Entrevista – Chica Portugal, Dan Rosseto, Paulo Gabriel falam sobre o espetáculo “Visceral”

O espetáculo Visceral é uma obra que extrapola o palco e leva a plateia a viver uma experiência imersiva. O Guia de Teatro conversou com Chica Portugal (Pesquisa e iniciativa teatral), Dan Rosseto (Direção Cênica) e Paulo Gabriel (direção imersiva), para saber mais sobre o projeto.

 

Guia – Visceral é um espetáculo que literalmente vai além do palco, com a exposição imersiva e o ciclo de bate-papos na Casa Dona Yayá. Como essas atividades se complementam? 
Paulo – Visceral, nesta montagem inédita, tem uma concepção em formato de instalação intermidia, ou seja, é um espetáculo que transborda linguagens artísticas para que o espectador possa ‘’entrar’’ nos temas da peça de maneira mais entregue e não com tantos pré julgamentos. Fazer uma peça de suspense não é fácil, por isso escolhemos um olhar múltiplo para impactar as pessoas com diferentes sensações, desde o olhar lúdico (caso da instalação) até o do conhecimento (caso do ciclo dos debates e palestras).

 

Guia – A peça faz um paralelo da arte com a loucura pessoal e, ao mesmo tempo, com a loucura coletiva, social. Como é a relação dessa metavisão da arte e da sociedade com a obra teatral que vai pro palco? Como esses temas foram trabalhados na construção dos personagens teatrais?

Foto de capa Thais Boneville

Dan – O espetáculo Visceral propõe a discussão dos limites, se é que há um limite para a arte e para crítica. Essa relação entre crítica e obra de arte é um ciclo bem vicioso porque, quanto mais a crítica aponta o dedo, mais a arte vai ferir o crítico. Os seres humanos estão sempre em busca de respostas e, quanto mais o ser humano vai ficando doente, mais catástrofes naturais, ambientais, são provocadas pelo próprio homem contra a humanidade, contra si mesmo, contra uma instituição. Enfim, quanto mais o ser humano vai buscando resposta religiosa, quanto mais mergulha pra dentro da sua própria loucura, quanto mais ele se conhece, quanto mais ele busca esse tipo de respostas, mais ele vai abrindo mais brechas para outras buscas e outras loucuras. Visceral, pra mim, trata desse tema. O metateatro que existe, do teatro consumindo o teatro, e a obra de arte se transformando em teatro e ao mesmo tempo propondo essa relação crítica, isso está presente no espetáculo inteiro através desse pintor que trabalha com essa expressão tão visceral e tão humana. Ele parte da loucura dele para construir uma loucura coletiva e isso é muito bonito no espetáculo. Uma outra abordagem importante de tratar em Visceral é como os quatro pilares dos personagens protagonistas da obra acabam dialogando com essa loucura e com essa necessidade de algo para poder preencher a vida deles.

Tem o personagem do Jordão, que é o crítico, e que acaba usando do conhecimento dele, da análise que ele faz de uma obra, para poder se proteger e, ao mesmo tempo, ganhar poder em cima dos outros personagens. Então tem a crítica, que está acima de tudo e que pode considerar algo de qualidade boa ou ruim e, de uma certa forma, está acima de qualquer suspeita, e tem a doença dele, a dependência dele.

Ele é uma obra de arte imperfeita. Ele tem uma doença degenerativa que está fazendo com que perca a capacidade de pensamento, de raciocínio. Logo vai estar atrofiado e, depois de um tempo, não vai mais conseguir exercer a função dele. É muito interessante você perceber que a figura da crítica está morrendo. E hoje isso acontece muito no nosso país. Nós não temos mais o crítico, os veículos perderam o espaço.

