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Marcos Caruso
Teatro e responsabilidade social
 

Ele se formou em Direito, mas não exerceu a profissão. Nessa época o teatro já tinha surgido em sua vida como algo maior. Hoje, é ator, autor, diretor e produtor. Em entrevista ao Guia de Teatro, Marcos Caruso fala, entre outras coisas, da função social que o ator exerce e do seu atual trabalho como diretor na peça “Ainda”.

 

 

Guia - Como o teatro surgiu na sua vida?

Caruso - O teatro não é algo que aconteceu na minha vida por acaso. Desde criança, eu já tinha uma relação forte com ele. Fazia teatro de fantoches no Rio de Janeiro, na casa dos meus avós. Tinha até um grupo de teatro infantil. Depois fundei um grupo no ginásio e, no colegial, fundei um outro grupo. A gente montava peças para trabalhos de literatura portuguesa e brasileira. Eu já sabia, também, que a Faculdade de Direito do Largo São Francisco tinha um grupo de teatro importante. Eu era do Centro Acadêmico XI de Agosto e, naquele momento o Brasil vivia uma grande repressão. Nosso grupo era dos mais atuantes politicamente, fazendo teatro para grupos operários, nos bairros. Foi muito importante fazer parte desse grupo. Foi em função do ter feito o teatro universitário que me chamaram para o teatro profissional. Eu estreei o “Alegro Desbum” do Oduvaldo Vianna Filho, em 1975. Nesse mesmo ano estreei profissionalmente como autor.

 

Guia - Você é autor, ator, diretor e produtor. Como é ser tudo isso junto?

Caruso - Isso não aconteceu por acaso. Eu escrevo há mais de 30 anos, por vocação mesmo. Comecei em 1975 com uma peça infantil e em 1979 eu escrevi “Trair e Coçar, é só Começar”. Nos anos 80 e 90, com a minha parceria com a Jandira Martini, cresceu muito a minha produção autoral. Também escrevi duas novelas para a televisão e roteiro de cinema. Tenho uma produção muito grande como autor e diretor. Também já traduzi textos italianos, argentinos… Agora, o que veio, não por vocação, mas por contingência da profissão, foi a carreira de produtor. Eu nunca pensei em produzir na minha vida, mas tive que fazer, porque se você não se produz, fica à mercê de ser convidado para trabalhos. Em início de carreira, normal-mente você é uma pessoa desconhecida ou de pouco relacionamento e não é toda hora que pinta um convite. Produzindo, você também pode escolher o texto que quer fazer. Antigamente você escolhia o que queria fazer, produzia com o seu dinheiro e ia em busca de apoios para a mídia e para a montagem. Hoje é mais complicado. Você precisa primeiro ter o patrocínio totalmente fechado e não é todo mundo que tem acesso a ele. É para poucos e, por mais que você escolha o que quer fazer, muitas vezes aquilo não é o que o patrocinador gostaria de patrocinar.  Então, hoje você depende mais do diretor de marketing de uma empresa na escolha de um texto, do que no seu livre arbítrio. Não somos mais produtores, somos captadores de recursos. O nome “produtor” é equivocado, porque produtor é quem produz e não quem administra o dinheiro do povo. Eu me considero um ator, em primeiro lugar, um autor em segundo e, em terceiro, um diretor. Produtor eu acabei sendo por contingência da minha profissão, por ineficiência de uma política cultural mais correta no meu país. Mas acho que tudo isso auxilia na hora que você monta um espetáculo, porque quando eu entro em cena eu tenho uma visão muito mais ampla e coletiva do trabalho, e não uma visão individual.

 

Guia - Trair e Coçar é uma recordista de tempo em cartaz. Quais são os elementos que a peça tem para alcançar essa marca?

