Entrevista – Nathalia Timberg fala sobre o espetáculo “Através da Iris”

A peça Através da Iris é uma espécie de documentário teatral onde Iris Apfel, a colorida e pop fashionista nova-iorquina de 97 anos, é entrevistada na sala de sua casa, falando sobre sua história, sobre moda, liberdade de expressão e sobre o futuro. O Guia de Teatro conversou com a atriz Nathalia Timberg, que interpreta esse ícone da moda no teatro.

 

 

Guia – Como é para você, interpretar uma personagem real e que ainda está viva? Onde você foi buscar as referências para criar a sua  capa-atraves-da-irispersonagem?

Nathalia – É uma grande responsabilidade o fato dessa pessoa existir realmente. Evidentemente, o texto do Cacau Hygino foi instigante o suficiente para me deixar bastante curiosa sobre essa figura tão especial. E eu me debrucei em cima de todas as referências que podia ter. Existe um livro do Eric Boman em que ele fotografou praticamente toda a exposição que ela fez no MET (Metropolitan Museum of Art em Nova York), e tinha dois prefácios ótimos: o dele e o do Harold Koda, que é o curador do MET e que a convidou para fazer essa entrevista. Tem também o livro dela – praticamente uma autobiografia – e um artigo em que ela relata o seu percurso de vida. Então, foi muito interessante, muito instigante e muito instrutivo poder ter esses elementos para criar uma figura inspirada na Iris, da mesma maneira que o texto do Cacau foi inspirado nela.

 

Guia – Vocês tiveram algum contato com a Iris?

Nathalia – A nossa produção e a assessoria dela permitiram que trocássemos perguntas. Isso foi feito através de um questionário que foi publicado no jornal. Eu fiz cinco perguntas para ela e ela me fez cinco perguntas. E uma das perguntas que fiz a ela foi sobre como foi passar da decoração de ambientes à decoração do ser humano, porque é isso que ela faz. Ela é uma mulher dos acessórios. E realmente é muito curioso, porque ela tem uma formação de artes plásticas, mas também é dotada de muito talento e tem uma qualidade incrível nas composições que faz, sempre com um atrativo de harmonia, de bom gosto. E eu tive que buscar a personagem por essa ótica. Você tem que tentar estar o mais próximo possível da cabeça do personagem que você interpreta. Por um lado é até melhor, porque quando as personagens estão muito próximas de você, fica muito difícil separar. Cada ser humano é uma química especial.

 

Guia – Você faz a peça inteira, sozinha no palco, como se falasse com um jornalista que não está representado ali por um ator. Como é essa experiência do teatro sem o diálogo com outro ator? Esse diálogo acaba acontecendo com a plateia?

Nathalia – A peça foi concebida como se fosse uma entrevista que ela dá a uma equipe que, de certa maneira, fica interposta entre ela e o público. Mas, de certa maneira, o público é que passa a ser o interlocutor. Em um dos momentos, por exemplo, a personagem está falando que não é minimalista e que as pessoas já devem ter percebido que ela se veste assim porque se sente bem e não para chamar a atenção. Ao final da fala, enquanto passa algumas observações para a equipe, ela para, levanta a cabeça como se tivesse sido interpelada e diz “Oi? O que está faltando na moda? Autenticidade!”. Essa interlocução acontece praticamente na cabeça de quem assiste também. A cena foi construída assim e parece que realmente funciona.

 

Guia – É uma peça sobre uma mulher de 97 anos, concebida e dirigida através da visão de dois jovens artistas, o Cacau Hygino e a Maria Maya.

Nathalia – Eles são dois profissionais muito competentes. O mais interessante é eles se interessarem pelo depoimento dessa mulher de 97 anos, porque o texto do Cacau foi fundamentado principalmente nos escritos da própria Iris. O curioso não sou eu fazer. O curioso são os jovens terem se interessado por acompanhar a trajetória dessa mulher. Afinal, ela não nasceu com 97 anos, então eles tiveram a possibilidade de fazer esse percurso e de quase sempre se impressionar. Enfim, toda interpretação é uma transposição de qualquer maneira. Eu fiquei muito impressionada, muito entusiasmada com a criatividade da Maria Maya, essa jovem diretora. Realmente ela tem um DNA que justifica.

 

Serviço:

Através da Iris

Temporada a partir de 18 de janeiro até 10 de março de 2019
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 18h.
Local: Teatro FAAP R. Alagoas, 903 – Higienópolis
Vendas: FAAP 

 

 

21.12.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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