Entrevista – Fabiano Cambota fala sobre o stand-up “Viver Envelhece”

Fabiano Cambota é músico e humorista. Sua banda Pedra Letícia abrilhantava os programas de entrevistas de Fábio Porchat. Cambota também participa do programa A Culpa é do Cabral, que reúne outros humoristas no canal Comedy Central. Em entrevista ao Guia de Teatro, ele falou sobre seu novo show solo Viver Envelhece, onde diverte a plateia contando casos da sua vida e cantando algumas canções da sua banda.

 

Foto: Rinaldo de Oliveira


Guia
– O show é praticamente uma viagem pela sua história. Isso foi uma escolha consciente ou aconteceu naturalmente quando você começou a escrever?
Cambota – Na verdade, ele é uma continuação dos meus outros shows. Esse é o quarto show solo que eu crio. O segundo e o terceiro já tinham essa veia auto-biográfica. Os outros shows passavam mais pela minha infância, época de escola, e este vai mais para a fase adulta. Essa é uma característica não apenas deste show, mas da forma que eu escolhi de fazer humor. Eu não sou um especialista em stand-up comedy da forma tradicional como ele surgiu, analisando coisas, vendo temas. Eu gosto de contar histórias. Eu gosto de ser o ponto principal da história a ser contada. Eu acho que isso, de certa forma, diferencia um pouco o que eu faço do que o que os outros comediantes fazem.

 

Guia – O dia que eu fui ao show havia várias crianças na plateia, mas isso não foi um impedimento para que o espetáculo fosse super engraçado, sem haver maiores constrangimentos. Isso é preparado de uma forma pensada?
Cambota – O fato de ter crianças na plateia antigamente me atrapalhava. Não pela criança, obviamente. Mas porque as outras pessoas sentem-se constrangidas de rir quando eu falo uma bobagem na frente de uma criança. Isso é uma coisa natural. O show não é indicado para menores de 14 anos, mas eu sei que sempre vai ter criança. Então, eu tenho um cuidado maior para escolher as palavras. E não custa fazer isso. Por exemplo, eu falo pouco palavrão. Na verdade, eu não gosto muito de palavrão. Essa coisa de usar o palavrão como vírgula… Não precisa disso. Você não ganha nada em termos de humor. Eu vou aparando essa aresta para que o show fique mais limpo. E quando chega numa parte delicada, um assunto mais adulto, eu procuro falar de uma forma que não ofenda a criança. Normalmente ela sequer vai entender. E o adulto que está presente, ri sem constrangimento. É uma escolha mesmo. É quase que um estudo para que dê pra agradar todo mundo, pra não desagradar o pai que leva o filho, mas que também não tire a diversão de quem sabe que a criança não devia estar ali. Eu sei que muitas crianças assistem ‘A Culpa é do Cabral’ ou ouvem o Pedra Letícia. A gente nunca fez humor pras crianças, mas elas gostam. Então, ela vai ao show e eu não tenho o direito de não agradá-la.

 

Guia – Você cria uma proximidade muito grande com a plateia que também te ajuda nisso, certo?
Cambota – Para existir humor, tem que existir alguém se dando mal. No meu caso, as pessoas entendem em que em 90% das histórias do show fui eu que me dei mal (risos), com a minha família, com as minhas coisas. As pessoas entendem que elas podem rir um pouquinho da maldade, que não faz mal, porque a maldade acontece com todos, que todo mundo está sujeito a isso. Quem nunca teve vontade de rir no velório de alguém? É a coisa mais comum do mundo. Não é errado, só que, óbvio, você tem que ter muito bom senso. Eu acho que o pulo do gato desse show é exatamente a proximidade que eu consegui com a plateia. A partir do momento que a gente está íntimo, eu posso falar qualquer bobagem, porque o público se sente como se estivesse dentro da minha casa, ouvindo uma conversa e eu posso ir muito mais fundo do que em uma conversa pública. Essa quebra de distanciamento passa por infinitas coisas e eu já compreendi isso com o tempo: o meu jeito, o lugar de onde eu vim, meu sotaque, a forma como eu converso, como eu me apresento na TV, que é a forma prévia que as pessoas me conheceram, ou pela internet. Tudo isso aproxima essas pessoas e eupasso a ter liberdade com elas. Mas eu tenho que entender que elas também têm comigo. E acontece. A gente nunca se viu mas elas têm toda a intimidade quando me encontram. Mas fui eu quem deu essa intimidade, eu tenho que entender. Então eu também vou usufruir dessa intimidade e vou falar um monte de bobagem que eu não falaria na TV, por exemplo.

