Entrevista – Wolf Maya fala sobre a nova comédia “Relaxa que é sexo”

Relaxa que é Sexo é um espetáculo inteligente e despretensioso que fala sobre sexo. O assunto garante, de imediato, a empatia do público. Impactante e divertido, o espetáculo multimídia mistura a linguagem teatral com a do audiovisual e mostra vários esquetes intercalados por números musicais. O Guia de Teatro fez uma entrevista Wolf Maya, que assina o texto e a direção do espetáculo.

 

 Diretores e Autores Wolf Maia

Crédito: Dario Zalis

Guia O espetáculo Relaxa que é Sexo está de volta aos palcos depois de quase 20 anos. O que mudou de lá pra cá em relação aos pudores sexuais? O sexo hoje ainda é um tabu? Você acha que algumas décadas depois da revolução sexual o jovem de hoje voltou a ser mais reprimido em relação a sexo?
Wolf Maya – Discutir sobre sexo é conviver com a plurisexualidade. Tudo que diz respeito ao sexo enquanto comportamento evoluiu muito. O ser humano está aprendendo a conviver com a diversidade, com um comportamento que ele não conhecia. Houve definitivamente uma evolução sobre sexo nesses últimos anos. O que eu pude perceber na temporada do Rio de Janeiro é que alguns assuntos que sempre tocaram, incomodaram ou excitaram as pessoas, continuam os mesmos. E a peça toca nisso com humor. Hoje, o homem ainda é muito reprimido em determinados assuntos e o sexo encabeça isso. Não tenha dúvida que uma parte da sociedade ainda se incomoda com a liberdade sexual. Liberdade essa que não vai voltar ao que foi um dia. Esta palavra, ‘liberdade’, está dentro da cabeça do jovem. Nossa peça fala muito com o jovem, para o jovem e do jovem. Minha convivência tem sido com esses jovens – os que estão ou passaram pelas minhas escolas no Rio e São Paulo e os milhões que convivem pela internet. Acredito que nós – pais, artistas, educadores – temos que dar a eles a possibilidade de discutir isso, de se verem projetados. Essa é a função do teatro contemporâneo. E na comédia, isso fica mais fluente, mais pessoal, e você diz tudo fazendo o expectador rir e pensar.

 

Guia Durante o espetáculo a plateia assume uma espécie de posição de voyeur. Você acha que isso aguça o fetiche das pessoas? Ainda há essa curiosidade velada sobre a vida sexual do outro?
Wolf Maya – Essa peça é um musical visto pelo buraco da fechadura, não pra excitar a platéia como voyeur, mas para ter a sensação de que ela invadiu a intimidade de alguém e essa intimidade é retratada com absoluta sinceridade. Você convive com a verdade do outro, e ela sem dúvida se assemelha à sua própria verdade. Você vai localizar na peça situações que já viveu, ou que já soube que viveram, ou que ainda viverá. A plateia pode rir de situações ao se ver nas cenas, e o expectador ri do que vê pela primeira vez, ou vê a peça falar de um assunto que estava dentro da cabeça dele, embalado por música e humor. Falamos sobre tudo – repressão sexual, religiosidade, imaginação, relações assexuais ou homossexuais, sem julgar ou valorizar comportamentos, geralmente rindo deles, fazendo o público entender e rir. E, é claro, se informando sobre como está a sexualidade.

 

GuiaO espetáculo fala sobre sexo de uma forma irreverente e bem humorada. Você pode nos contar um pouco sobre a estrutura cênica da peça? Como você transformou, em cena, o tema SEXO em algo natural e espontâneo?
Wolf Maya – A estrutura da peça foge de uma linha contínua de dramaturgia, como na maioria das peças, com princípio meio e fim. Ela funciona como nos esquetes, teatro de revista, teatro musical, teatro de comédia ou até nos programas de humor tão brasileiros. São várias histórias e personagens que nem sempre têm continuidade um com outro. O cenário é móvel, como se fossem vários sets. Tem uma história que acontece na lua de mel – então estamos em um quarto. Acontecem cenas em uma sauna. As locações que vamos mostrando são incríveis – vamos dos bares, das ruas, até um set de filmagem que é a gravação de um filme pornô. E a gente nunca saberia como são os bastidores de um filme assim. O espetáculo é totalmente multimídia, com interferências cinematográficas, transmissões ao vivo, câmeras em cena, o real conversando com o virtual e a plateia envolvida em tudo isso, com todas essas formas de comunicação dos dias de hoje. Em algumas cenas, com canções mais despudoradas, provocamos um riso inesperado e às vezes desencontrado em nossa plateia.

 

GuiaO humor é o melhor caminho para falar sobre sexo com naturalidade?
Wolf Maya – O humor é o caminho para falar de ade. Você se associa ao que está em volta de você e se reconhece. O humor da nossa comédia é natural, você vê os dias de hoje e esse humor flui, porque a linguagem é direta. Eu acredito que a melhor forma de atingir quem nos assiste é fazendo a pessoa rir do problema, daquilo que ela esteja projetando de si no palco, e até mesmo de assuntos que ela nunca ouviu na vida. Falado com tanta clareza, rir do problema é um grande remédio.

 

Guia Você utiliza atores do seu curso nessa montagem?
Wolf Maya – Eu não tenho mais como me afastar dos atores em formação, até porque eu tenho uma das maiores escolas de formação de atores no Brasil – no Rio e em São Paulo. Nessa peça talvez eu tenha trocado o ator profissional, já estabelecido, já celebridade, por atores jovens que estão chegando à criação e sucesso através do cinema, TV e principalmente do teatro. Estou muito orgulhoso porque todos que fazem essa peça foram alunos meus, se formaram em minhas escolas, aprenderam aqui a fazer musical e hoje são profissionais gabaritados. Estou muito feliz em dedicar esse pedaço da minha vida em cuidar da origem do ator, da formação final. Os atores dessa peça já são excelentes profissionais. Nós sairemos pelo Brasil apresentando essa peça. Recebemos inclusive um convite para fazer apresentações em Lisboa, Portugal.

Serviço:

Relaxa que é sexo


Temporada até 1 de abril
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 19h
Local: Teatro Nair Bello R. Frei Caneca, 569, 3º piso – Shopping Frei Caneca – Consolação

 

1.3.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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