Entrevista – Antonio Fagundes fala sobre a comédia de sucesso “Baixa Terapia”

Três casais debatem seus problemas cotidianos numa terapia de grupo, mas sem a terapeuta por perto. Esse é o enredo da peça Baixa Terapia do dramaturgo argentino Matías Del Federico. A comédia arranca muitos risos da plateia, mas faz pensar como poucas. O Guia de Teatro conversou com o ator Antônio Fagundes sobre a força desse texto e o grande sucesso da peça.

 

Antonio Fagundes fala sobre o espetáculo de sucesso "Baixa terapia" que reestreia em janeiro no Tuca em seu terceiro ano de temporada

Foto: Caio Gallucci

Guia – O texto do Matias Del Federico tem uma escalada de acontecimentos que culmina em um final surpreendente. Foi isso que te seduziu a montar essa comédia?
Fagundes – Eu queria voltar a fazer uma comédia há muitos anos e é difícil achar um texto que tenha uma estrutura tão bem organizada como esse. Essa escalada de situações foi realmente muito bem programada dramaturgicamente. Além da situação geral ser muito engraçada, o que se exige normalmente de uma boa comédia, ele tem piadas pontuais muito boas. O público dá uma gargalhada a cada trinta segundos, pelo menos. Isso foi uma coisa que chamou bastante a atenção nesse texto. Às vezes a peça é sobre um tema engraçado, mas a estrutura dela não te dá esses picos. E no Baixa Terapia o público não para de rir.

 

Guia – E o riso abre a percepção para críticas e temas mais profundos.
Fagundes – Essa é a vantagem da comédia. E não é à toa que ela é considerada pelo poder como um gênero de segunda categoria. O poder tem medo da comédia porque ela cutuca, provoca, instiga. A comédia é que faz a verdadeira crítica, porque no drama você sofre uma catarse, você sofre aquele problema com aquele personagem e sai limpo do teatro. Na comédia não. A comédia você carrega pra casa, você lembra daquilo com constância. Então não é à toa que a comédia é sempre perseguida pelos sistemas, principalmente por aqueles que não são totalmente democráticos.

 

Guia – E a forma com que os acontecimentos vão se seguindo envolve o público com muita eficiência.
Fagundes – A peça é inescapável (risos). O público não escapa da trama porque o texto o conduz de uma forma muito certeira. A peça se passa durante uma grande sessão de terapia e um ou outro problema levantado aqui e ali, você com certeza já viu, já presenciou, já passou, já sofreu. Então, é realmente gostoso de ver a participação direta do público nesses problemas.

 

Guia – O teatro e a arte em geral têm esse poder de empatia?
Fagundes – Eu sempre busco, nos textos que escolho, montar alguma coisa que faça com que a plateia saia um pouco modificada, pensando em alguma coisa por um viés que ainda não havia pensado, antes de ter visto aquele problema retratado daquela forma. Eu acho que Baixa Terapia tem isso de uma forma muito forte. Todo mundo sente que peça tem um final impactante. Mas na verdade, se você for pensar, o decorrer do espetáculo inteiro é impactante. Até pelo fato de que você ri muito daquilo tudo. Depois de um certo tempo, as coisas vão e transformando você diz: “Meu Deus, mas eu ri disso?”. Então eu acho que isso é uma coisa que o teatro, a boa arte, tem – fazer com que o público se modifique e pense sobre um outro aspecto em problemas que são cotidianos.

 

Guia – Vocês têm trabalhado sem patrocínio, tanto no Baixa Terapia quanto no Carmen – que vocês também produzem – e o resultado tem sido muito bom, com o público vindo e trazendo cada vez mais pessoas. Você acha que a plateia também se sente meio parceira de espetáculos com os quais ela se identifica?
Fagundes – O responsável pelo espetáculo continuar em cartaz é o público. A gente brinca ao final da peça, pedindo que cada um se comprometa a trazer mais cinco pessoas. Eu vejo que as pessoas estão levando a sério (risos). Nós estamos com quase 300 mil espectadores no Baixa Terapia. O público do musical Carmen, que a gente também está produzindo dentro desse mesmo processo, vem subindo gradativamente e eu tenho certeza que em 2020 estaremos lotando o teatro, porque ele também é um espetáculo deslumbrante. E eu sinto sim que o público percebe uma certa responsabilidade da sua parte, de que aquele espetáculo continue em cartaz e que vai depender dele sim. E depende dele mesmo. Principalmente no nosso caso, quando a gente não tem patrocínio.

 

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Serviço:

Baixa Terapia

A partir de 18 de janeiro de 2020
Apresentações: Sex, 21h30 | Sáb, 20h | Dom, 19h
Local: TUCA R. Monte Alegre, 1024 – Perdizes
Garanta o seu ingresso: Ingresso para todos

20.12.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

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