Entrevista – José Eduardo Vendramini e Marcelo Braga falam sobre a peça “Quem Fica Com Quem”

A peça Quem Fica Com Quem cria um mosaico de relações afetivas a partir do encontro entre pessoas com diferentes perfis. O Guia de Teatro conversou com os escritores e diretores José Eduardo Vendramini e Marcelo Braga, para saber um pouco mais sobre esse espetáculo.

 

©Joao Caldas Fº

Guia – Como foi o processo de escrever e dirigir, dividindo isso com outra pessoa? Como isso aconteceu na prática, no dia a dia?

José Eduardo – Geralmente, escrever uma peça teatral costuma ser um processo individual ou a quatro mãos. Neste caso, cada um dos autores criou individualmente – e nos mesmos meses – as cenas que desejava escrever. As cenas iam sendo trocadas por e-mail, o que provocou um estímulo permanente para se escrever mais e mais e resultou tanto numa publicação em livro (Pertencimento, de Marcelo Braga), quanto em uma obra inédita (Quem Fica com Quem, de minha autoria). A partir de um tema comum – quem fica com quem – entendido tanto como união afetiva (ou seus opostos, a separação e a solidão), quanto como solidariedade – nasceram duas obras paralelas, separadas inicialmente pela publicação de uma delas e agora mescladas para a criação do roteiro final deste espetáculo.
Marcelo – No ano passado a gente fez um espetáculo junto. Eu escrevi um texto chamado Montanha Russa e o José Eduardo dirigiu. Aí a gente resolveu retomar esse projeto que ele citou, só que agora separando algumas histórias minhas, algumas dele e juntando de novo, formando esse texto que vamos estrear agora no teatro.
José Eduardo – A direção foi pareada: a partir de um conceito comum – jogo revelado – e de uma concepção cenográfica compartilhada (seis pequenos camarins, uma plataforma para projeções e alguns objetos), cada um dirigiu as próprias cenas. A presença dos dois diretores em ensaios gerais foi criando uma estrutura cênica consensual, apoiada em elementos cenográficos, figurinos e trilha sonora, experimentados junto aos atores a partir de propostas da equipe de criação.

 

Guia – Como foram escolhidas as histórias e os personagens que criam o mosaico da peça?
José Eduardo – Foram escolhidos a partir das vivências pessoais dos dois autores, de lembranças familiares e da observação da realidade à nossa volta. A criatividade e a re-invenção da realidade, próprias da ficção, permearam igualmente a criação dos textos e da encenação propriamente dita
Marcelo – As histórias são unidas pelo tema, basicamente, que é o de ‘pertencer ou não pertencer’ a alguma coisa, e o título sugere exatamente isso. Quem Fica Com Quem, sem interrogação. Não é uma pergunta, é uma afirmação. Então é assim: quem é que fica com aquele parente que ficou mais velho? Com quem você fica depois que acabou a relação? Com quem você fica quando quer ter um filho e não tem um parceiro ou uma parceira? Como lidar com essas situações de fugir da solidão ou tentar fugir dela se associando a alguém, pertencendo a alguma coisa? Todos os personagens estão tentando resolver essas questões. Às vezes ligados à família, às vezes ligados a um afeto, às vezes ligados a uma relação pessoal de amizade, às vezes tentando aplacar a própria solidão. O que acabou unindo essas histórias foi esse tema.

 

Guia – Como a decisão de trabalhar com as coxias abertas influencia o jogo teatral e ajuda a contar essas histórias?
Marcelo – Como são várias histórias, a gente queria que as pessoas fossem se identificando com elas. Um ator faz um personagem e daqui a pouco estará fazendo outro. E esse jogo é todo revelado. Então ele potencializa essas trocas. Quando as trocas são reveladas, o público saca o jogo e percebe o que está acontecendo entre os atores.
José Eduardo – Algumas cenas têm continuidade, outras não. São vinte cenas curtas (o espetáculo dura noventa minutos), que precisam de muita agilidade na transição de uma unidade para outra. Nesse sentido, a decisão pelo conceito de “jogo revelado” e a opção meta-teatral por coxias à vista do público, liberaram os dois encenadores do jugo do Realismo e trouxeram para o espetáculo a delicada poesia presente nos ensaios, fato este que só os praticantes da arte teatral costumam conhecer.
Marcelo – Essa revelação dos bastidores faz o espectador perceber que esses papéis podem ser assumidos por qualquer um. Tem uma atriz fazendo uma mulher que quer ter um filho de uma forma independente, mas poderia ser qualquer um de nós que desejasse ter um filho e não tem uma parceria. E essa ideia da identificação fica mais próxima, mais rápida, quando você abre a estrutura da peça. Qualquer um poderia se encaixar nessa estrutura. Isso faz o jogo com a plateia funcionar.

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Serviço:

Quem Fica com Quem

Temporada 31 de maio a 28 de julho de 2019
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 19h

Viga Espaço Cênico R. Capote Valente, 1323 – Sumaré
Mais informações: https://viga.art.br/

31.5.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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