Entrevista – O diretor Sébastien Brottet-Michel fala o espetáculo “As irmãs Siamesas”

Se você gosta de um teatro sensível, onde cada respiração e cada olhar são um universo revelado, você não pode deixar de assistir As Irmãs Siamesas, de José Rubens Siqueira. As atrizes Cinthya Hussey e Nara Marques interpretam duas irmãs que, após um longo tempo distantes, reencontram-se no funeral da mãe. Dirigida por Sébastien Brottet-Michel, ator do renomado Théâtre du Soleil, a peça é resultado de um processo que reflete o trabalho minucioso das atrizes na descoberta dessas personagens. O Guia de Teatro conversou com o diretor Sébastien e a atriz Cinthya o sobre essa peça que está em cartaz no Teatro Aliança Francesa.

 

Errata – Na capa da revista impressa, anunciamos que Sébastien Brottet-Michel é ator e diretor do Théâtre du Soleil. Na verdade, ele é ator da companhia. A diretora da companhia é Ariane Mnouchkine.

 

Entrevista para o Guia de Teatro com o diretor Sébastien Brottet-Michel e a atriz Cinthya Hussey

Crédito: Heloísa Bortz

Guia – O que o trouxe ao Brasil? Que caminhos você seguiu para hoje estar aqui dirigindo esta peça?
Sébastien – Faz 10 anos que eu venho para o Brasil. Eu vim a primeira vez com o Théâtre du Soleil apresentar “Os Efêmeros”. Nessa época, A Cinthya veio ver o espetáculo. Nos conhecemos e começamos uma amizade. Sempre conversávamos e começamos a perceber que tínhamos uma visão parecida sobre o teatro. Um teatro mais engajado fisicamente, corporalmente, e com uma presença forte da poesia, sempre em busca da beleza. Há um tempo, eu co-dirigi uma peça do Nelson Rodrigues com o Jair Assumpção – Histórias Ordinárias. A gente começou a trabalhar todos juntos – eu, o Jair, a Cinthya e a Nara, que conheci logo depois. Foi graças à Cinthya que eu comecei a dar as primeiras aulas aqui no Brasil. E acabou que vim quase todos os anos – ou pelo menos a cada dois anos – para dar aulas. Então, construí um laço muito forte com o Brasil. No ano passado começamos a falar desse texto – As Irmãs Siamesas – que a princípio deveria ter sido montado pelo Jair, mas ele não pôde dirigir. As duas atrizes propuseram que eu dirigisse. Fazia muito tempo que eu e a Cinthya queríamos trabalhar juntos. A gente tinha pensado em montar um monólogo que acabou não acontecendo. Mas agora estamos nesse projeto, graças também ao Daniel Torrieri, que fez toda a produção.

 

Guia – O Théâtre du Soleil é mundialmente conhecido. Existe um projeto de levar os ideais artísticos da companhia para outros países?
Sébastien – O Théâtre du Soleil trabalha bastante essa ideia. Nós temos o que chamamos de Escolas Nômades, desde 2015, e damos aulas em países onde somos convidados. Já passamos pelo Chile, Suécia, Índia, Inglaterra. A Ariane Mnouchkine (criadora do Théâtre du Soleil) sempre nos fala para dividirmos o que sabemos e para propagarmos esse espírito de grupo teatral, de trupe, sempre em busca da verdade em cena.

 

