Entrevista – Elias Andreato fala sobre o espetáculo Amor em 79:05″

Na peça Amor em 79:05, Josemir Kowalick interpreta um escritor maduro que atravessa uma fase solitária. Em processo criativo para um livro, ele imagina o encontro com um rapaz (Eduardo Ximenes) e inventa um cotidiano para esse relacionamento. Em entrevista ao Guia de Teatro, Elias Andreato fala do espetáculo, que adaptou do livro de Vinícius Marquez e que também dirigiu.

 

Foto: Rodrigo Chueri

Guia – Dizem que escritor é a profissão mais solitária que existe. Ele acaba buscando a companhia dos próprios personagens? É essa solidão a peça nos mostra?
Elias – O personagem está escrevendo ao mesmo tempo em que está falando dessa solidão, das possibilidades do encontro com o outro. Fica para o espectador a interpretação. Aquilo é uma obra de ficção ou é o que ele está vivendo? Eu acho que isso é um pouco o que todo escritor vive. O texto é uma ficção, mas ele se transporta pro lugar daquele personagem, ele vivencia aquilo. Acho que todo escritor se coloca um pouco na sua viagem criativa. O tempo que fica em casa, escrevendo, fantasiando, inventando uma história, ele acaba deixando de viver a dele. Então ele passa a viver um pouco através da ficção. Mas a peça também fala dessa solidão que a gente vive hoje em dia, que tem um modus operandi diferente. Antigamente a gente não tinha tantas possibilidades. Era a máquina de escrever e o telefone. Hoje é a internet e o smartphone e o que a gente mais ouve falar é sobre essa solidão de quem está sempre online, mas sozinho. Você não fala mais com o outro. Você conversa pelo Whatsapp. Você está na sua casa, eu na minha e eu te envio um áudio. Não é nem uma conversa. Cada um manda o áudio na hora que pode. A gente vai se habituando e achando normal. Hoje mesmo eu passei por isso. De manhã bem cedo uma pessoa me passou um áudio e eu ouvi. Eu mandei um áudio pra ela e pensei “Que louco, né? Se eu estava acordado e ela estava acordada, porque não nos ligamos e conversamos? É estranho.” Essa solidão do estar no meio de todos e não ver ninguém é muito assustadora. A peça também fala sobre isso.

 

Guia – Por que você escolheu esse texto para trazer pro palco? O palco também é um lugar solitário?
Elias – Primeiro porque eu me identifiquei com a solidão do outro. Isso é básico. Quando eu li o livro do Vinícius, eu vi que ele conseguiu registrar exatamente o que eu penso sobre isso. Teve uma identificação imediata. Aí eu vim dirigir a peça. Juntei a solidão dele com a minha, com a dos atores. Aí a gente começa a falar dessa solidão que é de todos e de cada um. E o palco é sim um espaço solitário. É muito propício para falar sobre isso. O Teatro também tem essa coisa da imaginação, porque você idealiza sempre o amor dentro da sua solidão. Você está sempre esperando que o outro vai chegar e transformar a sua vida. No Teatro isso é concreto. Às vezes você fala sozinho, fala com você mesmo a respeito de uma coisa que não está acontecendo. E essa conversa é concreta. Às vezes você discute com uma pessoa sem que ela esteja presente e você se pega emocionalmente alterado só pela possibilidade daquilo acontecer. É um pouco isso. Você idealiza aquele encontro, você visualiza a pessoa, mas você não consegue apalpar. Fica só na sua imaginação. É isso que a gente faz no Teatro. Porque o personagem não existe. Você cria, materializa ele. Você materializa todas as suas emoções, o seu encontro com ele, e quem está de fora pode até acreditar que aquilo é de verdade. Por isso, em cena, eu posso conversar com uma pessoa com todo o ódio que eu consigo direcionar para ela – ou com todo o amor – e aquela pessoa pode nem existir. Essa imagem que eu crio é real para quem está vendo. E acho que é um pouco isso que o personagem do Jô (Josemir Kowalick) tem como escritor. Ele está escrevendo, está idealizando e vivendo aquilo, falando no plano real para aquele outro personagem. E depois ele se dá conta de que aquilo é o processo criativo.

 

Guia – Você também concebeu o visual da peça, certo?
Elias – Sim. Quando eu li o livro, eu pensei nessas imagens. Quando eu fui adaptando, eu fui pensando exatamente nisso, nessa fantasia. Como o Teatro é um centro criativo e a gente já viu muita peça onde ele se mistura com a realidade, com a quebra, onde se rompe a quarta parede e se fala com o público e volta para a cena, eu fiquei imaginando isso. Esse personagem trancado num quarto escuro, pouco iluminado, idealizando esse amor naquela cama vazia. Esse jogo foi se tornando concreto. Eu fui criando imagens, desenhos corporais, para que ele contasse essa história. E essa leitura tanto pode ser o personagem mais velho que narra ou o jovem que está na cama só pensando, porque tudo aquilo pode estar na cabeça de um e não na do outro. É sutil. Tem gente que vê e fala “nossa, não tem nada a ver”, e tem outros que dizem “nossa, que legal”. Vai depender muito da viagem de cada um.

 

Guia – Estamos falando sobre a solidão, mas a peça também é sobre o amor.
Elias – Sim. E falar sobre amor, independente de qualquer texto, de qualquer autor, é sempre muito pertinente. Todo mundo está sempre sonhando com a possibilidade de amar. Mas amar é muito difícil. É um jogo muito delicado. Todo mundo quer estar com alguém, encontrar alguém, mas às vezes você não sabe lidar com o outro. Você nem sempre está disponível para o outro. Quando a gente fala de aceitar a diversidade, como discurso, é tudo muito bonito. Fala-se muito em empatia. Mas, concretamente, isso acontece? Às vezes sua reação é diferente do discurso. Se o Teatro ocupa o espaço para falar de amor num tempo tão árido, tão difícil, tão dividido, então ele está cumprindo o seu papel.

 

 

Serviço:

Amor em 79:05″

Temporada a partir de 7 de março
Apresentações: Sáb, 21h | Dom, 20h
Local: Giostri Livraria Teatro Rua Rui Barbosa, 201 – Bela Vista
Garanta o seu ingresso: Sympla
 
 

28.2.2020
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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