Entrevista: Romulo Bozsa fala sobre a comédia “Loucos são vocês”

Na peça Loucos São Vocês três internos fogem de um hospício e se misturam, na cidade, com pessoas ditas “normais”. O que eles percebem é que o mundo do lado de fora da instituição não é muito diferente do que eles viviam dentro dela. O elenco é formado por alunos do Macunaíma que resolveram criar um grupo após o término do curso. O Guia de Teatro conversou com Romulo Bozsa, que escreveu e também atua na peça.

 

Comédia Loucos são vocês em cartaz em São Paulo

Foto: Érika Markutis

Guia – Como surgiu a ideia de criar um grupo e montar essa peça?
Romulo – O grupo se iniciou comigo e com o Lucas, que é o diretor dos espetáculos. O Nilson entrou logo em seguida. Então fomos nós três que, basicamente, iniciamos. Nós fizemos o curso de teatro juntos, no Macunaíma, e acabamos nos aproximando porque nos dedicávamos muito. O Lucas morava muito próximo da minha casa e a gente acabou criando o grupo. Ao longo do curso, eu percebi que me encantava mais com o riso da plateia do que com os aplausos e descobri a paixão pela comédia. Então, eu fui investindo. Fiz curso de clown, sou palhaço de hospital, fiz workshop de stand-up. Cheguei a produzir e fazer stand-up por um período e tive contato com comediantes bem conhecidos no meio. Aí veio a ideia deste projeto. É um teatro com uma mensagem mais leve, mais acessível. Também percebemos que as pessoas pararam de se ouvir hoje em dia. E a principal mensagem que a gente busca passar a essa: as pessoas devem se ouvir mais. O grupo é bem misturado. É meio um reflexo da sociedade e isso é legal. Até politicamente falando, tem gente mais de esquerda e mais de direita. É um grupo bem heterogêneo em idéias. Isso é bom quando você quer uma comunicação acessível.

 

Guia – O nome da peça é bem sugestivo: Loucos São Vocês.
Romulo – Eu acho que o título resume bem a ideia do texto, porque as pessoas apontam muito o defeito dos outros e deixam de ver o que elas próprias podem melhorar e o quanto elas têm de problemas e questões a serem resolvidas. A loucura, nesse sentido, é mais da sociedade. A gente usa a loucura e a doença psicológica dos personagens como contraponto da própria sociedade, para dizer “vocês apontam, vocês dizem que quem está ali é que é o problema porque vocês não têm coragem de enfrentar os seus problemas”. A ideia é mostrar a loucura da sociedade revelada por alguns personagens que foram individualmente apontados como loucos. A sociedade olha para um morador de rua e define “aquele ali é um mendigo, um infeliz”. Às vezes ele é muito mais feliz e mais rico de espírito do que a própria pessoa que está falando. Eu acho que os personagens estão ali para mostrar que ter um desvio psicológico não determina necessariamente que eles são os loucos em uma sociedade sã. Cada um tem a sua loucura e se a gente não parar pra se olhar, pra entender um ao outro, nunca vai perceber isso. A maior loucura é essa: as pessoas pararam de ouvir e só querem falar.

 

Guia – Uma cadelinha, a Pitoco, entra em uma cena e surpreende toda a plateia. Ela está ali por causa de uma parceria, certo?
Romulo – A ideia inicial era que, para essa cena, cada sessão tivesse um cachorro diferente e eu, como representante de uma ONG, falasse no final da peça que o cachorro estava para adoção e até conseguisse que alguém da plateia ficasse com ele. Hoje em dia existe um comércio muito grande de cachorros e tem tantos que estão abandonados… Mas ao longo do tempo, por questão da produção, ficou inviável. Mesmo a cena sendo curta, eu teria que ter um registro especial, um atestado de cada cão. A Pitoco tem um atestado do veterinário e toda uma documentação que mostra que ela está apta a participar do espetáculo. E eu teria que ficar renovando isso para cada apresentação e não seria viável. Então a gente optou por criar uma promoção. A pessoa entrega um pacote de ração pra uma ONG (facebook.com/luizproteçãoanimal) e ganha um ingresso pra peça.

 

Guia – Outra novidade é que a peça tem continuação.
Romulo – Sim. Eu sou muito fã de séries. E hoje, com tantas plataformas, o formato ficou muito atual. Eu já tenho o episódio 2 da peça escrito. Acho que peça muito longa é chato. Eu prefiro criar cenas curtas. Vai lá, dá o recado e segue a vida. A ideia é modernizar um pouco. Uma coisa que a gente fala desde o início: o teatro acaba sendo feito para pessoas de teatro. Então, trazer atualidade para a linguagem, que é o que alguns grupos de comédia fazem, como Os Melhores do Mundo, faz com que você acabe atingindo um público maior e passe melhor a mensagem que quer.

 

Guia – E como tem sido a resposta desse público?
Romulo – A nossa ideia é fazer a pessoa rir e pensar. Tem uma cena do mendigo que muita gente comenta comigo. Ele conversa com um carteiro que diz que vai trabalhar muito para um dia poder ficar sem fazer nada. E o mendigo, que é muito criticado pelo carteiro na cena, já está sem fazer nada. A ideia é fazer a pessoa rir e pensar. A peça tem diversos tipos de piada, de cenas e de personagens. Eu vejo que, pra cada um, as cenas tocam de um jeito diferente. Tem gente que me fala que chorou com uma cena que a gente faz com um manequim de plástico, porque as pessoas realmente não se enxergam. Outros se veem no mendigo ou no carteiro. Então, o que eu vejo é que as pessoas, no geral, se divertem, mas acabam se identificando mais com uma cena ou outra. As pessoas se vêem numa loucura muito próxima. Tem a personagem da mulher apaixonada, desiludida, que não acredita mais no amor. Aí vem o maluco e consegue, sem querer, fazer ela pensar de outra forma, que ela tem tudo, que consegue andar, enxergar e pode correr atrás de quem ela quiser. E ela acaba tendo uma “paixonite” pelo louco.

 

Guia – E quando vem o próximo episódio?
Romulo – A princípio ele está previsto para final de 2020. A gente está na segunda temporada dessa primeira peça e está tendo uma boa aceitação. A gente quer ficar um pouco ainda com esse episódio para maturar e depois voltar com o segundo.

 

Serviço:

Loucos são vocês

Temporada até de dezembro de 2019
Apresentações: Sáb, 21h
Local: Teatro Shopping West Plaza Av. Antártica, 380 – Barra Funda
Garanta o seu ingresso: Ingresso para todos

31.10.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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