Entrevista – Maurício Manfrini leva Paulinho Gogó da praça para o palco, no espetáculo Fato Venério

O personagem Paulinho Gogó já está na estrada há muitos anos. Porém, foi na TV, dividindo o famoso banco do programa A Praça é Nossa com Carlos Alberto Nóbrega, que ele ganhou maior visibilidade. O Guia de Teatro conversou com o humorista Maurício Manfrini sobre o espetáculo Fato Venério, que trouxe seu personagem Paulinho Gogó para os palcos.

 

 

 

Guia – O Paulinho Gogó já passou pelo rádio, pelo circo e pela TV antes de chegar ao teatro. Conta um pouco sobre a trajetória desse personagem.
Maurício – Eu trabalhava na Super Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, no programa policial humorístico Patrulha da Cidade, ao vivo, onde eu fazia as vozes dos personagens das notícias. Eu fazia o rádio teatro – voz de criança, de velho, de polícia, de ladrão – e me ocorreu de criar um personagem para colocar num quadro dentro do programa. Aí, uma vez, andando na Rua do Livramento, a rua da Rádio Tupi, eu vi num barzinho uns caras conversando, vestindo calças com vinco, camisas de seda javanesa, sapato bicolor. Ali perto tinha o cais do porto do Rio de Janeiro e os caras eram do Sindicato dos Arrumadores que ficava logo ao lado. Eu comecei a prestar atenção no jeito deles e percebi que dali poderia sair um personagem. Então eu saía da rádio e ia pro barzinho. Ali eu consegui criar o personagem, o Paulinho Gogó, mas me faltava uma voz. Eu ficava tentando descobrir em casa o jeito que o personagem falaria. Mas tudo ficava estranho, não tinha verdade. Um dia eu cheguei mais cedo no botequim e fiquei ali. Logo depois, entrou um homem negro de uns dois metros de altura e falou “Fala, Seu Manéu. Coloca uma daquelas que engasgou o gato pra mim.” Eu olhei e pensei “caraca, é a voz do Paulinho Gogó!”
Fiquei olhando pro cara e observando o timbre da voz, o jeito dele falar, pra poder pegar a embocadura. Fiquei olhando, olhando, olhando, a ponto de o cara achar que eu estava dando em cima dele e vir tirar satisfação (risos). Quando cheguei em casa, logo comecei a treinar o jeito de falar, a embocadura. No dia seguinte, experimentei o personagem na rádio. Em um mês, o Pauliho Gogó já tinha se identificado com o programa. Logo depois eu fui para o programa do Wagner Montes, que nos deixou há pouco tempo. Foi ele que me deu a oportunidade de fazer o personagem na TV pela primeira vez, no programa Na Boca do Povo, na CNT, em 1999. Em 2001, o Paulinho Gogó foi para a Escolinha do Professor Raimundo, onde deram uma melhorada no visual do personagem. Daí eu comecei a me apresentar em circos e surgiu a necessidade de ajeitar o personagem para fazer shows. No circo eu atingia um público de todas as idades. Em 2003 eu comecei a fazer apresentações em teatros, aí mais direcionadas para o público adulto. Em 2004 fui para A Praça é Nossa e estou lá até hoje com esse personagem de muito sucesso. Agora, além do teatro, estamos fazendo um longa metragem – Paulinho Gogó, O Filme – com a trajetória do personagem.

 

Guia – Esse personagem tem uma força tão grande que as pessoas às vezes confundem o ator Maurício com o personagem Paulinho Gogó. Como é a sua relação com o personagem e como é vivê-lo há tanto tempo?
Maurício – Eu tive a honra de dividir o camarim com o Ronald Golias. Ele me deu um conselho só na vida, mas que me tirou um grande peso das costas. Como humorista de personagem, eu achava que tinha que criar vários tipos. E o Ronald Golias me disse que não, para que eu tirasse isso da cabeça, porque o maior de todos teve um personagem só, e sem falar – Carlitos, de Charlie Chaplin – que está aí até hoje. Então, o essencial é que você tenha um personagem verdadeiro, que as pessoas olhem e acreditem que ele exista. Se você criar um outro personagem – um motoboy, por exemplo – o Paulinho Gogó pode virar um motoboy. Se criar um carteiro, o seu personagem vira um carteiro. Se você criar um ascensorista, o Paulinho Gogó pode virar um ascensorista. Ele pode ser o que ele quiser. Então eu vou acrescentando coisas ao meu personagem e tornando ele mais forte e mais verdadeiro. As pessoas acreditam que existe a Nega Juju, que existe o Chico Virilha, o Celso Bigorna, personagens de quem o Gogó está sempre falando. E quando eu faço o show, eu tiro foto com todo mundo, e as pessoas perguntam pela Nega Juju. “E seu filho Paulinho Tum Tum, está bem?” Então, eu acho que fiz um bom trabalho. Criei um personagem que se fixou na cabeça do público, como uma pessoa que tem seu próprio CPF.