O próprio João Gabriel, que é o pintor, tem essa questão da esquizofrenia, que são os vários “eus”. Quem sou eu? Quem somos nós? Quem habita dentro de mim? Quantos somos? O quanto a gente se divide em mil? Tem hora que eu sou pai, tem hora que sou artista, amante, filho, mentiroso, maluco, tem hora que quero fugir de tudo. Quantos somos nós nesse universo? O quanto é interessante perceber que essa esquizofrenia do João Gabriel é uma doença – pois existe algo ali a ser tratado – mas que poderia estar em todo mundo? E o quanto as pessoas acabam ficando doentes por não serem aquilo que elas querem? Temos a Angélica que é uma usuária de drogas, e ela traz todo esse universo que hoje é completamente atual, das dependências químicas, das pessoas que acabam usando alguma substância para poder mascarar a vida, para poder mascarar a dor e, consequentemente, vai fazer doer mais. E o quanto ali naquele ambiente, naquele atelier, ela é perfeita para o que o João Gabriel precisa, que é virar uma obra de arte. O quanto ela talvez não tenha valor no universo onde ela já foi inserida, que é a família, o convívio social com pessoas que fazem parte do círculo dela, mas ali ela ganha um novo sentido. E por fim a personagem da Alice, que é uma espécie de governanta que cuida daquela casa e do João Gabriel, e que é a figura que na verdade vai limpando a sujeira. São as figuras nossas que acobertam os erros, que acabam sendo o nosso anjo e demônio, mas que ao mesmo tempo sempre nos protegem. Até o meu demônio, no final das contas, vai querer me proteger. Por mais que ele me coloque numa situação de risco, por mais que ele me coloque numa situação de prazer, no fim ele vai buscar a minha proteção.

Esses personagens dialogam entre si no aspecto todo do espetáculo que é completamente teatral dentro dessa dinâmica tão intensa deles, onde eu tenho esses 4 pilares que trazem dentro da obra, não só dita, que é o texto da Nanna, mas também da obra que vai pro palco e que se transforma em teatro. Eles acabam dando essa temperatura e deixando muito quente e viva essa relação que se mistura com a doença de cada um, com os anseios, sonhos, loucura e que desemboca na arte. E eu sempre digo isso: a nossa arte é a expressão da nossa dor. Muitas vezes potencializada. Às vezes menos, mas está tudo lá.

 

Guia – Hoje em dia existe uma discussão acirrada sobre o que é e o que não é ARTE. Realmente há uma linha muito tênue nessa distinção? Como a peça aborda isso?
Chica – Sim, tênue e complexa. A peça aborda esta discussão ao tratar feridas sociais (cracolândia, dependência química, doenças degenerativas) como matéria-prima de construção criativa da personagem mote, no caso um artista plástico. A peça instiga perguntas para gerar reflexão sobre a arte, mas também, em tom ácido, coloca nas bocas e ações das personagens críticas sobre a “civilização do espetáculo”. Uma arte light, segundo Vargas Llhosa, propaga conformismo através de suas piores manifestações: a complacência e a autossatisfação. Propomos quebrar o light, e “visceralizar”. Deu certo? A crítica então ficará a cargo do espectador.
Paulo – Na arte, existe um ‘’modus criativo’’ para conceber. Porém, cada artista tem o seu ‘’modus’’. Logo, o que é apreciado e julgado pelos que a consomem é o resultado e não o processo. E a instalação apresenta a fisicalidade disso: na exposição você vê a obra final e na peça, o processo para se conceber aquelas obras. As linhas do nonsense com requintes de crueldade são explicitadas aos espectadores como testemunhas de um processo visceral; hoje quase tudo pode ser visto como arte. Basta colocar uma lupa dizendo que o é, com aval de gente especializada. E com certeza haverá interessados em avaliar aquilo sob essa ótica.

 

Guia – O formato apresentado pelo projeto busca tirar o espectador de uma zona de conforto em que ele muitas vezes se coloca diante da arte?
Paulo – Sim e não. O espetáculo propõe evidenciar e tirar o eixo ‘’viciado’’ de se consumir um produto cultural. É tornar o espectador mais curioso, mais integrado e não dissociado da obra. É gerar envolvimento de forma interessante, instigante e que abra um canal de comunicação extra para o espectador ser impactado mais fortemente pela mensagem da peça e da instalação.

 

Serviço:

Visceral 

Temporada a partir de 7 de setembro de 2019
Apresentações: Sáb, 18h | Dom, 18h | Seg, 21h
Local: Estação Satyros Pça. Roosevelt, 134 – Centro
Vendas: satyros.com.br

30.8.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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