Entrevista – Jarbas Homem de Mello fala sobre o espetáculo “Forever Young”

O palco de um velho teatro é transformado num asilo para artistas. Uma enfermeira durona (Nany People) está sempre controlando tudo e todos. Porém, basta ela deixar os velhos artistas sozinhos que tudo se transforma. O Guia de Teatro conversou com Jarbas Homem de Mello, diretor do Musical “Forever Young”, grande sucesso de público que traz ao palco canções como I Love Rock and Roll, Smells Like a Teen Spirit, I Will Survive, I Got You Babe, Roxanne, Satisfaction, Sweet Dreams, San Francisco, California Dreamin’, Let It Be, Imagine e (claro!) a emblemática Forever Young.

 

Crédito: Marcos Moraes

Crédito: Marcos Moraes

Guia – Como você vê o crescimento dos Musicais no Brasil?
Jarbas – Eu acho que a gente está num caminho muito bom. A gente começou pela biografia de alguns cantores – Tim Maia, Elis Regina, Cazuza. Aí veio Rock in Rio… a gente fez muito jukebox – eu vou começar a dirigir um espetáculo que é um jukebox também, chamado O Musical Popular Brasileiro, que é meio um teatro de revista com música popular brasileira. Acho que ainda falta uma profusão de autores. A gente tem poucos autores que escrevem para Musical, com uma dramaturgia de Musical. Porque não é somente escrever canções e encaixar num texto. Essa feitura é diferente lá fora. São vários anos tentando, fazendo leituras, experimentado tessituras, ritmos, letras e histórias, até que isso seja lançado para o público. E ainda assim pode não dar certo. Mas eu acho que a gente está num caminho muito bom. A gente começou falando dos nossos ídolos da música e agora estamos passando para outros – tem o Ayrton Senna, a Bibi Ferreira – mas ainda com essa referência a biografias. Eu acho que agora é hora de a música ser escrita para a dramaturgia teatral. Porque não adianta você criar uma história e simplesmente chamar um compositor renomado para fazer as músicas que também não vai dar muito certo. Vai ser um espetáculo com bonitas canções, mas que não servem à dramaturgia. Isso é o que está faltando ainda. O Teatro Musical é um gênero. É como se a gente falasse de Commedia Dell’arte, de Teatro Circo. Tem uma maneira de ser escrito, tem uma maneira de ser composto, tem uma dramaturgia a ser servida. Mas a gente está no caminho certo.

 

Guia – Vocês conquistaram o público com um Musical que trata a terceira idade com muito humor.
Jarbas – No ocidente todo, inclusive no Brasil, nós não temos a cultura de venerar o antigo, o mais velho, o idoso, como nos países orientais, onde os antepassados e os idosos são reverenciados pela sabedoria, pela vivência, pela experiência. A gente tem uma cultura muito diferente onde com 45 anos um executivo não serve mais para uma grande empresa. Isso é muito cruel. E aí eu acho que a gente se enxerga um pouco no espetáculo também. A brincadeira é um pouco isso. Existe uma carpintaria teatral sob uma convenção muito bem estabelecida com o público, de primeira. O público sabe que são atores jovens fazendo esses velhinhos de 90 anos. Essa brincadeira fica estabelecida e a plateia aceita isso imediatamente porque a gente trata isso com muito humor, de uma maneira muito jocosa. E a gente também se identifica porque, se tudo der certo, todos nós vamos chegar lá – se não morrermos antes (risos). A gente também sempre tem uma avó, um tio, um vizinho. E todo mundo se identifica. Outra coisa é que a história parece um pouco com a daquela turma de crianças na escola que, quando a professora sai da sala, faz uma algazarra. Isso também aproxima muito o público. A gente às vezes acha que tem que botar os velhinhos num canto e que eles vão ficar lá quietinhos. E não é assim. Porque eles têm um pensamento, um desejo, um sonho. Têm objetivos, vontades, e isso encanta a plateia, porque todos querem envelhecer assim. Todos querem ser aquele velhinho louquinho e isso nos aproxima muito da plateia.

 

Guia – Apesar de todo humor, no final o espetáculo tem uma mensagem muito bonita.
Jarbas – Aquele texto final é muito importante porque a gente brinca com as situações, brinca com a falta de mobilidade, com a falta de memória, brinca com tudo que é próprio do idoso e da velhice do ser humano. E no fim a gente dá uma mensagem – para que eles não deixem que as pessoas lhes digam que não podem mais. Para que não deixem o outro colocar um limite na sua expectativa, na sua vontade, no seu desejo. Vamos envelhecer. Pode ser doído, difícil, feio, mas pode ser encarado com alegria. Não precisa deixar de sonhar, de amar, de passear, de namorar, de inventar um romance. Não acabou ainda. O jogo só acaba quando o juiz apita.

Guia – Os atores são todos jovens. Como foi trabalhada a criação e composição dos personagens velhinhos?
Jarbas – A gente fez um trabalho corporal muito sério. Essa era a grande dúvida que eu tinha quando comecei a dirigir, porque eu sabia que esse jogo com o público tinha que ser estabelecido logo no começo, se não a gente não ia ganhar a plateia. É uma caricatura, mas uma caricatura muito verdadeira. Tem figurino, peruca e uma maquiagem pesada. A gente já parte de uma caricatura, de uma forçação de barra. Então eu pensei que nossos corpos (o gestual, a falta de mobilidade e a falta de agilidade) tinham que ser muito verdadeiros pra gente ganhar a plateia. Por isso a gente fez um trabalho com a Renata Melo, que nos deu uma direção de como trabalhar, e o trabalho foi feito em cima dessa falta de musculatura – da falta de tônus e de elasticidade da musculatura e articulações – e a gente começou com coisas muito simples, como beber água, sentar, levantar, e perguntando como era esse corpo sem essa musculatura, sem esse tônus. Como é a laringe sem esse tônus? Pois o idoso tem a laringe mais solta, e o aparelho fonador “cai” porque não tem mais aquela musculatura que o sustenta. E a gente buscou essas coisas, esse relaxamento da musculatura. O trabalho corporal e vocal foi muito intenso a fim de achar essa verdade para conseguir convencer o público dessa caricatura.

 

Guia – O trabalho vocal também é uma obra à parte, certo?
Jarbas – Sim. É desconstruir. É cantar afinado, mas sem tônus, voz áspera vazando o ar. Se você quer dar três piruetas, se quer aduzir a voz para fazer mais agudo, tudo cabe. É uma desconstrução mesmo. É isso que é bacana no trabalho do ator. O bom dessa carreira é isso – você tem uma voz que tem que servir para cantar rock’n roll, bolero, samba, flamenco, pra cantar qualquer coisa.

 

Guia – E como é a reação do público da terceira idade?
Jarbas – Isso é muito legal. Eu tinha muita preocupação com o público da terceira idade. Eu não queria que eles vissem a peça como um deboche. Eu queria que eles se sentissem representados e isso aconteceu. Eles me dizem que é exatamente assim que eles se sentem, exatamente assim que acontece. É muito bom ouvir e ver isso! É muito legal!

Serviço:

Forever Young
Apresentações: Sex, 21h30 | Sáb, 21h | Dom, 19h.
Temporada até 25 de março.
Local: Teatro Fernando Torres. R. Padre Estevão Pernet, 588

1.2.2018
 
Author: Cristiane Joplin

Redatora do Guia de Teatro

Adicionar comentário