Entrevista – Danielle Winits fala sobre interpretar Marilyn Monroe na peça “Parabéns senhor Presidente”

Nova York, Madison Square Garden. Aniversário do presidente Kennedy. Após sua famosa apresentação, Marilyn Monroe encontra-se nos bastidores com a soprano Maria Callas. A peça Parabéns Senhor Presidente mostra um longo diálogo entre essas duas mulheres fascinantes, que, por motivos diferentes, tiveram grande projeção e finais trágicos. O Guia de Teatro conversou com a atriz Danielle Winits, que interpreta Marilyn na peça.

 

Danielle Winits e Christiane Fernandes na peça "Parabéns senhor presidente"

Foto: Pino Gomes

Guia – Você interpreta a Marilyn Monroe mas, ao mesmo tempo, a mulher que existe por trás desse mito.
Danielle – O Fernando Duarte e a Rita Elmôr, autores do texto, falam mais da Maria e da Norma Jean (nome verdadeiro da Marilyn). Esta é uma peça de teatro sobre mulheres que sustentam suas escolhas diante da sociedade, mesmo quando são criticadas por essas escolhas. É a constatação da força de duas mulheres independentes profissionalmente e que colocaram também o amor como objetivo de felicidade, ainda que o preço tenha sido decepção e solidão. Nesse texto ficam claras e mais do que evidentes as posições firmes e de vanguarda dessa mulher que nem sempre era respeitada em sua totalidade, em sua pluralidade. Marilyn estava à frente daquele tempo de opressão absoluta a tudo que vinha do feminino. Dançava conforme a música para o mundo explorar. Porém, de perto e para os seus, a música que tocava era só a dela, calcada na melodia harmoniosa de seus ideais feministas e políticos. Lá em 1962, ela debatia temas ainda em pauta nos dias de hoje. A Marilyn acabou acreditando nesse ícone, em prol do seu trabalho, mas a Norma Jean era uma mulher como outra qualquer, sonhadora, batalhadora, guerreira, dona de si, dona de suas vontades e dos seus sonhos. Ela buscou isso, buscou uma família a vida inteira, quis muito ter filhos, mas infelizmente não foi possível. Acho que eu acabo me identificando muito mais com a mulher que sempre batalhou, independentemente de ser artista, por ter uma vida particular equilibrada e com a família. Felizmente eu tive os meus filhos. Marilyn não conseguiu ter os dela, mas no sentido mais amplo da palavra, como o símbolo sexual que ela foi, ela mais se deixou levar, já que foi isso que foi oferecido pra ela na época. Ela não conseguiu muito quebrar esse padrão e eu acho que hoje em dia as mulheres estão com muito mais força e muito mais intenção de quebrar os padrões. Na verdade, eu nem acho que seja uma intenção. Acho que já é uma colocação da mulher hoje em dia, essa quebra de preconceito, quebra de padrão, essa quebra do ciclo vicioso que foi imposto em cima da mulher. A mulher pode ser mulher sem ser julgada preconceituosamente por ser loira, bonita ou enfim. Nesse aspecto acabo me identificando também. Sou uma batalhadora das minhas vontades, dos meus voos, e acho que nesse aspecto muitas mulheres acabam se identificando com Marilyn também.

 

Guia – A peça parte de um encontro real entre as duas? Como isso se desenvolveu dramaturgicamente?
Danielle – Esse encontro, de fato existiu. Essas duas mulheres icônicas se conheceram nos bastidores de um evento que mudou para sempre as suas vidas. Callas e Marilyn posaram para os fotógrafos e, ao assistir a apresentação de Maria Callas – a primeira artista a se apresentar naquela noite – Marilyn se aproximou dela e disse “Somente uma pessoa que conheceu o amor verdadeiro, consegue cantar como a senhora. Mas vejo tanta tristeza no seu olhar.” Callas, foi grosseira e respondeu “Se a senhorita pensa que pode falar tudo o que lhe vier à cabeça apenas por ser Marilyn Monroe, está enganada.“ Depois de assistir à apresentação da atriz, Callas ficou comovida e, no dia seguinte, enviou uma orquídea para Marilyn. O cartão dizia “A senhorita é uma boa alma, eu não soube compreende-la, peço que me perdoe”. No espetáculo, Callas vai até o camarim, e é a partir do pedido de desculpas que a dramaturgia acontece. A peça tem algumas projeções de vídeos, com fragmentos das personagens. É um grande quebra-cabeças que vai se montando e, ao final do espetáculo, o público finalmente se depara com a imagem real das duas e também das apresentações dos demais convidados, da Ella Fitzgerald, do Sinatra, do Presidente. Isso ajuda o público a se localizar na história.

 

Guia – Você também interpretou Marilyn na peça ‘Depois do Amor’. Qual as diferenças e as similaridades dessas duas personagens?
Danielle – Fiquei quase três anos em cartaz pelo Brasil com “Depois do Amor, um encontro com Marilyn” e o Fernando Duarte (autor) me perguntou se eu faria Marilyn novamente em um outro momento da vida dela, num novo espetáculo, dessa vez ao lado de Maria Callas, em um encontro entre as duas. Li o texto e achei tão profundo e incrivelmente atual quanto o primeiro espetáculo que fizemos. Creio que caminharemos para uma trilogia. Minha bagagem é grande e vasta como Marilyn. Já assisti a todos os filmes e docs. Livros, foram muitos ao longo da vida, inclusive. Continuo sempre revendo tudo. Gosto desse espetáculo, pois ele me permite trazer uma Marilyn menos caótica do que a primeira que fiz. A troca entre Callas e ela é intensa. É atual. É um diálogo franco entre mulheres que estavam à frente do seu tempo. Na primeira peça, Marilyn estava em casa, em seus últimos dias de vida, bastante devastada psicologicamente e com o emocional em queda livre. Neste espetáculo ela ainda está mais esperançosa. Mais leve. Ainda assim, o medo e a paranoia já se encontram presentes.

 

Guia – Como você sente que o público recebe a peça?
Danielle – O espetáculo é muito feminino, mas não é apenas para as mulheres. É um espetáculo também para os homens. São muito importantes as questões que a gente trata ali, sobre as quais as duas conseguem conversar. Elas conseguem arrancar suas próprias máscaras de mitos e revelar as mulheres que elas foram, que elas eram naquele momento, já com uma postura tão de vanguarda, tão avançada pra época e tão necessária nos dias de hoje principalmente. Então, mulheres e homens que gostem de teatro, que gostem de se questionar e de sair do espetáculo pensando, sorrindo e se emocionando, venham! Com certeza é uma apresentação emocionante, engraçada, cheia de surpresas boas, cheia de assuntos pra depois do espetáculo!

 

 

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Serviço:

Parabéns Senhor Presidente

Em Cartaz até 1º de março de 2020
Apresentações: Sex, 21h30 | Sáb, 21h | Dom, 20h
Local: Teatro J Safra Rua Josef Kryss, s/n – Barra Funda
Garanta o seu ingresso: Eventim

31.1.2020
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

3 Comentários
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