Entrevista – Cassio Reis e Carla Diaz falam sobre a peça “Em casa a gente conversa”
Uma história de amor não tem que ser necessariamente um conto de fadas. Na peça “Em Casa a Gente Conversa” isso fica bem claro. Malu e Carlos Alberto, aos olhos de muitas pessoas, formam um casal perfeito. Mas o cotidiano mostra as pequenas rachaduras que podem fazer um casamento desmoronar. Em conversa com o Guia de Teatro, os atores Carla Diaz e Cássio Reis falaram sobre o desafio de levar essa história para o palco.

 

Crédito foto: Bruna Grassi

Guia – O Cássio já estava nesse projeto desde o começo. Como surgiu o convite para você participar da peça aqui em São Paulo? 
Carla – O Fernando Duarte e o Cássio entraram em contato comigo e me apresentaram o texto. O Fernando é o autor e produtor. Ele já tinha me convidado para outros espetáculos dele mas, por conta de outros trabalhos, a gente nunca teve a oportunidade de estar juntos num projeto. Dessa vez deu super certo. Quando eu li o roteiro pela primeira vez, vi que era bem diferente de tudo o que eu já tinha feito. Acho que o que estimula um artista é essa renovação, essa reinvenção, essa busca por uma parte de nós que às vezes nem conhecíamos.

 

Guia – Interpretar um casal no teatro pode ser perigoso, porque sempre existe a chance dos clichês estragarem tudo. No entanto, vocês formam um casal muito crível no palco. Como vocês construíram essa relação?
Cássio – Uma peça de casal ou uma dupla é contrastante na delicadeza. Ela pode dar muito certo ou ser um desastre. A gente se conhece há algum tempo, mas nunca fomos próximos. Já fui a espetáculos que a Carla fez, mas nunca havíamos trabalhado juntos. Tivemos pouco tempo de ensaio. Pouco tempo mesmo. Dez dias. A gente estava se falando há um mês e meio desde que batemos o martelo que ela faria a peça. Nesse pouco tempo, além de ensaiar, além da importância de estar com o texto, de falar sobre os personagens, a gente sempre conversou sobre qualquer coisa de uma forma muito natural. Não tinha escolha do assunto. Simplesmente acontecia durante e fora dos ensaios. E isso tudo foi gerando uma certa afinidade, porque você começa a escutar a pessoa, a conhecer a pessoa e a personagem, e saber distinguir as duas muito bem. Isso é muito importante. Essa afinidade e esse testemunho na coxia cicatrizam no palco.

Carla – Quando você tem uma pessoa que está disposta a fazer, a ser parceiro, seja em cena ou para te ouvir no camarim, nos bastidores, a coisa dá certo. Eu e o Cássio sempre conversamos muito. Então, eu acho que essa intimidade acabou acontecendo naturalmente. Nós dois somos atores, de São Paulo, nós dois produzimos. Nós temos muita coisa em comum e acho que isso pode ter ajudado para haver uma forte identificação, o que obviamente contribuiu com o espetáculo. E nós também fomos guiados por um diretor incrível – o Fernando Philbert. Ele soube aproveitar essa identificação que nós atores tínhamos. Ele nos ajudou muito nessa linha.

 

Guia – A atriz Grace Gianoukas tem uma participação muito divertida em vídeo, como a mãe da personagem Malu. Como é essa relação com essa personagem externa?
Carla – É um dos momentos em que o público mais dá muitas gargalhadas porque ela fala algumas verdades e as pessoas se identificam. Ela fala com muita naturalidade sobre coisas surreais como “você tem que ter a senha do seu marido pra toda semana verificar o celular dele”. Isso poderia até ser um acordo natural entre o casal, mas uma mãe falar isso, ainda mais nos dias de hoje… Teoricamente, a filha teria que dar esses conselhos tecnológicos para a mãe, sobre internet, sobre senhas e celulares. Mas não. É uma pessoa mais velha te dando conselho sobre tecnologia. É o inverso. E essa interferência acontece de uma forma muito divertida. A Grace dá um show.

 

GuiaApesar de ser uma comédia, a peça se aproveita dessa leveza para passar uma mensagem muito forte sobre relacionamento, preconceito, respeito. Como vocês sentem a resposta da plateia?
Cássio – Eu gosto muito dos silêncios que acontecem no meio do espetáculo. Em diversos momentos a gente consegue escutar esse silêncio, escutar o que o público, de uma forma geral, está pensando naquela fração de segundo, como uma reflexão da fala que acabou de acontecer. Eu acho que, antes de passar qualquer ideia, por mais que a peça seja uma comédia leve, com uma mensagem leve mas importante, nós, atores, temos que entender esse tipo de mensagem e o que está sendo falado. Se a gente entende, a gente consegue entregar de uma forma natural, leve, para que cada um tenha sua interpretação durante aquela reflexão. E como a gente vê na peça, qualquer lapso, qualquer deslize, qualquer mínimo escorregão pode ser fatal para uma relação que está perdurando com altos e baixos, mas sempre ultrapassando as barreiras. Para mim, a conclusão dessa peça é que o amor é muito frágil.

Carla – No final a gente sempre sai para falar com o público e acaba recebendo um grande feedback. Os homens saem muito reflexivos. Alguns falam sobre coisas que viram na peça e que os fez refletir sobre como nunca tinham se colocado no lugar de uma mulher. Isso é um ponto muito positivo, porque o espetáculo tem essa mensagem. Ele mostra os dois lados de uma relação de uma forma leve e que, talvez, no dia-a-dia a gente não enxergue por conta da rotina, e talvez também por conta dessa criação que a gente já vem vivendo há muito tempo. Durante o espetáculo a gente percebe o clima na plateia. Os casais se olhando, se cutucando. É engraçado que algumas mulheres não querem tirar foto ao lado do Cássio, no final (risos). Ficam meio bravas com o personagem e descontam nele.

 

Guia – Mas apesar dos desencontros, a peça é sobre o amor.
Cássio – Eu sempre digo que essa peça é uma linda história de amor. Todo mundo pensa que em uma história de amor é tudo bonito. Mas quantas vezes você sofreu por amor, você renunciou a alguma coisa por amor? Por amor ao seu trabalho, por amor à sua família. A história de amor desse casal e o caminho que ela toma são muito especiais. Essa peça também é sobre amor próprio. Vale a pena assistir. Tenho certeza que o público vai se surpreender!

 


Serviço:

Em casa a gente conversa

Temporada até 26 de maio de 2019
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 19h
Local: Teatro MorumbiShopping Av. Roque Petroni Júnior, 1089 – Piso G1
Garanta seu ingresso: Livepass

 

30.4.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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