Caruso - O público brasileiro tem uma tradição muito maior em comédia do que em drama. Na trajetória da dramaturgia nacional, somos mais comediógrafos do que dramaturgos. O pais é mais ligado ao humor do que aos problemas. Apesar de que a nossa política é trágica e, socialmente, nós somos um povo que passamos por dramas. “Trair e Coçar”, por ser uma comédia, num país jovem, alegre, ensolarado e colorido, cheio de jeitinhos, agregando tantas raças ao mesmo tempo, faz mais sucesso. Outro fator é o personagem principal: uma empregada. Esse personagem da é universalmente cantado por autores como Molière, Goldoni. O empregado é reconhecível pela sociedade como um elemento simpático. É risível, honesto, ingênuo. Aí você soma a tudo isso uma carpintaria muito bem elaborada que não fui eu que inventei. Essa carpintaria vem de mestres do teatro. O George Feido foi um mestre meu. Ele faz esse teatro de vaudeville que são os encontros e os desencontros, abre porta, fecha porta, as trocas de identidade. Tudo isso tem no “Trair e Coçar”. Essa é uma estrutura clássica que funciona há séculos. Além disso, a peça é muito bem armada. Ela é feita, matematicamente, para você rir de trinta em trinta segundos. Não é que ela seja feita de piadinhas. Ela é feita de situações muito bem armadas e não tem como não rir. Eu acho que, juntando esse três fatores, e mais o fato de o espetáculo sempre ter um elenco de primeiro time de comediantes, entendemos o sucesso da peça. Tem também o fato de o produtor nunca ter tirado a peça de cartaz. Depois de dois, três anos, o teatro começa a esvaziar, e o produtor fala “bom, acabou”. Mas, não. Os teatros esvaziavam, ele pulava para outra cidade, para outro teatro. Depois voltava para São Paulo. Investiu na publicidade do espetáculo. Acho que por tudo isso, a peça não deve nem mais sair de cartaz. Eu morro e a peça continua. (risos).

 

Guia - Você dirigiu a peça “Ainda”que fala do problema das drogas. Como foi trabalhar em um espetáculo com esse tema?  

Caruso - A peça “Ainda” apareceu na minha mão de uma forma muito simples mesmo. O José Scavazini, que é um dos autores do texto e produtor do espetáculo, é meu amigo. Ele fez assistência de direção para mim em várias peças. Trabalhou comigo como ator na Porca Miséria. Fizemos vários trabalhos juntos. Ele pediu que eu lesse a peça para ver se eu achava que ele deveria montá-la. Eu li a peça e disse para ele: “você não só deve montar, como eu não admito que você monte com outro diretor. Eu quero dirigir!”. Porque eu vi que era importante colocar aquele texto em cena, naquele momento.  Pela temática, pela necessidade que nós temos de fazer com o que o nosso semelhante abra os olhos para esses problemas que estão afligindo a todos nós, que são a violência, as drogas, a juventude perdida em relação a objetivos, conquistas. Esse era um trabalho cidadão que eu gostaria de fazer. Inclusive, a minha condição foi eu dirigir sem ganhar nada. Eu acho que o “Ainda” é um espetáculo necessário. As pessoas têm que assistir. Tem espetáculos que fazem rir, outros, emocionar. Tem aqueles que fazem refletir. Mas poucos são aqueles que fazem rir, emocionar e refletir. O “Ainda” é um deles.

 

Guia - Então você acha que o teatro tem mesmo uma função social?

Caruso - O teatro tem mais responsabilidade do que função social. Desde a comédia até a tragédia você sempre tem a reflexão. Porque o teatro não tem o poder de modificar o ser humano, mas tem o poder de alertar, de fazer com que o ser humano reflita sobre uma possível modificação. Se consegue modificar, ponto para o teatro e para esse ser humano que teve o discernimento de perceber que poderia ser modificado, mas acho que nossa função é essa. Nós artistas temos uma função social muito importante e não podemos perdê-la de vista. Nem deixar que os aplausos e a fama nos transformem em pessoas vaidosas e menos responsáveis. Temos nas mãos esse instrumento que mexe com os sentimentos do público e devemos usá-lo com muita precisão. Por isso, acho importante falar daqueles que tiveram a sensibilidade de apoiar projeto. O Grupo Votorantin, a Scania, a Prysmian, a Prefeitura de São Paulo. O “Ainda” pode ser feito até na sala da casa de uma pessoa. Eu gostaria que os órgãos públicos o vissem como um espetáculo que deve ser mostrado em todos os cantos deste país, pois, infelizmente, algumas coisas muito boas acabam se perdendo e ficando esquecidas. E tem tanta gente que poderia se modificar por meio de uma sessão de teatro.

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