Entrevista – Mariana Xavier fala sobre o espetáculo “O último capítulo”

O espetáculo O último capítulo conta a história de Berenice (Mariana Xavier) – uma romântica e sonhadora diarista apaixonada por novelas – e Dagoberto (Paulo Mathias Jr.) – um desempregado crônico, fanático por futebol. Berê chega do trabalho ansiosa para curtir o último capítulo de sua novela preferida, mas um repentino apagão acaba com seus planos de acompanhar o desfecho do folhetim. A história se passa num tempo em que não há celular, nem internet. Resta ao casal, então, conversar. O Guia de Teatro conversou com a atriz Mariana Xavier sobre essa peça divertida que mostra uma realidade tão presente em muitos lares.

Guia – O espetáculo O Último Capítulo faz a plateia rir sem ter que fazer apelações. Como vocês encontraram esse ‘tom’? De que forma vocês apuraram o olhar nesse sentido? 

 

Crédito: Páprica Fotografia

Crédito: Páprica Fotografia

Mariana – Na verdade, isso foi um pré-requisito quando eu decidi voltar a fazer teatro. Apesar das pessoas me conhecerem da televisão e do cinema, o teatro é o meu berço artístico. Foi onde eu comecei. Eu faço teatro desde os nove anos de idade e foi onde eu aprendi tudo e onde eu descobri que realmente essa era a minha vocação. Eu tinha muita vontade de voltar a fazer teatro depois dos trabalhos na TV e no cinema. Eu recebia mensagens de muita gente do Brasil inteiro falando que gostava do meu trabalho, que gostaria de vê-lo de perto. E por conta do “Minha Mãe É Uma Peça”, eu tenho um público infantil muito grande, que eu nem imaginava. Então, quando eu decidi voltar ao teatro, eu fiz questão de fazer uma peça que fosse acessível a todos os públicos, que fosse simples, que todo mundo entendesse e que a gente não precisasse censurar. Não que as crianças não vejam coisas muito piores por aí hoje em dia, mas eu queria resgatar um trabalho sem a necessidade do apelo sexual e que não precisasse do palavrão para fazer rir. Eu realmente acredito muito nisso, que é possível você fazer coisas populares preservando a qualidade. Eu jamais me sentiria confortável me colocando nessa posição de que agora eu sou famosa e posso fazer qualquer coisa porque as pessoas vão me ver, sem me preocupar com a qualidade. Essa não seria eu. Eu procurei muito, até encontrar um texto que, de fato, unisse essas duas coisas, que fosse popular mas que também tocasse as pessoas de alguma maneira. Um texto com o qual as pessoas se identificassem, sem qualquer tipo de restrição.

 

Guia – As tele-novelas transformaram-se meio que em uma continuação do dia das pessoas. Chegar em casa e correr pra televisão é o cotidiano de muita gente. Mostrar isso no teatro, onde o tempo e o ritmo são completamente diferentes da TV deve ser muito especial. Como vocês construíram esse paralelo?
Mariana – A história da peça se passa num momento em que não existia internet, telefone celular, nada disso. Eu acho que a novela, naquela época, meio que se equivaleria hoje a essas mídias onde as pessoas se isolam, cada uma no seu mundo, e deixam de dialogar. Então, ao mesmo tempo em que a gente trata a televisão dessa maneira na peça, a gente a usa também como uma metáfora dessa ilusão causada pela novela. Eu acho que é isso: a novela mexe muito com o imaginário do brasileiro. Tem essa coisa da pessoa olhar pra novela e querer aquela vida, achar que aquilo é a realidade, de querer transpor aquilo para a vida dela. A Berenice é isso. Embora ela seja uma mulher muito batalhadora, muito forte, ela tem esse lado romântico, sonhador, da idealização. É muito divertido brincar com esse imaginário da novela e, ao mesmo tempo, fazer esse paralelo com o excesso de expectativa que as pessoas colocam nos relacionamentos. Essa coisa das pessoas mergulharem nesse universo paralelo e esquecerem do que está acontecendo efetivamente na sua vida. E o que acontece na peça é que ela acaba por representar também, para os dois personagens, um último capítulo. Da mesma forma que a minha personagem fica ali, desejando ver o último capítulo, querendo saber se Holanda vai ficar com César, a plateia também se coloca nesse lugar de expectadora deste último capítulo que é a relação da Berenice e do Dagoberto. As pessoas torcem – ou não – pelo casal. Elas vibram! É muito engraçado. A gente passou por muitas cidades com essa peça, com públicos muito diferentes, de temperaturas diferentes, e é muito interessante ver como cada plateia reage. As pessoas realmente se acotovelam, as pessoas torcem, as pessoas comentam, as pessoas se identificam e isso é muito legal. Então, é a novela dentro da novela, dentro da novela…

 

Guia – Conversar – algo que era uma das coisas mais corriqueiras em um relacionamento – tornou-se uma exceção. Talvez porque revele problemas que estão em baixo do tapete? Como isso acontece com esse casal?
Mariana – Em um determinado momento, a Berenice fala pro marido “A gente finge que perdoa, Dagoberto. Mas o que a gente faz é não resolver coisa nenhuma e liga a televisão.” Ou seja, ainda existe essa coisa das pessoas preferirem fingir que certas coisas não estão acontecendo. E a gente percebe que esse casal fez isso durante muito tempo. E aí nesse dia, sem energia elétrica e sem a televisão, não tem essa fuga. Eles são obrigados a conversar e as coisas vêm à tona.

 

Guia – A peça é uma comédia com uma estrutura de flash-backs. Os tempos se misturam. Como funciona essa estrutura na peça?
Mariana – Eles são um casal claramente em crise. Diante da falta da TV, começam a conversar e a relembrar toda a história do relacionamento. E isso acontece em cenas de flash-back. É quando a gente entende por quais situações aquele casal passou para chegar até aquele momento decisivo de último capítulo da relação. Perdoa, não perdoa; fica junto, não fica junto. Então, a gente vai acompanhando as fases desse casal. A gente vê como eles se conheceram, como começaram a namorar, como foi o casamento. A história tem toda essa brincadeira de passado e presente. No presente eles estão em um apagão, o que também é outra analogia muito louca porque, na verdade, esse é o momento em que eles jogam luz sobre o relacionamento. E a comédia é uma ferramenta incrível de crítica e de reflexão porque, através do riso, você desarma o espectador e faz com que ele pense em coisas que ele não estaria a fim de pensar se você falasse sério. A comédia é uma lente de aumento sobre a realidade e a gente joga essa lente sobre a situação de muitos relacionamentos. As pessoas se identificam muito porque todo mundo já passou por alguma situação parecida com aquela ou já viu alguém próximo passar por aquilo. Quem nunca fez uma vozinha meio que de retardada no início de relacionamento? Quem nunca esqueceu uma data comemorativa que pro outro é importante? Quem nunca deu uma mentidinha pra não desagradar o ser amado? Na peça existem muitas situações que são muito comuns na vida de todo mundo. Eu acho que essa é a chave do sucesso da peça. O público gosta muito porque se identifica.

 

 

Serviço:

Espetáculo O último capítulo

Temporada a partir de 13 de julho até 2 de setembro de 2018
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 18h e 21h | Dom, 18h
Local: Teatro Itália Av. Ipiranga, 344 (Subsolo) – Metrô República
Vendas: Compre Ingressos

29.6.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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