Entrevista – Diego Summer fala sobre o espetáculo infantil “Sertão Encantado”

Sertão Encantado é daquelas peças que fazem a gente lembrar do tempo das quermesses e da ingenuidade gostosa que elas irradiavam. O Guia de Teatro conversou com Diego Summer, autor, ator e diretor do espetáculo.

 

Crédito: Daniela Berzuini

Crédito: Daniela Berzuini

Guia – Como surgiu a Cia Contraste e o espetáculo Sertão Encantado?

Diego – A Companhia surgiu em 2014 no Estúdio de Treinamento Artístico, no Teatro do ETA, que é uma escola de teatro que tem a dinâmica de formar companhias e grupos de teatro. Na época, na escola, a gente montou Plínio Marcos (Abajur Lilás) e Shakespeare. Depois de um tempo no curso eu viajei pro Tocantins, pois sou de lá, de Araguaína, para fazer um trabalho, e quando voltei pra cá já foi com o intuito de montar o “Sertão Encantado”, a peça que seria o carro-chefe da companhia. Eu convidei atores que estudaram comigo no ETA e atores de fora da escola, com quem eu havia convivido, e a gente embarcou nessa história. Em 2016 a gente levantou o espetáculo pelo VAI – Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, da prefeitura de São Paulo.

 

Guia – De onde veio a inspiração para escrever e montar o espetáculo?
Diego – Eu chamo esse espetáculo de Uma Fábula Brasileira no Sertão, porque ele traz para o público o Norte e o Nordeste do Brasil, nessa investigação em cima das quadrilhas juninas, do cancioneiro nordestino. Essa cultura está muito viva dentro de todos nós. Independente de você ser do Sul, do Norte ou do Nordeste, ela traz essa ligação com o Brasil todo: a noite de São João e as músicas nordestinas. Eu falo que ela está no nosso subconsciente. Ela faz muito parte da gente, porque quando a gente vai apresentar nos CEUs, para públicos de todas as idades, quando começa a tocar as músicas do Nordeste, as crianças cantam junto. Eles sabem. Acho que se perguntar o nome do autor da música eles não vão saber, mas eles sabem cantar. E isso é uma alegria muito grande, quando a gente recebe essa energia das crianças ou do público adulto. A gente fica muito feliz e vê que o Nordeste e o Norte estão dentro de cada um de nós – vivos, pulsantes. A nossa cultura é valorizada. Por mais que a gente não a veja permeada em todos os lugares, ela vibra a partir do momento em que você escuta, que você vê as cores, as bandeirinhas, a festa… Ela está ligada com o brasileiro desde a infância, desde as festas, desde as quermesses nas igrejas. O espetáculo faz um resgate das raízes e conecta as pessoas com esses lugares, com esses bordões que os personagens usam, com toda essa energia que tem a forma como eles falam no Nordeste e no Norte. Cada pessoa que vai ao espetáculo se sente nesse lugar de aconchego e acolhida. E o público, no final da peça, muitas vezes vem agradecer por ter tido esse momento aqui em São Paulo, por ter voltado para o aconchego da terra, das palavras, da fala, e principalmente da música, que conecta muito, e traz essa coisa do viajante, do retirante que saiu da sua terra para buscar coisas melhores em outra terra, fazendo daqui a sua terra, sem esquecer o lugar de onde veio. A gente já tem essa ligação pelo simples fato de ser brasileiro. Essa história foi inspirada nos casamentos das quadrilhas juninas. Eu tive muito contato com as juninas do Tocantins, com o Arranca Toco, com o Encanto do Luar, com os Malacabados. Eu estava sempre por ali, assistindo. Como eu era do teatro, eles me chamavam para ver se estava legal e também para participar dessa atmosfera e acabou que algumas vezes eu fui fazer a coreografia da rainha. Por mais que eles não tenham uma formação de bailarinos e de pessoas do teatro, eles fazem com muita verdade e muita maestria, e essa entrega é particular deles, porque eles fazem por amor à escola, que é a quadrilha junina. Eu comparo isso ao Carnaval do Rio ou daqui de São Paulo. Tem toda uma criação de enredo.

