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Carlos Bonow
Oito em um no palco
 

Ele quase deixou escapar a oportunidade que muitos aspirantes a ator sonham ter. Mas seu caminho para os palcos e telas era certo. Em entrevista ao Guia de Teatro, Carlos Bonow fala de sua carreira e da aventura de interpretar oito personagens em um mesmo espetáculo.

 

Guia - Como você iniciou sua carreira de ator?

Bonow - Eu sempre quis fazer teatro, mas não sabia como. Eu morava na Barra da Tijuca, no Rio e, na época a Barra era só areia. Hoje em dia é um país. Mas não tinha um curso de teatro, não tinha nada. Aí surgiu a idéia de fazer figuração porque eu achei que era uma forma de eu conhecer o mundo dos atores. Eu tinha 16 anos e treinava como goleiro em um clube, no juvenil. Um dia, quando eu estava andando pra pegar um ônibus, pra ir pro treino, apareceu um gringo parlando assim, com sotaque, e disse “Estamos precisando de um cara como você, da sua altura, pra uma cena na TV”. Eu achei que era papo furado e não aceitei. Ele dizia “Non, non, porque faltou um cara... Tem certeza que non quer?”. Eu disse que não queria mesmo e o cara foi embora. Mas eu fiquei ali, só olhando e sacando o que acontecia. Aí chegou um carro com o logo da Globo e eu disse “Ah! Então a parada é quente.” Me aproximei e o gringo falou pra equipe “É esse o cara que eu disse”. Um ator que fazia um papel bem pequeno, com apenas uma fala, havia faltado e eles queriam que eu o substituísse. No final, eu nem podia fazer a fala porque eu não tinha registro, e acabei interpretando um cara que ia fazer ciúme pra uma menina, coisa assim... Eu e o Gringo (que é mesmo o apelido dele) até já nos encontramos depois, em outras produções, e demos muita risada desse dia. Enfim, comecei a fazer algumas figurações e assim fui conhecendo as pessoas. Depois, comecei a fazer teatro e larguei a figuração. Também começou a surgir bastante publicidade pra fazer. Até que eu fui fazer o meu primeiro teste pra Rede Globo que foi pra um programa do Chico Anísio, o Chico Total. Então, comecei a fazer um monte de coisas e não parei mais. Fiz participações em várias novelas. Dei muita sorte com os comerciais, que sempre eram muito marcantes, ou pela musiquinha ou por algum chavão forte. Foi através de um comercial que eu fui indicado pra fazer ‘O Quinto dos Infernos’. Aí fui engatando um trabalho no outro, uma peça na outra. Produzi duas peças, fiz dois longas com o Renato Aragão, e não parei mais. É que nem foguete. É pra cima, subindo, na vertical! (risos)

 

Guia - Na peça “O Nosso Amor a Gente Inventa” você interpreta oito personagens. Como é isso?

Bonow - Eu sempre quis fazer uma peça em que pudesse interpretar mais de um personagem. É diferente da TV, das novelas. Eu acho incrível a oportunidade de elaborar um personagem, quando você sabe o que vai acontecer com ele no começo, no meio e no fim. E aí, quando caíram esses oito personagens na minha mão, eu pensei que era uma oportunidade de ouro de mostrar meu trabalho. E no teatro existe toda essa carpintaria. Os ensaios, a direção, a luz, o cenário. Você vai construindo o personagem com todo aquele suporte. Mas na hora que abre o pano, terceiro sinal, o negócio é com você! Então, quanto mais desafiador for, melhor. Se tiver que interpretar um personagem muito próximo do meu dia-a-dia, do meu cotidiano, eu estou arriscado a perder a mão. Eu gosto de fazer o que for o mais diferente possível. Olha só... Um gerente de banco, um corintiano fanático (eu sou torce-dor roxo do fluminense, mas não chego àquele ponto, não bato na minha mulher). Essas diferenças é que são bacanas. Todo dia de apresentação eu faço um exercício pra mudar minha respiração. Essa é a minha grande brincadeira na coxia, já vestindo o figurino. No personagem do torcedor, por exemplo, dou uns tapinhas na cara, começo a suar e já fico irritado com alguma coisa. Aperto os meus olhos. Parece que tem algo me incomodando... Quando eu vejo, a respiração já mudou. Acho que essa é a grande brincadeira, que é aquilo que a gente fazia quando era criança e brincava de teatro com a família, com os primos. É botar isso em prática, só que agora assim, na real, à vera, com técnica, com tudo que você aprendeu. E as meninas (Beth Lamas, Stella Antunes, Thaís de Campos) dão show né? Elas batem um bolão. Me ajudam pra caramba! Eu tento ajudar ao máximo, também. Eu gosto dessa troca. Acho que é isso que faz um time ser campeão.