Guia – As irmãs Marta e Maria têm muito que as diferencia e muito que as une, e isso tudo discorre muito do universo feminino da peça. Como você concebeu essa linha tão tênue na sua direção? Como é o trabalho dos atores no encontro ou na descoberta dessas personagens?
Sébastien – Eu tento não me fazer muitas perguntas. É preciso tentar sempre no palco. Eu e as atrizes imaginamos muitas coisas antes, mas a primeira coisa que quero sempre é subir no palco. Subir e fazer, sem muitas perguntas antes. “Por que esta mesa está aqui? O que ela representa?” A gente também não vai ficar se divertindo para encontrar a psicologia da personagem. Não temos uma ideia pré-concebida dela. A personagem precisa ser descoberta em cima do palco. É preciso descobri-la e usar o corpo justamente para isso. O corpo é uma entidade que vai receber esse personagem. No começo nós não sabíamos como essas duas irmãs seriam.
Elas se parecem muito, ao mesmo tempo em que são muito diferentes. Mas eu não posso saber isso antes. Isso aparece no processo do trabalho. Por exemplo, a personagem da Cinthya – Marta – que ficou na casa da mãe. Quando lemos o texto poderíamos imaginar que ela era uma personagem muito dura, muito seca. Isso seria uma interpretação psicológica em função do texto. Mas a gente descobriu, no palco, que ela é completamente diferente, que ela também sente. Ela está totalmente perdida, justamente pela morte da mãe. Ela não tem mais nada para fazer agora.
A gente descobriu que surge um incômodo quando essas duas irmãs estão juntas. Uma foi embora – a Maria – e a outra ficou. Agora, as duas não sabem mais como se falar. E é o desaparecimento da mãe, a morte da mãe, que faz com que as duas se reencontrem e tenham que reaprendem a se comunicar. Elas se re-apropriam uma da outra. A peça é sobre isso, sobre esse laço que se desfez com os anos e como ele será reestabelecido. A ligação de sangue que elas têm é muito forte, mas desapareceu com o tempo, porque muitas coisas não foram ditas. Agora elas precisam falar. A peça trata de um tema universal. É no funeral, no luto, que as coisas vão emergir. O texto era muito calcado nos anos 80 – a linguagem, algumas palavras. Eu tirei essa marca para deixá-lo mais comum e mais poético. O texto não diz, mas imagino que essas irmãs, quando crianças, tinham um laço muito forte, eram muito próximas. A Marta cuidava da irmã menor. O pai foi embora muito cedo e ela estava a serviço dessa irmã. A gente pode sentir pelo jeito como a Marta olha para a irmã, como seu corpo vai em direção a ela. Então, a gente não conta uma história, a gente sente essa história e o público também precisa sentir. A gente trabalha nessa precisão do corpo – um gesto, um olhar. E esse olhar pode se tornar uma linha de vida.

Cinthya – Eu já trabalho com o Sébastien há muitos anos, acho que desde 2007/2008. Eu faço a assistência e a tradução dos workshops dele. Ele fez a co-direção do nosso espetáculo com o Jair. Eu já estava acostumada a essa transposição, ao uso do corpo. Mas eu passei muitos anos trabalhando com o grupo Tapa, que é um teatro mais cerebral, mais da palavra, mais verborrágico, de uma certa forma. Retomar esse trabalho corporal com o Sébastien foi incrivelmente rico e muito difícil. Ele pegou pesado na preparação – mesmo – para nos tornar mais fortes, mais ágeis, e mais preparadas para impulsos físicos também. E isso alimenta diretamente a criatividade e a mente. A emoção vem direto. Ele coloca a gente às vezes em uma posição que requer apenas um micro ajuste, um ajuste fino. E aí encaixa diretamente na emoção da personagem. É muito bacana, muito rico. O corpo realmente fala. Às vezes é uma inclinação, é algo muito pequeno e revela um mundo interior do personagem. A gente busca, também, a contradição no que o texto diz. O texto diz uma coisa, mas o corpo está dizendo outra. Então a alma quer, o coração não. Isso dá camadas muito interessantes para as personagens. E foi um desafio muito grande trabalhar esse texto com o Sébastien porque é um texto extremamente naturalista, quase cinematográfico. Mas tudo que foi usado como muleta para nos ajudar no começo (xícara, copo), o Sebastién tirou. Ele colocou duas atrizes num espaço com a mãe, que é o baú – essa é a simbologia. Está sendo um desafio muito maravilhoso – e penoso às vezes. A crise acontece não só entre as personagens, mas com as atrizes também. Mas é maravilhoso.

 

Serviço:

As Irmãs Siamesas

Temporada a partir de 5 de outubro até 12 de dezembro de 2018
Apresentações: Sex, 20h30 | Sáb, 20h30 | Dom, 19h.
Local: Teatro Aliança Francesa R. Gen. Jardim, 182 – V. Buarque
Vendas: Ingresso Rápido

 

 

 

28.9.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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