Logo Marca Guia de Teatro
BUSCAR ESPETÁCULO POR    BUSCA AVANÇADA      



  Painel de Controle
Diogo Vilela
Respirando Shakespeare
 

Ele começou a trabalhar como ator aos 12 anos. Cresceu assistindo grandes atores e aos 18 já tinha a oportunidade de trabalhar com diretores consagrados como Ziembinski. Convivendo com grandes artistas ele aprendeu que para ser ator, tinha que entender a profissão. Mas ainda mais do que entendê-la, tinha que amá-la. Agora ele está no Teatro Raul Cortez com a peça Otelo, como diretor e ator. Em entrevista ao Guia de Teatro, Diogo Vilela fala da experiência de montar um espetáculo de William Shakespeare.

 

Como surgiu a idéia de montar Otelo?

Eu fui chamado por uma faculdade em Curitiba para ler Otelo, indicado pela crítica Barbara Heliodora. Na época eu estava fazendo Cauby. Quando eu li a peça, aquilo me interessou de uma forma muito especial e eu comecei a me envolver. Fui atrás de espetáculos, comecei a ler sobre montagens e, quando fui ver, já estava pego. Eu acho que Otelo é muito contemporâneo e tem algo muito latino. Fala de amor... Fala sobre você ter planos e alguém entrar na sua vida para acabar com esses planos. E fala do mal. A gente vive uma época muito violenta, o mal está sempre presente, mas a gente vai levando. Existe hoje uma banalização do mal. A peça mostra o mal não só como um arquétipo. Ela mostra o mal como algo que a gente pode respirar e, às vezes, nem sentir. Eu acho que Shakespeare tem uma questão humanitária, um conforto, que serve pra gente como um espelho. Não como um exemplo, mas como um espelho. Nos tempos de hoje, estamos precisando que algo dê certo e acho que o teatro, como é uma arte viva, pode criar esse alívio, de alguma maneira. Então, quando eu escolhi Shakespeare, uma tragédia, é porque o mundo não está fácil e nem sempre rir é o melhor negócio.  Fazer Otelo é uma forma de eu melhorar, como pessoa e como ator. E a gente só melhora fazendo. Eu queria fazer essa peça pra sempre.

 

Quais os maiores desafios de fazer Otelo?

Num clássico existe uma situação perpétua, uma universalidade naquilo que o texto propõe. Otelo é um texto do início do século XVII e os desafios são inúmeros. Primeiro a gente precisa ter uma boa tradução. Isso é primordial, porque a tradução tem uma ligação muito grande com a origem da obra. Nós temos que respeitar sempre a poética do autor. Otelo é um melodrama burguês que fala de uma situação que se passa em Veneza e Chipre daquela época. Deve existir uma relação com o tempo em que a peça foi escrita, e isso tem que ser descoberto no trabalho. Essa relação do tempo com a embocadura da tradução talvez seja um dos maiores desafios. Eu acho importante que o público, quando assiste a peça, sinta a origem do autor ali, presente. Então eu chamei o João Gabriel Carneiro e o Leonardo Marona que são muito bons em Inglês, e eles trabalharam em cima da primeira tradução do texto.

 

Por que você escolheu interpretar Iago e não Otelo?

Quando você faz um personagem, você tem que dar uma dimensão pra ele.

Eu percebi que o meu temperamento é totalmente Oteliano. Aí eu achei que o Iago seria um exercício muito melhor, por ser um personagem cuja natureza não tem muito a ver com a minha natureza artística. É um personagem mais cerebral e eu precisaria usar um outro tom, um outro tipo de atitude em cena, que não a que eu já conheço e já uso. Quando o Paulo Autran estava doente, eu recebi um recado dele. Nós tínhamos uma amizade muito grande. Ele soube que eu ia fazer a peça e falou pra eu fazer Iago. Depois que ele falou isso eu pensei. “Agora eu tenho que fazer Iago de qualquer jeito. É ele quem manda em mim” (risos). Isso pra mim foi importante. Eu já achava que fazer Iago seria um exercício muito mais rico pra mim e pro espetáculo. Acho que o Paulo me conhecia como ator o suficiente. Ele faleceu dois dias depois.

 

Existe um momento certo para o ator fazer Shakespeare?

Sim. Eu sempre procurei fazer personagens densos que tinham a ver com o temperamento que eu tinha. Tudo o que eu fiz no teatro foi em função da minha questão existencial, de como seu estava me sentindo naquele momento. Tudo que eu fiz sempre foi para o público e para que eu amadurecesse como artista. E esse amadurecimento é essencial para fazer Shakespeare. O mito de Shakespeare chega a amedrontar. A gente reza, tem a foto dele no ensaio, pede ajuda (risos) pede que as pessoas do teatro compreendam a nossa boa intenção de montá-lo, porque nós não estamos querendo competir com ele mas sim mostrar quem ele é. Por isso eu acho que você tem que se aprofundar sempre como artista. Shakespeare é muito complexo, muito profundo. É importante que o ator compreenda isso. Por isso eu acho que existe sim um momento certo para fazer Shakespeare.

 

Como você relaciona o seu trabalho no Teatro com o trabalho na TV?

Eu sempre tive o ideal de fazer bem o teatro, de estar bem em cena, com uma boa peça. A televisão veio depois, como uma conseqüência, porque ela tem a função de divulgar o trabalho do ator. É claro que a TV Pirata foi uma consagração pra todos da minha geração. Mas foi uma consagração sólida. Nós obtivemos uma resposta sólida do público. Nessa época, eu vi que estava bem apresentado ao Brasil. Isso me deu força para fazer minhas produções no teatro. Eu não subestimo em nada a televisão. Só acho que é uma linguagem diferente. O teatro não pode ter um enfoque industrial porque ele é um pequeno artesanato com dimensões humanas maiores que a indústria.

 

OTELO

Teatro Raul Cortez.

R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista. Tel:3188-4141.

Sex, 21h e dom, 18h, R$60.

Sáb, 21h, R$70.

Até 31/08.

14 anos.

www.guiadeteatro.com.br - Todos os direitos reservados - 2008 - by: goClick