Entrevista – Oscar Magrini e Leona Cavalli falam sobre o espetáculo “Gatão de Meia Idade”

Gatão de Meia Idade, A Peça – de Miguel Paiva – é um espetáculo teatral que saiu das tradicionais tirinhas do Jornal O Globo e Jornal do Brasil e foi para os palcos. Antes disso, passou também pelo cinema, em 2006. Oscar Magrini interpreta o quarentão urbano que sabe rir do seu próprio destino e da sua própria imagem. Leona Cavalli interpreta oito hilariantes personagens femininas, todas completamente diferentes e repletas de humor, que dão bossa aos relacionamentos amorosos vividos ao longo da história pelo Gatão. O palco é completado pelo ventríloquo Yakko Sideratos e seu boneco, que costuram as histórias do Gatão e funcionam meio como a consciência do personagem. A direção é de Eduardo Figueiredo. O Guia de Teatro conversou com o elenco da peça.

 

Guia – Quem é esse Gatão? Qual é o momento que ele vive?

Oscar Magrini e Leona Cavalli falam sobre a comédia "Gatão de Meia Idade"

Crédito: Gabriel Wickbold

Oscar – Ele é um cara separado que percebe que não quer ficar sozinho. O primeiro casamento não deu certo e ele começa a procurar a mulher ideal. Ele sai na noite, pra lá e pra cá, tentando se auto-afirmar. Está com cinquenta e poucos anos, na meia idade. Quando o Miguel Paiva fez o filme, há uns 15 anos, o Gatão tinha uns quarenta e poucos. Mas a gente acha que hoje em dia isso mudou um pouco e essa meia idade está na casa dos 50. Então, esse cara vai pra pista mostrar que ainda é um homem viril. Ele quer ganhar a mulherada! E nessa busca alucinada ele encontra vários tipos de mulheres. Cada uma é de um jeito. Cada uma se comporta de uma forma diferente em uma determinada situação. Ele tenta tirar de letra mas vai percebendo que não é fácil achar a companheira ideal, pelo menos dentro das exigências dele.

 

Guia – Essas mulheres que aparecem na vida dele são muito diferentes, cada uma com suas histórias e manias. O que elas têm em comum?
Leona – O que elas têm em comum é o fato de quererem uma relação verdadeira com um homem. Claro que cada uma com sua personalidade, todas muito engraçadas. A gente faz uma brincadeira em cima dos tipos diferentes. Tem a ciumenta, a alérgica, a carente, a com mania de limpeza, a dominadora… O texto do Miguel foi escrito a partir de um personagem que é dos anos 80. Mas para fazer a peça ele trouxe o personagem para os dias atuais e mostrou uma visão um pouco diferente da mulher. O humor nasce dessa relação meio de embate, de paixão, sempre trazendo o homem pra esse conflito que ele tem em relação ao amor. A gente ri, a gente brinca, mas no fundo a gente fala sobre o amor.

 

Guia – Por que é tão difícil, pra esse cara, encontrar outra mulher a essa altura do campeonato? Ele é muito exigente ou elas é que viraram o jogo?
Oscar – A educação da gente sempre aconteceu de uma forma patriarcal. O homem dá a chave do carro pro filho levar a namorada pro motel, mas não dá a chave do carro pra filha levar o namorado pro motel. Nós fomos ensinados a ir ao ataque. Mas hoje a coisa está diferente. Antigamente o homem levava a mulher pra jantar, ela sentava ali, pedia um suco. Hoje ela chama o garçom, pede a carta de vinhos, escolhe um alentejano 1986… A mulher hoje é empoderada. Ela tem o dinheiro dela, o carro dela e não depende de homem nenhum. E o homem não está acostumado com isso. O Gatão da peça não tem mais aquela segurança que tinha antes.
Leona – Eu acho que essa inversão também acontece porque os padrões estão mudando um pouco. Essa procura por uma relação ideal é que antes fazia com que houvesse casamentos convencionais, naquele padrão, com uma família ideal. A mulher que não conseguisse isso, ficava pra titia. Hoje em dia a coisa é muito diferente, as relações são diferentes. E a peça brinca um pouco com isso, porque não existe mais uma relação ideal e isso coloca o homem em choque. Qual o padrão agora? Qual o certo? O certo é o que te faz feliz, é o que você ama.

 

Guia – Diferentemente dos quadrinhos e do cinema, no teatro a reação é imediata. Como os casais da plateia reagem às situações do placo?
Oscar – As pessoas se identificam, se cutucam. Um fala pra esposa que ela é assim, desse jeito. Elas dão aquele olhar gelado! Eu acho que a personagem da mulher dominadora é a que mais mexe com a plateia. No final da peça, eu faço de propósito. Eu pergunto pro público, qual das mulheres eles mais gostaram. E os homens sempre respondem que é a mulher do chicote. A mulher poderosa é a que gente sempre tem medo mas também é a que mais fascina. Vai entender. Mas o teatro é fantástico porque a gente tem essa resposta imediata do que eles sentem, do que eles vêem e do que eles vivem.
Leona – Há mulheres que se identificam. Há outras que riem porque conhecem alguém daquele jeito. A coisa mais comum é as mulheres depois dizendo “ah, eu sou um pouco assim…” Isso é muito legal na peça. Ela fala muito diretamente com muitas pessoas completamente diferentes, de várias idades. Muitas nunca viram as tirinhas do Miguel e nem o filme. O teatro tem uma linguagem própria, muito próxima e direta.

 

Guia – Qual é a função do boneco na peça e como surgiu a ideia de trazer um ventríloquo?
Yakko – A ideia do boneco é criar uma consciência para o personagem do Oscar e também fazer o link entre uma cena e outra. O boneco sempre interage com o Gatão, como se fosse o “capetinha”, para aloprar o personagem. E nos momentos em que o Oscar sai de cena, há uma interação. É como se fosse a consciência do Gatão: eu sou o bonzinho e o boneco é o sacana. Foi o Eduardo Figueiredo, diretor da peça, que teve a ideia do ventríloquo e me chamou. Eu fui fazer uma reunião com ele, e nós fechamos. Na mesma noite um produtor foi falar com ele que tinha conhecido um ventríloquo muito bom e que ele tinha que fechar com esse outro cara. O Eduardo disse que já tinha fechado comigo. Mas o produtor disse que não, que tinha que ser esse que ele tinha visto no MultiShow, um tal de Yakko Sideratos. E era eu mesmo!

 

Serviço:

Gatão de Meia Idade com Oscar Magrini

Temporada 31 de março de 2019
Apresentações: Sáb, 21h | Dom, 19h.
Local: Teatro das Artes Av. Rebouças, 3970 – Shop. Eldorado – 3º piso
Vendas: Tudus

 

31.1.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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