Um amante incondicional do Teatro. Assim podemos definir Pascoal da Conceição. Um ator que vive intensamente a incrível arte da representação e faz dela um caminho de buscas e encontros para seu dia-a-dia. Em entrevista para o Guia de Teatro, Pascoal fala de sua carreira, do sucessso de Salmo 91 e, lógico, do seu amor pela profissão.
Guia - Quando você descobriu que queria ser ator?
Pascoal - Desde muito pequeno eu me lembro de brincar em casa com meus irmãos em peças onde fazia personagens, cenários, figurinos... Na escola não perdia a oportunidade de participar das atividades artísticas... Então, vendo hoje, eu acredito que essa vontade de trabalhar com a arte, com a discussão da vida, mesmo sem saber que era exatamente isso que eu queria ter como profissão, despertou em mim desde muito criança. Na época não dava nem pra cogitar ter o teatro como profissão; sou filho de uma família muito simples, então, era trabalhar para ajudar em casa e estudar para melhorar a vida da gente. Tudo claro, sempre com muita dificuldade. Quando estava no Banco do Brasil tive o encontro com o Teatro Oficina, daí foi decisivo. Não deu pra conciliar, não dava para fazer outra coisa. Já não tinha dúvidas sobre o que queria fazer e fui trabalhar no teatro. Tentei conciliar as duas coisas, cheguei até a propor ao Banco que me patrocinasse como ator do teatro e me mantivesse como empregado, mas não foi possível e optei pelo teatro com todas as delícias e dores, muitas dores, que fazem parte de qualquer opção.
Guia - Você foi dirigido várias vezes pelo Zé Celso. Como é trabalhar com ele?
Pascoal - O método de trabalho do Zé Celso não sei definir, mas sei que você vai ler muito, pesquisar, vai ampliar sua resistência para o trabalho, vai alargar os horizontes dos seus sonhos, sempre é mais, muito mais e não vai ser fácil. O Zé Celso não pára e pra acompanhar a energia dele você tem que correr; ele está sempre presente, discutindo, sugerindo, modificando. Ligado, é claro, em tudo que acontece no Brasil, no mundo, dentro de você, nas relações entre as pessoas, etc. Ele é um ampliador de imagiários, aquele universo de coisas que você imagina que pode fazer. Assistindo e atuando nas histórias do Teatro Oficina meu imagiário se tornou muito mais ambicioso, e acho esse um aprendizado fundamental na minha vida de artista, que me faz desejar ser ator de um teatro que quer contribuir para alegria de todos na política, na economia, arquitetura, urbanismo, religião, educação, e tanta coisa mais.
Guia - Você já dirigiu. Qual é a diferença, nos momentos de conceber um personagem, do ponto de vista do ator para o ponto de vista do diretor?
Pascoal - O espetáculo é uma grande máquina de desejos, uma máquina parecida com a vida da gente, onde o diretor conhece todas as peças. O ator é uma peça dessa máquina, um dente de uma engrenagem por onde passa toda a energia, todo desejo de criação que essa máquina contém; isso não significa, porém, que o seu trabalho possa perder de vista nenhum dos inúmeros aspectos da máquina toda, sob o risco de ver seu desejo legítimo de se expressar como parte da máquina, ser manipulado, ou desviado de seus objetivos. Se o ator for inteligente, ele vai dirigir também, olhar o espetáculo como um diretor, e aí, ao executar o seu papel; essa consciência vai contribuir, e muito, para aperfeiçoar a sua atuação.
Guia - Você interpretou dois personagens muito marcantes: Dr. Abobrinha (TV e Cinema) e Mário de Andrade (TV e Teatro). Um é personagem de ficção. O outro é uma pessoa que existiu e é conhecida do grande público. Como é trabalhar nesses dois extremos?
Pascoal - O personagem é uma entidade para a qual você faz coisas. Deve fazê-las com integridade e sinceridade. Não é o personagem em mim, sou eu no personagem. Sou “cavalo” dessa energia que tem em mim o fio de passagem. Eu trabalho na criação dos personagens tentando me excitar com o máximo de verdade possível; se é um personagem de ficção, procuro ações, imagens na vida real que sejam o duplo, semelhantes, à vida do meu personagem, da mesma forma que faço com personagens que existem. O Dr. Abobrinha, vilão do castelo, tem um desejo e essa é sua mola propulsora. É esse desejo que alimenta e justifica suas ações, da mesma maneira que o Mário de Andrade. Por exemplo: o Dr. Abobrinha, como especulador imobiliário, quer derrubar o castelo e, no lugar, construir um prédio de cem andares, ganhar dinheiro com isso. Dá pra buscar inspiração na realidade, ou não?
Guia - Seu atual trabalho, Salmo 91, é um sucesso de crítica e de público. Qual o processo para encontrar a verdade dos personagens que você interpreta, sendo eles dois detentos? Onde você buscou as caracterizações, sentimentos, posturas?
