Entrevista – Ulysses Cruz fala sobre o espetáculo “O Leão no Inverno”

Século Xll. Na meia-idade, mas ainda forte e poderoso, Henrique ll (Leopoldo Pacheco) mantém sua esposa, a lendária rainha Eleanor de Aquitânia (Regina Duarte), confinada em uma torre, por alta traição. Nas festas de fim de ano, ele a solta e a convida para se juntar à família. Eleanor aproveita a oportunidade e começa a conspirar, pois quer influir na sucessão de Henrique. Em entrevista ao Guia de Teatro, o diretor Ulisses Cruz falou da peça O Leão no Inverno, de James Goldman, que está em cartaz no Teatro Porto Seguro.

 

Guia – O que te fez escolher este texto tão político e humano? O que aquela família real tem pra nos dizer hoje?

Crédito: Marcos Moraes

Ulysses – A primeira coisa que me interessou nesta peça, quando eu a li, foram os diálogos, que são inacreditáveis, muito divertidos, e que dão muitas possibilidades para os atores. A Regina Duarte tem duas sacadas nessa peça que ela faz muito bem e que eu dou gargalhadas toda vez que ela faz, mesmo sabendo que ela vai fazer. Porque o texto também tem uma galeria de personagens fantásticos. Aquele filho que foi criado dentro do condomínio e que o papai faz tudo, e ele é pior que o demônio. Tem o outro que é carente, desesperado pelo amor do papai e da mamãe e eles nem sabem que ele existe. E tem o filho mais velho, que já venceu na vida e vem dizer “dá tudo pra mim que eu dou um jeitinho naqueles outros dois”. Esses personagens e essas relações me interessaram muito. Já que tinha que fazer uma cirurgia nesse texto, porque ele é um texto de quase três horas, de dois atos, eu resolvi tirar o que dava em relação às questões dinásticas, aos aspectos históricos. Porque no Brasil de hoje, com essa confusão política, não dava pra ficar falando da história inglesa no ano de 1183. Mas falar daquela família esquizofrênica lutando por poder, como é esquizofrênico o que estamos vivendo hoje em dia, era muito bom, tinha muito a ver.

 

Guia – Como você escolheu o elenco da peça?
Ulysses – Eu tenho uma produtora de elenco, a Vanessa Veiga, com quem eu trabalho há muito tempo. Desde que eu entrei na TV Globo eu trabalho com ela. Ela é tudo pra mim. Ela me apresentou, por exemplo, esse espetacular ator, o Filipe Bragança. Ele só tem 17 anos! Um verdadeiro achado. Ela achou o Caio Paduan. Ela deu a ideia de trazer o Leopoldo Pacheco, a Camila dos Anjos. Agora, também tem os que vieram em audição, como o Sidney Santiago, o Rafael de Bona, o Michel Waisman. São atores que a Vanessa vai conhecer neste trabalho. A gente faz esse tipo de coisa, eu descubro uns e ela descobre outros.

 

Guia – Durante toda a peça, um percussionista faz, ao vivo, uma espécie de fundo-musical e ajuda a contar a história dessa família. Como surgiu essa ideia?
Ulysses – Eu não entendia direito porque, mas eu queria colocar uma bateria ajudando a contar essa história. Um dia eu estava zapeando na minha casa e dei de cara com aquele filme Birdman, que tem uma bateria ao fundo. O cara sai do teatro e tem um baterista tocando na rua. Aquilo foi tão bom. Entrou um ar tão grande naquele filme, quando aquilo aconteceu. E depois alguém aqui acabou comentando também sobre o Birdman, que tinha muito a ver com o que a gente estava pensando em fazer e a gente então resolveu colocar a bateria na peça. Quem sabe a gente conseguiu fazer alguma coisa como o Birdman? (risos).

 

Guia – Você encontrou soluções muito criativas para o cenário e os figurinos. Como você chegou a elas?
Ulysses – A ideia era achar um jeito de fazer um espetáculo digno, mesmo que sem muito dinheiro, porque, afinal, ele se passa em um castelo. Então eu inventei que os atores estão ensaiando a peça. Quando o público entra, tem uma mesa de ensaio e a Camila começa a ler o texto. Aí o Leopoldo aparece ao lado dela e, quando vai ver, eles já estão dentro do diálogo. Só que ele ainda está de bermuda, porque está chegando ao ensaio. Logo entra um ator com um paletó que trouxe de casa. Normalmente, numa preparação de peça, nos primeiros ensaios, os atores começam a se vestir com coisa que trazem de casa, para sentirem um pouco o personagem enquanto o figurino final não vem. Só que nesta peça o figurino final jamais vem, porque a peça inteira é feita com essa brincadeira do ator. O pior é que é quase tudo roupa minha (risos). Quando eu vi esta peça montada em Londres, com o castelo montado, com as roupas de época, eu não gostei. Gostei da peça, dos atores, mas a visualidade, a amarração com aquela coisa de época, eu não gostei. Teatro é o mundo da imaginação. Eu tenho que induzir a plateia a ver, e não fazer. Se não eu acabo com o gosto da plateia. A plateia faz o que? É como a gente ler um livro, onde a gente imagina roupas e lugares incríveis, muito mais bonitos do que se tivéssemos visto de verdade. Nós temos que ampliar o imaginário da plateia.

 

Guia – A iluminação é incrível e também mexe com esse imaginário.
Ulysses – O Caetano Vilela é um diretor de Ópera espetacular que eu conheço há muitos anos e que está fazendo um trabalho de luz surpreendente, que traz pra cena um rigor, uma sobriedade e, ao mesmo tempo, uma grandiosidade operística. É uma luz que valoriza o espaço, que cria uma grandiosidade. E essa peça precisa desses grandes espaços porque ela se passa dentro de um castelo.

 

Serviço:

O Leão no Inverno

Temporada até 29 de julho de 2018 no Teatro Porto Seguro.
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 19h
Local: Teatro Porto Seguro Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elísios

29.5.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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