Jovem, bonita e talentosa, Débora Falabella acha que o teatro, mais do que uma profissão, é uma forma de se posicionar em relação ao mundo e às pessoas. Em entrevista para o Guia de Teatro, ela fala de sua trajetória como atriz e do seu atual trabalho, "A Serpente".
Guia - Quando e por que você começou a fazer teatro? Você já achava que um dia seria uma atriz profissional?
Débora - Eu comecei a fazer teatro amador com 12 anos, na escola e, com 15 anos, já estava fazendo meu primeiro infantil profissional. Eu era uma adolescente muito tímida, quando conheci o teatro na escola e acabei vendo nele uma forma de me expressar. E, querendo ou não, eu tinha muitas influências em casa. Acho que isso também me levou a fazer o curso. Mas com 12 anos a gente não sabe muito das coisas. Então eu comecei fazendo teatro como uma forma de me divertir. Não tinha ainda nenhuma vontade de seguir profissionalmente com a carreira de atriz. Eu também queria descobrir se existia alguma coisa em mim desse talento familiar. Mas eu acho que o grande motivo foi mesmo encontrar uma forma de me expressar e de me divertir, muito mais do que procurar uma profissão.
Guia - Existe uma ligação forte entre as peças “O Continente Negro”, “Noites Brancas” e “A Serpente”, montadas pelo seu grupo. As três têm, em comum, a questão do desejo. Você sente que o desejo é o grande impulso do ator? Que desejo te move no teatro?
Débora - Existe mesmo essa relação e eu acho que, em primeiro lugar, o que me move é o desejo de dizer alguma coisa para as pessoas. Minha família tem atores e, querendo ou não, isso me influenciou. Minha prima tem um grupo de teatro. Meu pai também é escritor. O que eu aprendi de mais positivo mesmo, foi que a gente tem que fazer arte para dizer alguma coisa a alguém e acho que dentro do teatro, principalmente quando eu posso produzir o que eu quero fazer, eu encontrei uma forma de me posicionar em relação ao mundo e às pessoas. Uma forma de mostrar um trabalho no qual eu acredito. Então, acho que é esse desejo de continuar… Claro que eu faço cinema, televisão, alguns trabalhos que saem do meu controle. E é muito bom quando você gosta de um personagem e faz um bom trabalho em cima disso. Mas você nunca sabe exatamente para onde ele vai. Quando eu faço teatro e escolho o que vou fazer, acho que é porque, de alguma forma, eu quero dizer algo sobre aquilo para alguém. Aí, meu grande desejo é o de continuar podendo fazer isso. Por isso eu escolhi ter um grupo, para ter autonomia com relação às coisas que eu quero dizer.
Guia - Você atuou no filme “Dois Perdidos Numa Noite Suja” e agora está fazendo “A Serpente”. Plínio Marcos e Nelson Rodrigues. Dois dramaturgos que retratam tragédias urbanas e mostram a degradação de alguns valores morais da sociedade. Onde você busca essa tragédia e essa degradação para compor seus personagens?
Débora - Quando nós começamos a trabalhar o texto, desde os primeiros ensaios, fomos privilegiados com uma direção que nos guiou em relação a isso, a essas tragédias. Muito do que está no palco foi fruto de um trabalho de improviso, indo fundo em algumas questões que tocavam a peça. Eu acho que quando o ator trabalha dessa forma e tem tempo de ensaiar, de ir além do que o texto está dizendo, ele coloca isso em cena com uma facilidade muito maior. Mas é claro que nós temos que saber separar as coisas. Agora, por exemplo, eu estou fazendo “A Serpente” com a minha irmã (a primeira montagem não era com ela). Eu acho que isso torna as coisas mais complicadas e difíceis de se representar num drama, mesmo que seja uma tragédia familiar onde existem duas irmãs que se dão muito bem. É claro que a peça não se confunde com as nossas histórias porque nunca passamos por isso, mas nós somos irmãs na vida real e isso faz com que a relação no palco se torne ainda mais profunda. Eu sinto que representar com ela torna a atuação mais incômoda. Então, eu tento transformar esse incômodo em algo positivo no palco.
Guia - Então você acha isso difícil?
Débora - É difícil. Eu achava que seria mais fácil. Querendo ou não, com a Mônica, a outra atriz, era diferente. Eu a conheci em “Noites Brancas”. Ela fez o trabalho de corpo. Mas ali ela era uma atriz que se tornou amiga. Acho que a gente acaba tendo uma liberdade diferente do que com uma irmã. Você tem que dizer todas aquelas coisas… E quando é pra uma irmã, você tem uma aflição mesmo. Acaba tendo certo medo de ofender. Eu realmente sinto uma aflição maior de fazer as cenas com a Cyntia, mas acho que isso acaba sendo bom para a peça.
Guia - O seu grupo estreou com “A Serpente” em 2005 e agora está a encenando novamente. O que muda e o que não muda em um espetáculo depois de três anos?
Débora - Quando você tem substituições, é inevitável que a peça se renove, porque chega uma pessoa com idéias diferentes e, mesmo querendo seguir uma linha fixa, o espetáculo acaba sendo revisto por todo mundo. Isso é bacana pois nos força a não fazermos sempre a mesma coisa. Quando nós fizemos “A Serpente” pela primeira vez, eu estava entrando no grupo e, de uma certa forma, aquilo era um início, um teste. Agora, também como produtora, eu me sinto muito mais madura. Tenho mais controle da situação. Eu acho que o grande passo que nós demos foi voltar com “A Serpente” em uma temporada popular. É claro que nós precisamos ter um trabalho que mantenha a estrutura que sustenta o grupo, mas queremos fazer também um teatro que todos possam assistir. Acho que esse é mais um passo que nós demos. Talvez seja algo que acompanhe todos os nossos trabalhos.
Guia - Quais são seus próximos projetos?
Débora - Eu tenho, com o “Grupo 3”, um projeto de uma Mostra Contemporânea de Arte Mineira. Como nós três somos mineiros e formamos um grupo ainda muito jovem, estamos em busca de uma linguagem, daquilo que nós queremos falar. Há pouco, eu comentei sobre três trabalhos nossos que focavam um mesmo sentimento: o desejo. Acho que o grupo tem características parecidas nos trabalhos, mas sinto que ainda estamos atrás de uma linguagem própria e talvez busquemos isso nas nossas raízes, só que de uma forma contemporânea, olhando para o que está acontecendo atualmente em Minas. Então, nós resolvemos fazer um festival de arte, com música, teatro, cinema, literatura e artes plásticas. Mas este ano vamos realizar somente a primeira parte dele, com teatro e música. Será no Sesc Pompéia, em novembro. Já temos os curadores que vão selecionar os participantes e as obras. Também vamos atrás do que está acontecendo de novo em Belo Horizonte e outras cidades de Minas Gerais. E vamos trazer pra cá.
A Serpente
Teatro Tuca - R. Monte Alegre, 1024
Sex e sáb, 21h. Dom, 19h. R$20 Tel: 3188-4156