Entrevista – Rafael Portugal fala sobre a comédia “Eu Comigo Mesmo”

Rafael Portugal começou no teatro ainda adolescente. O humor latente e o raciocínio rápido o levaram rapidamente para a comédia. Integrante do Porta dos Fundos, o grupo de humor de maior sucesso na internet, ele agora está sozinho no palco no stand-up ‘Eu Comigo Mesmo’. Em entrevista ao Guia de Teatro, Rafael falou sobre sua trajetória artística e sobre o sucesso de seu espetáculo, em cartaz no Tetro Shopping Frei Caneca.

Foto Divulgacao Turne 2017

Crédito: Jorge Bispo

Guia – Como você mesmo conta no espetáculo, você sempre trabalhou em grupo. Como surgiu a ideia e quando você se sentiu pronto para montar um espetáculo de stand-up?

Rafael – Quando eu entrei pro teatro, fiz parte de uma companhia teatral chamada Atos e Atores, lá em Realengo, no Rio de Janeiro. Quando comecei a fazer humor, também foi trabalhando em grupos e peças teatrais, junto com o meu amigo Cezar Maracujá, que é um brother meu, comediante lá do Rio de Janeiro. Um dia ele falou que a gente precisava fazer um stand-up. E eu disse que adorava stand-up, mas que não tinha coragem de fazer (risos). Aí, conversando com minha esposa, ela disse que eu tinha tantas histórias engraçadas, coisas que eu sempre contava da família, da infância, e achava que eu devia jogar isso no palco. Eu sentei com ela e começamos a escrever, a pensar e, morrendo de medo, comecei a testar as histórias.
Esse meu espetáculo vem de um processo antigo de coisas, de acontecimentos. Eu comecei criando os primeiros cinco minutos, depois dez minutos. O Paulinho Serra – que eu considero meu padrinho no humor – viu um vídeo meu na internet, interpretando um personagem, e me convidou para fazer uma participação no show dele. Depois, quando eu montei o stand-up, ele me chamou para uma participação também. No stand-up você tem que entender muito bem o tempo. Eu tenho vários amigos que fazem stand-up e muitos não são atores.
O stand-up tem muito isso. Às vezes o cara não é ator mas faz um texto maravilhosamente bem – é o tempo que o stand-up tem, é o tempo da comédia. Esse tempo tem uma inteligência, uma compreensão. Você tem que saber identificar o tema do momento e a piada dentro do tema (no stand-up muitas vezes a porrada está na identificação). Então, comecei fazendo devagar, entendendo o que funcionava e o que não funcionava, o que era engraçado só pra mim e o que o público também identificava, porque muitas vezes eu acho uma coisa engraçada mas é algo que só eu vivi, é muito particular, e não cria identificação. E se não tem identificação, não tem graça.

Guia – Neste espetáculo você conta muito sobre a sua família. Você já achava ela engraçada antes ou só depois, revendo as histórias, é que você viu o quanto elas rendiam risadas?

Rafael – Nem sempre o caos na família é engraçado e a gente dá risada (risos). São coisas que depois viram histórias engraçadas, conforme a gente vai lembrando. A gente fica pensando por que isso ou aquilo acontecia daquele jeito. Na minha família sempre teve muita festa, sempre foi tudo muito divertido. Eu tenho um tio que é muito engraçado contando histórias. Desde que eu era criança ele já imitava uma outra tia minha. Então, eu cresci vendo meu tio fazendo imitações, minha mãe rindo.
Eu perdi meu pai muito cedo, como eu conto no espetáculo. Mas o pouco que eu tenho de memória dele, é ele fazendo piada em casa. Eu tive esse privilégio. Meu tio é policial militar, minha tia é enfermeira, minha mãe trabalhava com transporte de cargas. Ainda que com profissões diferentes, havia o humor me rodeando, me cercando. Meu tio morria de rir porque eu achava que imitava bem as pessoas, mas eu nunca imitei ninguém bem, eu não sou um imitador. Mas eu queria fazer meu tio rir de alguma maneira e ele morria de rir com as minhas imitações que não tinham um pingo de graça.
O engraçado era eu estar vendido ali pra ele. Eu sentia que não tinha nada de perfeito na minha imitação mas que eu tinha um tempo engraçado, e essa percepção do tempo do humor, eu trouxe comigo desde criança. E eu me via cercado de histórias interessantes que talvez não fossem engraçadas naquela época. Mas depois, eu contando, percebi que elas ganhavam outro ritmo e muito humor.

Guia – E como as histórias são muito pessoais, cotidianas, elas acabam tocando mais a plateia?

Rafael – Com certeza. Eu acho legal porque é uma troca. O stand-up te dá isso. Eu estou contando as minhas histórias mas sei que as pessoas se identificam porque também vivem as histórias delas e muitas vezes se vêem representadas ali. O stand-up te dá total proximidade com o público – eu com eles e eles comigo. Um lance de eu conhecer, de eu entender, de eu contar sobre a minha vida, de eles sentirem vontade de contar sobre a deles também.
É por isso que, no final do espetáculo, chamo alguém no palco pra falar um pouco, pra conversar comigo. Eu gosto muito dessa troca, de poder entender, de conversar, de olhar. Por isso eu penso em um dia ter um talk-show, porque eu acho sensacional ter um espaço onde eu possa entender a vida do outro, saber de coisas, entender o que está acontecendo com ele. E no espetáculo eu tento mergulhar nisso o máximo que eu posso. Eu tento participar do outro.

Guia – No final do espetáculo, o stand-up dá lugar a um personagem – um músico de barzinho.

Rafael – Esse é um momento diferente do espetáculo. O stand-up tende a ser mais parecido em todos os shows. Mas o final não. Se uma pessoa assistir meu espetáculo três vezes, as três vezes essa parte será diferente. Porque eu pego um convidado na plateia e a gente meio que compõe uma música juntos, no palco. E cada vez surge uma música diferente. Então eu acho que é um momento chave. Na verdade, o show tinha mais dois personagens que eu acabei tirando para dar mais tempo ao stand-up.
Eu pedi uma ajuda para o Nando Viana – um humorista do sul que mora aqui em São Paulo e que faz o programa “A Culpa é do Cabral” no Comedy Central. Ele leu meus textos e foi acrescentando coisas que eu poderia estender. Isso fez com que o stand-up crescesse e eu acabei tirando os outros dois personagens. Mas é um momento importante porque eu posso brincar com a plateia, improvisar, fazer música…

Guia – Você está fazendo um sucesso enorme no Porta dos Fundos. Agora também está fazendo cinema. Como é essa relação com os outros humoristas durante o trabalho? Esse ritmo de humor é constante entre vocês?

Rafael – Realmente, o ritmo entre a gente é maravilhoso. Eu estou fazendo um filme com o Leandro Hassum. A vida dele é isso. O Hassum é comédia o tempo inteiro. O Porchat, até quando a gente quer falar sério um pouco…  dá uns minutos de papo sério e daqui a pouco “páh” ele manda uma piada. Então a gente não consegue parar, é uma coisa natural mesmo.

Serviço:

Eu comigo mesmo

Local: Teatro Frei Caneca – R. Frei Caneca, 569 – Tel: 3472-2229.

Apresentações: Quinta-feira, às 21h. R$80 –  Classificação:14 anos

31.5.2017
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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