira que você tem de dizer o que você quer. Mas nada impede que alguém me mostre um texto que eu adore. Vamos fazer e produzir. Não tem problema nenhum. Eu acho que uma coisa não exclui a outra. Mas se você não produz suas próprias coisas, você fica a mercê dos convites. E pode fazer coisas que não são a sua voz. Aquilo que eu produzi era o que eu queria dizer pras pessoas. Há seis anos atrás, quando eu li “A Alma Boa de Setsuan”, eu tinha acabado de produzir o “Ricardo III”, que terminou em 2007, com um elenco de 15 atores. Eu falava: “Meu Deus do céu! Eu vou fazer “A Alma Boa” com 11 atores? São três sessões semanais.” Não é fácil fazer uma produção grande. As coisas têm que funcionar muito bem! Com um elenco grande não existe a possibilidade de rolar mais ou menos. Tem que rolar bem. A gente correu atrás, conseguiu um apoio super importante do Bradesco Prime - eu faço questão de falar porque foi mesmo muito importante e estamos aí. Era um texto que eu precisava montar.

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