Entrevista – Cacau Protásio fala sobre a comédia “Deu a louca na Branca”

Com texto de Cacau Hygino e direção de Regiana Antonini a atriz Cacau Protásio sobe ao palco para interpretar Sebastiana, uma mulher que garante ser a verdadeira Branca de Neve. Em entrevista ao Guia de Teatro, a atriz falou sobre o espetáculo e sobre o preconceito que ronda o mundo dos super-heróis e dos personagens infantis.

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Crédito: Janderson Pires

Guia – Esse texto foi escrito especialmente para você?
Cacau – Na verdade, o Cacau Hygino escreveu sem saber para quem seria, mas quando ele me conheceu disse que o texto tinha que ser interpretado por mim, que era a minha cara. E realmente, quando eu o interpreto, me identifico muito. Na primeira leitura eu já ria o tempo todo. É um texto que eu gosto de fazer porque fala da realidade de uma forma sutil, engraçada. Ele fala de preconceito e de beleza, mas com muito humor. E é muito engraçado, porque eu falo que a Branca de Neve me rodeia. Há três anos eu fui convidada para desfilar na comissão de frente da União da Ilha, de Branca de Neve. O enredo falava de beleza pura. E aí eles me colocaram como Branca de Neve, que não tem nada a ver – porque as pessoas esperariam uma pessoa branca, de bochechinha rosa e cabelo liso – e botaram como a rainha má uma menina com as características da Branca de Neve tradicional. As pessoas esperariam o contrário. Foi nessa época que o Cacau me fez o convite para fazer o ‘Deu a Louca na Branca’. Antes de ler o texto eu já aceitei. Depois que eu li, então… Eu disse pra ele que se tirasse o texto de mim, eu batia nele (risos). A Branca de Neve me persegue. E agora eu estou fissurada. Em todo lugar que eu vou, eu compro coisas da Branca de Neve – blusa, boneca, caneca… Voltei a ser criança.

 

Guia – Por falar em criança, a personagem lembra muito essas crianças que se vestem de princesa, de super-herói, e agem como se realmente fossem o personagem. Você buscou essa fantasia infantil para compor a sua Branca de Neve?
Cacau – Só hoje eu pude fazer isso realmente, me sentir uma princesa. Porque quando eu era criança não existia nenhuma boneca, nenhuma princesa com quem eu me identificasse. Não tinha nenhuma princesa negra, nenhuma princesa gordinha. Há alguns anos atrás surgiu uma princesa negra, acho que a Tiana, do filme ‘A Princesa e o Sapo’, e só então as crianças puderam ver essa diversidade. Só que a Disney, as pessoas que criam esse reino encantado, o mundo, deveriam ficar mais atentos, porque existe criança gorduchinha, japonesa. Eu acho que deveria haver todos os tipos de princesas, para as crianças se identificarem. Eu nunca tive isso quando criança. Então não me identificava com nada nem com ninguém. A mesma coisa com os super heróis. Eu nunca fui apaixonada por nenhum deles. Eu não era apegada a nenhum desenho da Disney, nenhum filme, nada. E só depois de adulta, agora, é que eu consigo me identificar e ver que eu realmente posso ser uma princesa. Então, quando estou no palco eu acredito que sou a Branca de Neve, que eu fui escondida durante anos e que agora as pessoas vão conhecer a minha verdadeira história.

 

Guia – Inclusive você brinca com isso na peça. Dá uma cobrada no Walt Disney.
Cacau – Também. É um “alooooouuuu!”. Por que ele teve que me esconder? Por que ele não me mostrou do jeito que eu era? Por que ele teve que me transformar? E agora que eu cresci, que eu sou adulta, que eu me sustento, eu vou contar tudo o que ele fez comigo. No espetáculo eu falo “aqui se faz, aqui se paga” (risos).

 

Guia – E quem é a Sebastiana? Quem é essa personagem por trás da Branca?
Cacau – A Sebastiana é uma mulher que foi oprimida na sua infância, oprimida na sua juventude, e só agora ela faz tudo que quer. Ninguém nunca a ouviu, ninguém nunca deu atenção pra ela. Ela perdeu a mãe cedo e a madrasta não era uma pessoa boa. Então ela meio que surta um pouquinho. Vive no mundo dela, num mundo em que ela acredita. Ela vive uma felicidade particular, uma tristeza particular. É o mundo dela, para onde ela chama todo mundo.

 

Guia – Como é fazer um espetáculo inteiro, sozinha no palco?
Cacau – Eu tive muito medo, um medo muito grande. Na verdade, eu tenho ainda, porque não passou (risos). Mas graças a Deus, por todos os lugares por onde eu passei as pessoas riram muito. No final tem sempre uma fila enorme de pessoas para tirar fotos, dar os parabéns e dizer que foi um arraso (risos). Ouvir isso é muito bom. Eu achava que eu não seria capaz de fazer um monólogo porque sempre trabalhei com outros atores. Se eu esquecesse algo, tinha sempre alguém para me lembrar. Eu tinha sempre uma mão para segurar, um outro ator para dividir. Mas ao mesmo tempo em que dá um medo muito grande, está sendo maravilhoso porque tudo está na minha mão. Eu faço do jeito que eu quero, na hora que eu quero. Eu boto texto, eu troco texto, eu troco a ordem das coisas, mas sem prejudicar a peça. E conforme a plateia vai ficando mais séria ou mais descontraída, eu vou controlando o espetáculo. O teatro tem isso de bom. A gente tem o feed back na hora. Fazer monólogo é fácil? Não. É maravilhoso? É. Dá um medo absurdo? Dá. Eu oscilo, eu passo por várias sensações – de medo, de alegria, de insegurança. Mas tem valido à pena e eu estou muito feliz com esse projeto.

 

Serviço:

Deu a louca na Branca
Em cartaz até 1 de outubro de 2017
Apresentações: Sex, 21h | Sáb, 21h | Dom, 18h.
Local: Teatro FAAP – R. Alagoas, 903 – Higienópolis.

 

1.9.2017
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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