Entrevista – A diretora Gal Spitzer, o ator Silvio Toledo e a atriz Ellis Luise falam sobre a comédia “Ex bom é exumado”

O espetáculo Ex Bom é Exumado tem texto e direção de Gal Spitzer e é representado pela própria Gal, juntamente com o ator Silvio Toledo (seu namorado) e a atriz Ellis Luise (sua filha). Em conversa com o Guia de Teatro, os três falaram dessa aventura em família e do sucesso da peça que, em novembro, completa dois anos ininterruptos em cartaz.

 

Guia – Você divide o palco com a sua filha e o seu namorado. Qual são as vantagens e as desvantagens de trabalhar em família?

Entrevista exclusiva do Guia de Teatro com elenco do Espetáculo Ex Bom É Exumado em cartaz no Teatro Ruth Escobar

Foto de capa: Andre Stefano

Gal – A vantagem é justamente por estar tudo em casa. A gente tem uma liberdade maior, até para ajustar coisas. Porque o espetáculo vai completar dois anos, mas ele tem ajustes até hoje. Então, às vezes, quando o elenco não é muito próximo, a gente não tem a mesma facilidade. A melhor parte é essa, você conseguir fazer as coisas e as pessoas saberem que é para o bem do espetáculo. E a gente se dedica de coração completamente aberto. A Ellis acabou de completar 14 anos e está na peça desde março do ano passado. Era uma outra atriz que fazia. Aí nós tivemos um problema – a atriz ia ser madrinha de um casamento – e eu não sabia quem colocar no lugar. Um outro ator que fazia com a gente falou para colocar a Ellis, porque ela sabia o texto todo. E eu pensei “será que ela passa por uma menina de 19 anos?”, não desconfiando do talento, mas do perfil dela. Mas tudo bem, era um dia só. Só que ela chegou e arrasou. Ela já tinha uma comicidade muito forte. Ela entrou em cena e nunca mais saiu.
Silvio – Eu sempre tive um pouco de receio de unir essas duas coisas, relacionamento e trabalho, pessoal e profissional. Mas do jeito que a gente conduz, acaba dando certo, porque mesmo a gente tendo essa liberdade, como a Gal falou, quando chega ao teatro a gente encara de forma bem profissional. Ela, como diretora do espetáculo, chama a atenção, procura o melhor e não tem melindre. A gente consegue separar bem a parte profissional da parte pessoal.
Ellis -Tem os dois lados, mas eu acho que é mais divertido, é mais legal. Eu me sinto mais à vontade porque ali é a minha família e eu posso fazer o que eu quiser… Quer dizer, nem tanto.

 

Guia – Vocês acham que hoje, em um momento de crise, essa opção de escrever, dirigir e atuar facilita a montagem de um espetáculo? Ou é mesmo uma questão de ter mais controle sobre o trabalho?
Gal – Eu sempre fui muito centralizadora, desde criança. É uma coisa minha. Eu tenho até uma amiga que fala que eu coordenava o balanço no prezinho. E eu sempre fui muito assim, sempre gostei de fazer os trabalhos na escola. Inclusive, lá, eu apresentava os seminários em forma de teatro. Eu comecei na dança. Dou aula desde os onze anos e sempre gostei de estar à frente do trabalho, de dirigir. A contrapartida de todo esse esforço é que ele é uma forma de garantir a qualidade, uma coisa que eu prezo absurdamente. Eu tenho o controle dessa qualidade em todos os sentidos, em toda as áreas: na produção, na direção, na atuação e em tudo mais. E eu me cobro mais do que qualquer outra pessoa me cobraria. E nos dias de hoje, quanto menos você gastar para produzir algum trabalho, melhor. Mas desde que você tenha capacidade para isso.
Silvio – A crise no teatro, na verdade, sempre existiu. Mas eu acho que a crise hoje é mais cultural do que financeira e para driblá-la é preciso muito trabalho, pensamento positivo e fé.