 

Guia - Como você encontrou seus personagens entre essas três mulheres? Você acha que o espetáculo parte de uma ótica feminina?

Bonow - Engraçado, porque tem umas mulheres que dizem que a peça é machista (risos). E eu acho que é esse o grande barato. Eu estava conversando com a Adriana Garambone, que fez um par romântico comigo na última novela , Amor e Intrigas, na Record. Quando foi assistir a peça, ela me disse “Olha, é meio machista né? Ainda bem que tem o momento tal, tal e tal.” O Miguel Paiva tem um universo que todo mundo já conhece, das crônicas, da Radical Chic, do Gatão de Meia Idade. E se você vir outros trabalhos dele, você percebe que ele sempre tenta buscar os dois lados, tanto o masculino, quanto o feminino. E aí vem a Cininha, que é uma mestra pra mim, e que já tinha feito outras parcerias com ele. Ora ela vem com a visão do homem, ora com a da mulher... Ela tenta dar o equilíbrio máximo a tudo isso. Eu sou um ator daqueles que gosta de ser mais pirado e, se não me frear, desço a ladeira, solto o freio de mão e vambora. Mas ela sabe segurar e moldar a gente. Ela diz “Olha. Isso é menos, isso é mais”. E ela fez isso com o texto também. A peça começou, eram 3 mulheres. Não tinha o homem em cena. Elas apenas falavam de um homem. Depois elas começaram a ler e sentir a necessidade de colocar um ator. Aí a Cininha me chamou. Fiquei felicíssimo! Nem sabia como era o texto, mas eu sempre quis trabalhar com ela. Disse na hora “Tô dentro!!”  Eu estava fazendo uma novela e tinha dito que nunca mais faria novela e teatro junto. Mas não teve jeito. O Miguel Paiva ficou sabendo que eu faria o papel e começou escrever pra mim. Conforme o texto foi chegando a Cininha foi tendo essa preocupação com os universos feminino e masculino. “Aqui tá machista. Aqui tá feminista.”(risos) Foi um exercício ótimo!

 

Guia - E o que vem pela frente?

Bonow - Eu vou fazer a próxima novela da Record, que ainda não tem nome certo. Começo a gravar no final do ano. Em relação ao teatro, não penso em nada ainda, porque quero dar vida longa a este espetáculo. Sabe o filme “Se Eu Fosse Você”, com o Tony Ramos e a Glória Pires? Vai sair o 2. Acho que é pra 2009. Tem a direção do Daniel Filho e a Cininha faz a assistência. Eu rodei uma participação. Faço um professor de Hip-hop. Me diverti muito com eles. Já os conhecia, mas nunca tínhamos trabalhado junto. Foi tudo muito bacana.

 

 

O Nosso Amor a Gente Inventa

De Miguel Paiva.

Dir. Cininha de Paula.

Teatro Bibi Ferreira.

Av. Brig. Luis Antonio, 931 – Bela Vista

Tel. 3105-3129.

Sex, 21h30 e dom, 19h, R$40.

Sáb, 21h. R$60. Até 30/11. 14 anos.

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