 

Guia – Existe uma linguagem meio circense no espetáculo, com as cores e as brincadeiras que remetem a um picadeiro.
Diego – A gente traz a coisa do “clownesco” nessa mistura do sertão, porque dentro dessa proposta sertaneja tem muito o cômico do nordestino, de tirar um sarro do outro, de fazer uma brincadeira. E a gente trouxe isso pro lado do clown. Tem um jogo muito divertido dos personagens em cena. Tem o Zé, que é meio atrapalhado, que é o ajudante do feiticeiro. Ele traz a cor verde, que é o signo da fartura no sertão, do tempo de alegria e de festas. Tem a Maria, que é solteirona e que faz um contraponto com a Rosinha, que é a moça do sertão, tentando ser a conselheira dela. Ela traz o vermelho, símbolo das paixões entre as fogueiras. A Rosinha traz o amarelo, a riqueza e o tempo de alegria nas noites de São João. Tem essa dualidade entre o Zé – ingênuo – e o Pirilampo – que vem da cidade grande – mas o sertão não saiu dele, e ele tenta se encontrar dentro daquele universo de novo. O Pirilampo traz o azul da bandeira de São João, que representa o céu e a imensidão das estrelas. O marron, do personagem Cumará, é a seca, que será vencida pelas cores que vão trazer de volta a alegria e a fartura no sertão. O Zé vai apresentando as festas novamente pra ele. E nessa cumplicidade que existe entre esses dois compadres, a gente traz a coisa do clown. Um dá um tapinha nas costas, o outro rola e cai…

 

Guia – Você escreveu, atua e dirige a peça. Como é ter todo esse envolvimento?
Diego – Isso é muito louco. É um pouco Matrix. Antes de tudo, a peça foi concebida como um sonho e esse sonho foi se tornando real, se materializando através das vivências que eu tive, das noite de São João, da festa, da quermesse, da música nordestina, do grande Luiz Gonzaga, que é um ícone pra gente. Isso para mim é reviver a minha infância: pular fogueira, assar batata doce, milho… As coisas da simpatia da bacia d´água, da faca na bananeira. Isso tudo me traz essa vivência. Ter escrito, estar dirigindo e atuando na peça é algo que veio ao encontro da minha essência. Estou muito envolvido emocionalmente, pessoalmente. Então eu faço tudo com muito amor e muita verdade.

 

Guia – E como você passa essa vivência para os atores?
Diego – Eu tento conectá-los. E dentro do nosso processo criativo, eu trago, em primeiro lugar, essa minha vivência. Depois a gente vai para o texto. Primeiro eles devem se familiarizar com o sertão, com o que eles vão fazer, com a realidade que eles vão interpretar e vivenciar nesses personagens que são um pouco distantes da realidade que a gente vive em São Paulo. Só depois dessa vivência é que nós vamos para o texto em si. Eu gosto de trabalhar com o ator em cena, em xeque. Ele vai pensar como o personagem e agir como o personagem. Eu trago um exercício de adormecimento. O ator relaxa o corpo e eu vou o conectando, o levando nessa linha das músicas, das raízes nordestinas, contando histórias ao pé do ouvido de cada um. Vou dando essa base e, dentro disso, ele vai imaginando onde está: se está passeando por folhas, se ele está vendo uma cachoeira, se a brisa do vento está batendo no seu rosto… Depois eles acordam nesse lugar e descobrem de que forma eles vão escovar os dentes, varrer a casa… Fazem várias ações escutando música de forró e começam a executar todas essas ações experimentando sotaques. Esse é o nosso primeiro processo criativo dentro do Sertão Encantado.

 

Serviço:

Sertão Encantado

CEU Bristol – 6 de dezembro de 2018
Apresentações: Qui 15h, Gratuito
Local: R. Prof. Artur Primavesi, S/N – Parque Bristol
Galeria Olido – 12 de dezembro de 2018
Apresentações: Qua 19h30, Gratuito
Local: Av. São João, 473 – Centro

 

30.11.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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