Entrevista – Rafael Portugal fala sobre o stand-up “Eu comigo mesmo”

Dois anos depois de estrear em São Paulo, o stand-up Eu Comigo Mesmo volta à cidade com o humor renovado e cheio de novidades. Em entrevista ao Guia de Teatro, o humorista Rafael Portugal falou sobre a nova cara do espetáculo e sobre o seu processo de criação.

 

Guia – Em junho de 2017 nós conversamos sobre o mesmo espetáculo – Eu Comigo Mesmo – que estava chegando em São Paulo. Dois anos depois, muita coisa mudou nesse seu stand-up?

Rafael – Nesses dois anos, muita coisa foi nascendo. Muita piada a gente muda de acordo com a reação da plateia, com o tempo de resposta, o ritmo. Umas a gente acha que é melhor tirar e acrescentar outras que deram certo de uma maneira melhor. Há dois anos atrás, eu fazia personagens no espetáculo e agora faço stand-up do início ao fim. Então, muita coisa mudou de fato.

 

Guia – O nome do espetáculo “Eu Comigo Mesmo” já mostra que as histórias contadas são sobre você. Como isso funciona? Quando você identifica algo engraçado no seu dia a dia, você já anota isso pensando “pôxa, daqui pode surgir um texto legal” ou isso fica lá na sua memória e tem um dia que você desenterra tudo?

Rafael – O esqueleto do show é sempre anotado. A base dele toda foi anotada, foi pensada em histórias. Mas muita coisa a gente só descobre quando vai fazer. O tempo, a resposta do público… Eu vou lembrando de coisas do meu dia a dia dentro da mesma história e gosto de interagir com a plateia, de ouvir a resposta dela. E é impressionante como essa interação com o público me traz memórias. O que de fato eu vivi dentro daquilo que eu achava que só era um pedaço, acaba se revelando uma coisa maior. Então, o público faz parte disso também. Ele me traz à memória detalhes engraçados que eu esqueci quando escrevi o texto. É um processo muito interessante e sem fim. De alguma maneira, o público me dá isso, esse frescor.

 

Guia – No show, você fala muito da sua infância, da sua adolescência… Conta muito da sua história. O que você acha que estará contando sobre os dias de hoje, daqui a alguns anos?

Rafael – Eu acho que começou a acontecer muita coisa na minha vida. Eu fiz duas turnês na Europa e isso eu ainda não contei. E tem muita coisa que aconteceu que pode virar um show. Pessoas que eu passei a conhecer por conta do humor, por conta dos prêmios, por conta dos trabalhos. Então, o ‘Eu Comigo Mesmo’ deve ter pelo menos mais uma parte, com mais de uma hora de histórias inéditas por conta de coisas que, de fato, eu comecei a viver depois que minha vida começou a virar isso que tem virado (risos). Muito trabalho, muita coisa. Eu continuo sendo o mesmo por conta de tudo o que eu vivi no subúrbio do Rio de Janeiro, mas também tem um outro Rafael que foi dali pro mundo, pros trabalhos que eu sonhava um dia estar fazendo. Então eu acho que esse é o processo natural em que minha vida foi entrando e que, querendo ou não, acaba vindo sempre cheio de humor e permite que o espetáculo ‘Eu Comigo Mesmo’ esteja no teatro de novo, com histórias inéditas.

 

Guia – Como é fazer humor em um momento tão polarizado política e moralmente? Isso dificulta ou facilita a vida do humorista?

Rafael – Eu acho que isso é ótimo, porque é legal para o humorista encontrar outros caminhos, sair de uma região de conforto. E quando eu falo sobre região de conforto, eu não quero dizer que eu não tenha a minha, que eu não tenha o meu jeito. Quando eu falo do subúrbio do Rio, essa é a minha região de conforto. Mas quando eu digo que a gente sai do óbvio político e fala daquilo que não se pode falar, ou daquilo que chamam de ‘mimimi’, de fato, isso é um grito que tem que ser respeitado. Eu acho que é um desafio e que a gente pode ir por muitos caminhos. O humor é gigante. Se não existe limite no humor, esse não-limite está em a gente poder falar sobre tudo que está na nossa cara, latindo e berrando todo dia. Eu respeito cada caminho que os humoristas têm pra escolher, pra falar. Eu respeito de verdade. Mas vejo também como uma oportunidade da gente levar o público a rir e a chorar de diversas outras situações. E a gente vai amadurecendo com isso. O humor também existe para levar as pessoas a despertarem, a amadurecerem. Aquilo que elas achavam que não, o humor mostra que sim. O humor é muito poderoso. Eu acho que a gente tem que acreditar num caminho. Fazer humor e acreditar no que está fazendo. E as pessoas vão comprar, vão sentir, vão entender. O humor é muito poderoso e a gente tem milhões de possibilidades com ele.

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Serviço:

Eu comigo mesmo

Temporada a partir de 10 de agosto de 2019
Apresentações: Sáb, 20h | Dom, 20h.
Local: Teatro Gazeta Av. Paulista, 900 – Cerqueira César
Vendas: Ingresso Rápido

 

1.8.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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