 

Guia – Você já havia tido a experiência de fazer shows ao vivo no circo, com o mesmo personagem. O que teve que mudar para o teatro?
Maurício – A linguagem dele é diferente hoje. No circo, o show era mais pra criançada, mas agora é pro público adulto, mesmo não sendo um show pesado. O Paulinho Gogó, quando tem que dizer algo mais forte, diz sem usar palavras pesadas. Por exemplo, ele não fala que estava transando com a Nega Juju. Ele fala que deixou o moreno escorregar. A criança escuta e não entende, mas o adulto sabe o que ele estava dizendo. O que eu percebi é que as crianças gostam muito do personagem. Então eu comecei a tomar o cuidado de falar as coisas maliciosas sem chocar e sem deixar os pais constrangidos com uma coisa muito pesada. O personagem é malicioso mas não é desbocado. Ele é malandro no bom sentido.

 

Guia – Você teve dois escadas maravilhosos na sua carreira – primeiro o Chico Anísio e agora o Carlos Alberto Nóbrega. Como você transfere essa relação para o palco, onde não há o escada?
Maurício – O Chico Anysio foi um escada maravilhoso que eu tive na época da Escolinha do Professor Raimundo. Ele era genial. Mas o Carlos Alberto da Nóbrega me deixa ainda mais à vontade. Na praça, é tudo feito no improviso. Ele não sabe o que eu vou falar. Fica sabendo durante a gravação, no momento que eu falo. Então, ele acrescenta muito porque ele se diverte demais com as histórias. É como se ele fizesse parte da minha plateia. Ele ri daquilo que eu conto e é espontâneo. Ele se surpreende com as piadas. Ele faz aquilo que o público faz no meu show. Então, na realidade, no teatro, eu transfiro aquele apoio do Carlos Alberto para a plateia. E a plateia se divertindo, eu vou me divertindo junto, o personagem vai crescendo porque eu vou usando a plateia como escada. Eu fui aprender a fazer show sozinho no circo e não tive dificuldade de fazer essa transição. O Carlos Alberto não está comigo no palco, mas a plateia faz a parte dele e a surpresa sempre acontece.

 

Guia – No show, você segue um roteiro certinho ou, assim como na TV, existe muito improviso?
Maurício – O Show tem uma espinha dorsal que me dá a oportunidade de improvisar ou não, dependendo da necessidade. Às vezes acontece de eu seguir aquilo certinho. Outras vezes surge alguma coisa interessante e eu saio do roteiro. Mas eu vou lá e trago de volta pra continuar a história. O show “Fato Venério” é uma grande piada de uma hora e quinze minutos onde eu começo conversando com a plateia e vou contando as histórias. Quando a pessoa vê, o show já começou e ela nem percebeu. Eu entro conversando, bato papo, pergunto de onde fulano veio. E aí eu vou inserindo as histórias. Daqui a pouco o show acaba, sem eu ter anunciado “gente, eu tenho uma história de um português que era assim e assado”. Eu vou contando e aquilo vira verdade, a piada acontece durante a história e o público acaba achando que aquilo aconteceu mesmo. Eu falo da Nega Juju, falo do Carlos Alberto, do Silvio Santos, do Wagner Montes, da Escolinha. Eu faço um apanhado geral e uma história vai se embrenhando na outra, vai se engalfinhando na outra. Eu me divirto muito e a plateia se diverte junto.


Serviço:

Paulinho Gogó em Fato Venéreo

Temporada a partir de 16 de março de 2019
Apresentações: Sáb, 20h | Dom, 18h.
Local: Teatro Gazeta Av. Paulista, 900
Vendas: Ingresso Rapido 

 

28.2.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

Adicionar comentário