 

GuiaO público vê o espetáculo mais como uma janela indiscreta ou como um espelho? O que você acha que tem levado tanta gente ao teatro?
Gal – Eu acho que pode até ter o lado do olhar pela fechadura, mas o que pega mais na nossa peça é a identificação. As pessoas que vão, se identificam, se vêem dentro da casa. Acho que mais do que assistirem aos problemas de uma outra família, elas assistem à própria família. É o feedback que a gente tem. Já tivemos comentários como “parece a nossa casa”. Teve um senhor que falou “eu saí de casa pra fugir da minha mulher e dou de cara com você”. Então, como tem essa coisa da proximidade com o público, a gente quebra a quarta parede o tempo todo. No final, a gente tira foto, cumprimenta todo mundo. Então eu acho que é mais um espelho mesmo. É mais essa identificação que é responsável pelo sucesso do espetáculo. Porque se o homem vai, ele se identifica. Se a mulher vai, ela se identifica. Se o filho ou a filha vão, eles se identificam. A sogra ou o sogro, o pai ou a mãe. Todo mundo se enxerga um pouco.

 

Guia– A peça consegue ser muito divertida sem apelar para palavrões e sem forçar a barra com gestos ou situações pesadas. Você sente que essa característica cativa a plateia? Isso é um diferencial?
Gal – Eu sou bailarina desde sempre, desde que me conheço por gente. Sempre quis muito fazer teatro, mas não tinha tido oportunidade. Eu comecei só em 2010. Não é muito tempo. E escrevi essa peça em 2013. Assisti a muitos espetáculos, comecei a estudar. Aí eu comecei a escrever como se eu estivesse na plateia. O que me agrada? O que eu acho bacana? Eu nunca gostei de apelação. Eu não gosto de palavrão. E eu queria que o público entendesse que o humor não precisa de vulgaridade; ele pode ser uma coisa de situação. A peça não tem piadas. São situações do dia a dia de uma família normal que conduzem ao riso. Tem os caquinhos, mas que fazem parte da situação, que têm a ver com os personagens. Essa coisa de não apelar foi algo que eu quis desde sempre e eles embarcaram super nessa ideia.
Ellis – Eu lembro quando tinha palavra mais pesada no roteiro, ela escrevia com símbolos, não escrevia palavrões (risos). Depois ela acabou tirando tudo.
Gal – Outro diferencial é que a peça tem uma parte mais dramática – quando a filha fala dos seus problemas – que poderia ser melancólica. Mas aí nós (personagens dos pais) estamos escutando tudo debaixo de uma mesa. O público vê nossa reação e a cena fica mais leve. Tem uma reflexão bem legal, mas a gente tem que lembrar que as pessoas foram ali para rir.
Ellis – Isso que é legal também. É uma peça, uma comédia, vamos dar risada, mas tem uma mensagem, e tem essa parte mais dramática.

 

Guia – É verdade que a peça estreou propositalmente no dia de Finados?
Gal – Eu programei para que a estreia acontecesse no dia 2 de novembro, justamente no dia de finados, num feriado. Inclusive a divulgação inicial foi em cima disso “Ex Bom é Exumado estreia no dia de finados”. Batemos muito nessa tecla, o que é legal porque vai ficar marcado para sempre. Aí eu quero fazer essa sessão especial no aniversário de dois anos, cantar parabéns no final. E ficar 2 anos, na verdade, foi uma teimosia minha e não foi fácil. Eu tive que tirar do bolso e de outros lugares para pagar o teatro toda semana. Mas eu sabia que ia funcionar. Eu não achava, eu tinha certeza. Pela fórmula, por tudo que foi construído. Eu demorei quatro anos para produzir o texto, porque em 2013 eu não tinha competência para isso. Então eu esperei mais um pouco, estudei mais, aprendi mais, adquiri mais experiência, mais bagagem… E aí sim. Então, você tem que ter essa consciência. Se eu tivesse produzido lá atrás, eu não teria ficado nem dois meses em cartaz. Mas a gente já está há quase 2 anos. Obviamente, tive muita ajuda. O Silvio me ajudou com a produção. Essa parceria entre a gente é muito forte e tem todo um cuidado que é nosso. Enfim, o espetáculo é um filho que cuidamos o tempo todo.

Serviço:

Ex bom é exumado

Apresentações: Sáb, 21h30 | Dom, 19h30
Local: Teatro Ruth Escobar R. dos Ingleses, 209 – Bela Vista
Garanta o seu ingresso: Tudus

 

30.9.2019
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

1 Comentário
  • Gal

    Entrevista maravilhosa! Parabéns a toda a equipe do Guia!

Adicionar comentário