Entrevista – O diretor Marco Antônio Pâmio fala sobre o espetáculo “Ator Mente”

Rir ou não rir, eis a questão. O espetáculo Ator Mente, com Norival Rizzo, Noemi Marinho, Josemir Kowalick e Luciano Schwab, reúne três peças curtas do inglês Steven Berkoff. Com um humor ácido, ele deixa o riso do espectador sempre no ar, indeciso e nervoso, e, não à toa, se autointitula uma Comédia Cruel. Em entrevista ao Guia de Teatro, o diretor Marco Antônio Pâmio, que também traduziu os textos, falou um pouco sobre esse espetáculo que utiliza a metalinguagem para expor, de forma crítica e bem-humorada, um dia na vida de um ator.

 

Foto: Heloísa Bortz

Guia – Como foi o processo de unir três peças curtas do Steven Berkoff para criar o espetáculo Ator Mente?

Pâmio – O Berkoff tem umas duas dezenas de peças curtas. Dentro desse conjunto ele estabelece quatro categorias temáticas para as peças e agrupa os textos dentro de cada uma dessas categorias. “Atores”, é uma categoria que tem essa tônica do ator no fim da vida, esquecido, sem perspectiva, passando dificuldade, contando que foi alguém um dia e que hoje não é mais.

O bloco ‘Rejeição’ são as peças que falam das mazelas do cotidiano, situações sobre casais, sobre as mesquinharias do dia a dia. No outro bloco, o ‘Bíblico’, ele pega passagens como Adão e Eva, Caim e Abel, e as recria à luz de situações contemporâneas. E o ‘Perseguição’ é um bloco em que ele fala sobre preconceito e intolerância, principalmente em relação aos judeus, sendo ele mesmo um autor judeu.

E a gente foi lendo essas peças, foi estudando. Eu me interessei particularmente pelo bloco sobre os atores porque vi que ele conseguia extrair humor dessa situação que poderia, dentro de um outro contexto, de uma outra dramaturgia um pouco mais sisuda ou autoindulgente, resultar em textos lamurientos, auto piedosos. Só que ele arranca humor disso. Ele não tem medo de trabalhar o patético, de descobrir que aí tem uma situação possível de criar humor sob uma ótica que não é a da risada fácil. É uma risada que incomoda, nervosa, que tem aquela pitadinha de dor.

 

Guia – Por isso vocês classificaram a peça como uma Comédia Cruel?
Pâmio – Sim. O Steven Berkoff, não é um autor fácil. A linguagem que ele imprime nos textos tem um traço muito característico dos dramaturgos britânicos, famosos por terem a capacidade de, mais do que rirem de si mesmos, jogarem soda cáustica sobre si mesmos. Eu já montei textos de outros autores britânicos e percebo que o inglês tem um atrevimento quando lida com o humor. Eles têm uma tradição que vem de séculos. Se a gente for pensar em grupos como o Monty Python ou em roteiristas como o Harold Pinter, muito cáusticos, eles têm um pouco desse traço comum de tocar o dedo na ferida, de deixá-la sangrar e, quando ela estiver cicatrizando, ir lá e cutucar de novo. E eles extraem humor disso.

 

Guia – Você usou um personagem ator para ligar essas três peças curtas, mas, como disse, umas das peças utilizadas é do bloco “Perseguição”. Como você fez essa amarração?
Pâmio – A peça mostra um ator em três lugares que lhes são comuns – o camarim, o palco e a sua casa. E aí, na cena em que ele está no palco, a gente resolveu colocá-lo representando uma peça curta de outro bloco, sobre preconceito e intolerância. É uma peça em que a mãe vai contar uma história para o filho dormir, mas a história é de terror. E o autor faz isso com humor. Essa cena é muito contundente para explorar, dentro de uma metalinguagem do ator, o palco dentro do palco, a peça dentro da peça, e usar isso para falar um pouco sobre como se forma um pensamento intolerante, preconceituoso. Como nasce o discurso do ódio, dessa maneira às vezes “naïf”, um pouco ingênua na sua aparência. O que se revela ali, é como o discurso do ódio às vezes nasce do berço. Você pode sofrer uma lavagem cerebral nos primeiros anos de vida, dentro da sua própria casa. Algo que é aparentemente ingênuo e infantil, vai ficando cada vez mais forte e aterrorizante. Então, dentro dessa estrutura da trilogia, a gente criou um fio narrativo através da figura desse ator, falando de vários temas contundentes, pertinentes, contemporâneos, mas sempre dentro dessa linguagem sarcástica.

 

Guia – E a interpretação que o Norival deu para esse ator está incrível!
Pâmio – Na verdade, esse projeto começou junto com ator Luiz Damasceno, com quem eu tinha feito cinco outros trabalhos como ator. Nós começamos a ler essas peças e o espetáculo foi surgindo. Mas acabou que o Damasceno não pôde fazer. Na época, eu estava na peça “A Noite de 16 de Janeiro”, dirigida pelo Jô Soares, e dividia camarim com o Norival. Por obra dos deuses, o teatro estava me apresentando um outro ator perfeito pro papel. O Norival tem essa linguagem de quase não representar, ele é extremamente natural. É um ator muito específico. No palco, ele é uma pessoa de verdade. Você acredita o tempo todo que aquilo não é um personagem, que aquilo é uma pessoa, que não tem composição. Que aquele ser existe e que, por uma circunstância qualquer, está diante de você num tablado, mas poderia estar aqui, ao seu lado. O Norival também tem essa qualidade de expor um lado triste, um lado dolorido do ser humano, através de um humor delicioso, inteligente. Ele tem rapidez de pensamento, de raciocínio, de atitude. É um ator muito especial. E no meio do caminho veio a Noemi Marinho que, por uma ótima coincidência, é uma grande parceira do Norival dos tempos da EAD. Eles se formaram e montaram um grupo, na época. Fizeram vários espetáculos juntos. Eles têm uma cumplicidade, um jogo, um bate-bola saborosíssimo. E ela também tem um tempo incrível. Deu tudo muito certo.

 

Guia – O título da peça ficou perfeito. Ator Mente!
Pâmio – Esse título surgiu num insight. Foi o Norival que sugeriu. A gente precisava de um nome, pois as peças curtas que compõem o espetáculo têm cada uma o seu próprio título. Então, vieram várias sugestões, mas nenhuma sonora, sintética. Trilogia Berkoff seria muito técnico. Essas coisas mais imediatas… Fora de Cena, Fora do Jogo. Vieram vários títulos. Aí o Norival veio com essa brincadeira com as palavras Ator Mente. Tudo a ver, porque tem um lance dos personagens atormentarem uns aos outros, do humor que atormenta a plateia, e acabou tendo essa brincadeira com o jogo das palavra, com a sonoridade. Tudo ficou muito redondo. Vale a pena conferir!

 

Ator Mente

Temporada até 28 de julho de 2019
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 19h.
Local: Teatro Nair Bello R. Frei Caneca, 569, 3º piso – Shopping Frei Caneca – Consolação
Vendas: Tudus Ingressos

1.7.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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