Entrevista – Cassio Scapin está em dois espetáculos em São Paulo

O ator Cassio Scapin está atuando em dois espetáculos na cidade São Paulo. Em A Noite de 16 de Janeiro ele é dirigido por Jô Soares em uma peça que se passa em um tribunal e que conta com pessoas da plateia para formar o júri que escolhe o final da trama. Em Admirável Nino Novo ele revive o icônico personagem de 300 anos que agora se aventura em busca de novas experiências. O Guia de Teatro conversou com o ator.

 

Guia – Esta é a terceira peça em que você é dirigido pelo Jô Soares. Como é essa relação com o Jô diretor? 

Cassio Scapin entrevista exclusiva

Crédito: Priscila Prade

 
Cassio – O Jô é um diretor muito aberto. Ele sabe muito bem o que quer. Quando começa a dirigir um espetáculo, ele já tem tudo muito bem estabelecido dentro da cabeça – qual será a dinâmica do espetáculo e o que ele deseja da peça. Ele faz um longo período de trabalho de leitura de mesa, onde estabelece as normas dos personagens. E quando a gente começa os ensaios, os atores têm liberdade de ir aplicando também a sua assinatura, a sua impressão, dentro dos personagens que estão fazendo. Em “A Noite de 16 de Janeiro” nós temos um elenco enorme – são 16 personagens ao todo, contando o juiz que era feito pelo próprio Jô. O personagem agora é interpretado por Paulo Marques, que antes fazia o papel do médico. No texto original os personagens entram, dão seus depoimentos e depois se retiram. O Jô fez a opção de manter todos os personagens no palco, assistindo ao espetáculo, numa mescla entre personagem e ator. Essa foi uma opção estética da direção.

 

Guia – E essa chancela de humor que o espetáculo mostra claramente?
Cassio – É claro que o texto original é muito menos humorado do que o espetáculo com a concepção do Jô. O Jô tem uma assinatura de humor. Ele é ator, diretor, humorista e comediante. Então, o espetáculo tem essa pitada de brincadeira, do jogo da direção. A peça é estruturada dramaturgicamente como um melodrama ou um filme noir. É uma peça de tribunal, com todo o peso do tribunal, mas tem pequenas pitadas muito específicas de humor. Esses pontos de respiro e de humor leve são uma característica da dramaturgia americana. O Jô ressaltou ainda mais esses pontos, para aproximar a plateia desse texto que é do período histórico americano e que, coincidentemente, acaba dialogando bastante com o nosso momento histórico, com toda essa discussão a respeito da justiça e da lei. E tem também essa coisa muito interessante que é pensar “Afinal, pelo que as pessoas são realmente julgadas?” A personagem da peça está sendo julgada por um crime ou por uma condução moral? A ré é a secretária de um banqueiro milionário, que vive nesse ambiente da elite. Do outro lado está a mulher do filho do banqueiro. Então, a gente está num ambiente onde todos transitam nessa região de poder. Mas mesmo assim, existe esse matiz diferente na discussão. Afinal, a gente está julgando por fato ou por moral?

 

Guia – O veredicto final acaba sendo dado por representantes da plateia. Essa é mais uma experiência democrática que o teatro proporciona?
Cassio – Sem dúvida! E acho que, mais que uma experiência democrática, esse exercício serve para lembrar as pessoas que elas estão sempre decidindo sobre alguma coisa. A gente está vivendo um clima de eleição e é inevitável se deparar com esse momento de decisão, por mais difícil que ela pareça. A melhor brincadeira desse espetáculo é lembrar que as pessoas estão em um julgamento, que há muitos depoimentos e que elas devem olhar detalhadamente para cada questão, para os diversos pontos de vista levantados por essas novas questões, para poderem tomar uma decisão. É um olhar de 360 graus. Esta eu acho que é uma das funções do teatro. Ele te mostra possibilidades e versões de uma questão que eu acho que as pessoas devem levar em conta. Mostra que tudo tem vários pontos de vista e que a gente deve tentar olhar pela maior angularidade possível para tomar uma decisão.

 

Guia – Você está atuando em dois espetáculos ao mesmo tempo em São Paulo. Além de A Noite de 16 de Janeiro, você retornou com “Admirável Nino Novo”. Como está sendo essa experiência?
CassioAdmirável Nino Novo é um espetáculo muito querido porque é a retomada de um personagem que eu fiz durante muito tempo da minha vida e foi muito importante para mim e para a minha carreira. Mas ele está retornando de uma maneira diferente. Agora é um solo. Eu fico brincando que é um solo existencialista para criança (risos). Essa trajetória do Nino é um questionamento sobre o tempo. Como é que o tempo passa tão depressa e pra onde é que ele vai com tanta pressa. Nino é uma criança que não cresce no tempo normal das outras crianças. Todas as crianças da geração dele já passaram. Ele continua sozinho no castelo e continua sem amigos. É um espetáculo que tem muitas pequenas sutilezas e questões levantadas. A partir desse menino, ele levanta questões como “Por que a gente tem problemas com as pessoas que são diferentes?” Ser diferente é bom. As pessoas só são interessantes porque são diferentes. Imagine se todo mundo fosse igual, que sem graça que seria. Se por um lado, no espetáculo adulto a gente está abrindo uma coisa mais séria, de peso, que é um julgamento, e falando sobre as várias possibilidades de escolhas, também no espetáculo do Nino a gente fala “Olha, aceite as pessoas. Vamos experimentar, vamos ter experiências, vamos aprender, vamos sair pela vida. Não tenha medo de se aventurar, não tenha medo das novas experiências, não tenha medo das novas coisas, porque isso é o processo de crescimento – mais lento ou mais rápido – que é diferente para cada um”. É importante estar aberto para as aventuras, porque assim a gente se transforma.

 

Admirável Nino Novo

Temporada até 9 de dezembro de 2018
Apresentações: Sáb, 12h | Dom, 12h
Local: Teatro Sérgio Cardoso R. Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Vendas: Ingresso Rápido 

 

A noite de 16 de janeiro

Temporada a partir de 14 de agosto até 11 de dezembro de 2018
Apresentações: Sex, 21h30 | Sáb, 21h | Dom, 19h
Local: Teatro Tuca R. Monte Alegre, 1024 – Perdizes
Vendas: Ingresso Rápido

31.8.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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