 

Guia – No show você também canta algumas canções da sua banda, Pedra Letícia. Como é o paralelo desses dois trabalhos pra você? Eles vão sempre andar juntos ou você acha que em algum momento haverá um caminho pra cada um?
Cambota – Eu tenho absoluta certeza que eles sempre vão caminhar juntos. Eu tenho um imenso carinho por fazer show solo. Quem assiste ao show sabe que eu estou me divertindo. Mas nenhuma atividade profissional da minha vida se compara a um show da banda. O show é como o meu stand-up, só que na companhia de 4 amigos. É potencializado. A banda compreende perfeitamente que a comédia tem que existir paralelamente, que ela é responsável pela sobrevida da banda, porque a gente passou por um momento muito ruim e retomou pelo fato de eu fazer comédia. Hoje a gente é uma banda de nicho. Não existe lugar onde a gente toque que esteja vazio. A gente canta em lugares pequenos, lotados, e as pessoas cantam da primeira à última música. É incrível! Só que, da mesma forma, eu compreendo que na minha carreira solo eu também preciso da banda. Então eu sopro o vento pra esses dois lados com a mesma intensidade.

 

Guia – O stand-up têm levado mais público ao teatro do que as peças convencionais. Como você vê esse momento?
Cambota – O stand-up é só a ponta do iceberg. Eu acho lindo o que o Thiago Ventura fez. Ele levou ao teatro um monte de gente que nunca tinha pisado lá. E é um fenômeno isso. Há 20 anos a gente vive um processo de superficialização das coisas. A nossa TV é superficial, os reality shows não agregam culturalmente nada. A mesma TV que lá atrás passava um festival de música que lançava um novo hit. A mesma TV que tinha programas de discussão, debates, programas culturais. O nosso cinema também está superficial. O cinema argentino dá um baile na gente. A nossa música, por exemplo, é comandada de uma forma absolutamente artificial. Se você pegar os últimos 50 sucessos da música brasileira, não tem uma música com um mínimo de conteúdo. Não é uma crítica a essa música. Ela pode existir. O que não pode é ela ser única. Só que é o que está acontecendo em todas as áreas. As pessoas deveriam ir ao teatro assistir a tudo. Eu não acho que o stand-up não tenha que existir. Mas as pessoas deviam assistir Shakespeare, peça infantil… E também deveriam assistir stand-up. Só que o stand-up, pela proximidade que tem das pessoas, com a internet, com o youtube, acaba atraindo mais. As pessoas não foram educadas para frequentar o teatro, não foram educadas para ler um livro. Aqui no Brasil a gente não consome a cultura. E aí pega. Se você pegar o Festival de Teatro de Curitiba, por exemplo, ele enche um monte de peças de todos os tipos. Só que ele é uma tradição. Se você não tem essa tradição, as pessoas não vão consumir. A gente do stand-up está vivendo um momento incrível. Só que a gente não tem nada a ganhar com essa monocultura. E isso vale para todas as áreas culturais. O bom seria se todas as pessoas frequentassem o teatro. Se as pessoas fossem ao teatro uma vez por mês a gente teria muito mais público para tudo.

 

Serviço:

Fabiano Cambota em “Viver Envelhece”

Temporada até 27 de abril de 2019
Apresentações: Sáb, 20h | Dom, 18h.
Local: Teatro Gazeta Av. Paulista, 900
Garanta seu ingresso: Ingresso Rapido

29.3.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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