Pascoal - Olha, uma das coisas que o teatro tem de bom é que você pode fazer muitas vezes. Agora, é uma burrice fazer muitas vezes sem renovar a sua motivação. Tem que se excitar e não é fácil. Então tem que botar a imaginação para funcionar e dirigir sua vontade para o imenso trabalho que uma peça te coloca pela frente. Ao criar as caracterizações, sentimentos, posturas, cuido o mais que eu posso para realizar minhas ações sem egoísmos, frivolidades, besteiras, desvios. Algumas coisas excitam mais ou menos o ator. Você deve se ligar naquilo que dá prazer em você para aprofundar seu estudo pela peça e por seus personagens e ir aperfeiçoando isso. Na peça Salmo 91, lembro que no dia da estréia, durante a tarde, fui visitar o local onde por décadas funcionou o presídio, lá na Av. Cruzeiro do Sul, onde é hoje o Parque da Juventude. Foram derrubados os pavilhões, foi feita uma cirurgia plástica urbana para eliminar da paisagem qualquer vestígio dessa ferida da sociedade civilizada. Fiquei lá meditando, atravessei o Rio Carandiru, que passa entre o presídio feminino e o Carandiru, vi umas flores selvagens que cresceram no chão onde rolou o sangue do massacre e levei para o camarim. Ficaram ali, na primeira semana. Pensei muito nisso durante todo o espetáculo. Mas não foi só isso: durante todo esse processo em que ensaio e apresento a peça fiz pesquisa em arquivos, museus, jornais, li um sem número de reportagens sobre o massacre (Folha, Notícias Populares, Folha da Tarde, Jornal da Tarde, Veja, Estadão), li livros (Vigiar e Punir, Memórias do Cárcere, Recordações da Casa dos mortos, etc...) Vi filmes de prisão, fotos, conversei com muita gente, fui até em um terreiro espírita, e continuo fazendo tudo isso, inclusive, escrevendo no blog da peça. É um trabalho duro, mas como falei, acredito que o resultado disto contribui para melhorar a interpretação e o espetáculo.
Guia - Numa das apresentações de Salmo 91 houve uma manifestação de uma pessoa da platéia que criticou a forma como o tema foi abordado. Você acha que esse tipo de manifestação é saudável, ou seja, o Teatro deve mesmo funcionar como um meio para "sacudir" a sociedade?
Pascoal - Está tudo contado lá no blog da peça www.salmocarandiru.blogspot.com
Tocar o espectador, polemizar, discutir, enriquece e é muito saudável sim para a sociedade e para o teatro. Aliás, o espetáculo de teatro já começa com uma provocação para o ator: a palavra que todo ator fala antes de começar a peça não é “boa sorte!”, ou coisa assim, é “merda!”; e o teatro é a operação alquímica que transforma essa “merda!” em ouro.
Mas veja, a pessoa na platéia só pôde falar porque era teatro. Se você vai assistir a um filme, não dá pra conversar com a projeção, com a TV então... Cinema, TV, jornal, nenhuma dessas mídias permite o diálogo ao vivo. É claro que você pode replicar um filme, um programa de tv, um jornal, mas não ao vivo. O teatro sim; está lá o ator e na boca do ator, uma opinião que o espectador pode sim tocar, falar, replicar, aplaudir. Ao vivo só no Teatro.
Guia - Algumas críticas destacaram a força da "palavra" em Salmo 91. Como é lidar com esse texto, já que a cenografia é pequena e ele é apresentado quase como um monólogo?
Pascoal - É um conceito criado pelo Gabriel Villela, no qual ele insistiu muito durante todo o processo de ensaios e continua insistindo.. Mesmo no caso específico da nossa peça onde a gente lida com uma fusão (de melodrama, trágico, patético, bizarro, barra pesada), é preciso manter a consciência de tudo isso no verbo, na musculatura verbal. Uma musculatura que não se afrouxa, se vitaliza. Se você reparar no dia a dia, a musculatura verbal não é tão exigida como no teatro, e muito dessa musculatura fica lá em repouso, esquecida. Mas pra falar uma fala, que tem que ser precisa, que tem que ser refletida, levada adiante, uma fala de teatro, uma boca assim tem que ter seus músculos acionados e exigidos com saúde. Coisa que o cotidiano ditado pelo estatuto burguês, não pede pra ninguém. Se você entra e fala com essa musculatura em qualquer ambiente, você derruba esse lugar. Aliás, Salmo 91 não é um monólogo. São muitas vozes, muitos timbres juntos. Nos dias de bons espetáculos, como o Gabriel chamou a atenção, a coxia estava dentro de cena e a cena estava dentro da coxia. As cenas apresentam-se separadas, mas são uma coisa só.
Guia - É verdade que vocês jogavam uma partidinha de futebol no fundo do palco, como aquecimento?
Pascoal - Quando eu cheguei para o primeiro ensaio não conhecia ninguém, ficava aquela coisa meio formal, tímida até. Então o Gabriel trouxe uma bola e propôs um campeonato. Todo dia, antes de tudo, eram dois times se ralando, se xingando, suando, porque o futebol logo fica sério. Gabriel sacou essa coisa de futebol que todo mundo endente, todo mundo opina e quem não joga, perde. Lembra a vida. Foi inclusive num dia de final de campeonato de futebol que começou o que deu no massacre do Carandiru, uma briga de futebol foi o estopim que acendeu a rebelião. Foi isso, o jogo nos mistura, nos edita; tira a gente do corpo do dia-a-dia e coloca pronto pro corpo-a-corpo do teatro. O jogo de futebol passou a ser o nosso aquecimento para o espetáculo.
Guia - Quais são seus próximos projetos?
Pascoal - Estou trabalhando para publicação de um livro com as reportagens que fiz para o jornal Estado de São Paulo sobre o que vi das apresentações de OS SERTÕES, de Euclides da Cunha, pelo Teatro Oficina, em Canudos, no interior da Bahia. Tem uma peça que eu quero fazer, uma comédia política, que se chama ESCOLA DO RISO. É uma peça japonesa. Porém, não consegui contato com o autor porque o idioma japonês é uma dificuldade. Estou tentando arrumar um jeito de resolver esse problema. Como essa peça tenho muitos outros trabalhos que quero fazer, coisas sonhadas, coisas possíveis, coisas impossíveis e, claro, estar pronto pra fazer as coisas inesperadas.