Entrevista – Bruno Motta fala sobre o espetáculo “1 Milhão de Anos em 1 Hora”

De volta a São Paulo depois de dois anos fazendo sucesso pelo Brasil, o espetáculo ‘Um Milhão de Anos em Uma Hora’ conta a história da humanidade em apenas 60 minutos, com muito humor. O texto é de Colin Quinn e a direção da montagem original é de Jerry Seinfeld, considerado um dos maiores comediantes de todos os tempos. Para falar também sobre a história do Brasil, o texto teve adaptação de Marcelo Adnet e a direção ficou por conta de Claúdio Torres Gonzaga. Em entrevista ao Guia de Teatro, o comediante Bruno Motta falou sobre o espetáculo que foi montado pela primeira vez fora dos Estados Unidos.

Crédito: Daniel Pacífico

Guia – Vocês adicionaram histórias sobre o Brasil ao texto original. De 2015 pra cá, com tanta coisa acontecendo, algo mudou nas histórias que vocês contam?

Bruno – O capítulo que fala sobre o Brasil foi escrito por mim, pelo Marcelo Adnet e pelo Cláudio Torres Gonzaga em 2015. Ele acompanha um pensamento e um ritmo que está no espetáculo inteiro. Eu acho que o que a gente tinha a dizer em 2015 é a mesma coisa que a gente tem a dizer hoje. Sabe aquele tipo de piada que ao invés de envelhecer, vai melhorando? O significado vai ganhando profundidade com o tempo. A gente analisa a história, a gente analisa como começou o Brasil e porque a coisa está desse jeito. O tempo vai passando, as coisas vão se complicando, mas tudo está ligado ao começo da nossa história. A gente mantém as piadas sobre o começo e a história vai dando razão às piadas, vai afirmando essa relação. Assim o humor fica mais agridoce. Fica mais engraçado e, ao mesmo tempo, mais sofrido. Tem uma coisa que a gente atualizou também e que não é do Brasil – a cena final é uma festa do mundo, uma festa onde as coisas estão dando meio errado. E a gente atualizou essa festa. Tem Trump, tem a Coréia do Norte. E nesse tempo, a gente acertou todos os parafusos. O espetáculo está redondo e eu fico muito feliz quando estou com ele no palco.

 

Guia – A montagem original teve direção do Jerry Seinfeld, um comediante que dispensa comentários. O que foi mantido dessa montagem?

Bruno – Eu acho que a principal característica que a gente manteve do Sienfeld é a agilidade. O humor dele é muito rápido. Então a gente manteve esse ritmo. O espetáculo tem muitas camadas e a gente adicionou ainda mais. Tem uma piada a cada 10 segundos. Algumas piadas são de humor físico, algumas mais finas, pra quem conhece a história mais a fundo, outras são mais genéricas. Tudo isso com uma mistura muito rápida. A gente deixou o espetáculo mais ágil ainda. Lá, ele era um espetáculo de 1h45. Aqui ele tem 1h, com um bônus de um stand-up que eu faço. Outra coisa que tem da direção do Sienfeld é a neutralidade do stand-up. Eu faço sotaque, faço caras, mas eu tenho a neutralidade do stand-up. No stand-up você faz o personagem, mas você não se torna o personagem. Eu faço 14 sotaques diferentes durante o espetáculo, mas não dá tempo de cada um virar um personagem, justamente por causa da agilidade da comédia e da neutralidade do stand-up. O Colin Quinn não faz os sotaques porque não é da comédia dele. Eu faço o sotaque porque me diverte e acho que diverte o público brasileiro.

 

Guia – Você tem um cronômetro no palco, marcando uma hora redonda. Como é essa luta contra o tempo?

Bruno – Por conta do cronômetro o espetáculo tem que ser muito ágil. As pessoas até perguntam se eu improviso, se eu brinco. Eu improviso sim, mas tem um relógio me vigiando o tempo inteiro. Isso é um espetáculo e um exercício. É um “crossfit” de comédia (risos). E o relógio deu dramaturgia para o espetáculo, que passou a ter um antagonista – o tempo. Mas eu tenho que confessar que já deu errado, porque o relógio já falhou duas vezes. Uma vez ele caiu e uma vez ele parou por causa de uma falha elétrica no teatro. Ele participa ativamente do espetáculo. Agora, em qualquer espetáculo de comédia que está em cartaz há muitos anos, você vai pondo piadas, vai descobrindo o que as pessoas acham mais engraçado, vai investindo ali e o espetáculo vai esticando. Mas eu tenho o relógio me limitando. Eu vou investindo no que as pessoas estão achando engraçado, eu ponho piada nova, mas a gordura tem que sair e ficar só músculo cômico. Fica a estrutura e sai a gordura. Se aparecer uma piada nova, eu tenho que tirar 5 palavras. Ou eu conto a história um pouco mais rápido. Por isso eu chamo de crossfit de comédia. Foi ficando só piada e isso é muito legal porque tem piada pra todo mundo. Eu já fiz este espetáculo em todos os lugares. É impressionante. Eu faço no interior, eu faço em capital, eu faço no Norte, eu faço no Sul. Em alguns lugares as pessoas riem mais de umas piadas e em outros lugares, mais de outras. Mas todo mundo ri. É bem democrático.

 

Guia – O filme História do Mundo Parte I, do Mel Brooks, também usa o humor para contar a saga da humanidade. Afinal, o ser humano é engraçado?

Bruno – Esse filme marcou a minha infância. Tem muito do Mel Brooks na forma que eu penso a comédia. Esse jeito de parodiar filmes, estilos, gêneros e a história do mundo. Algumas cenas eu sei de cor até hoje. Não acho que é o ser humano que é engraçado. O nosso olhar é que é engraçado. Com um pouco de tempo, tragédia vira comédia. Tem uma fórmula matemática que diz: comédia = tragédia + tempo. E se eu tenho um espetáculo que fala da história do mundo, eu tenho tempo suficiente para essa equação se tornar verdadeira.

 

Guia – O espetáculo tem uma estrutura de teatro com um ritmo de stand-up. Você imaginava que essa mistura daria tão certo?

Bruno – Algumas pessoas vêm falar comigo e dizem que adoraram o espetáculo porque não gostam de stand-up, mas sim de teatro. E outras me dizem que adoraram o espetáculo porque é stand-up, pois não gostam de teatro, acham muito lento. Este é um espetáculo que tem tudo o que o teatro tem e tudo que stand-up tem. É um espetáculo com trilha, que eu não posso sair do texto, tem uma iluminação linda, cenário, tem um antagonista, tem dramaturgia. E tem essa velocidade que só o stand-up dá. Eu estou sozinho em cena, sou neutro, posso improvisar. Sou só eu e a plateia. É muito legal. É goiabada com queijo.

 

Serviço:

1 Milhão de anos em 1 Hora 
Temporada a partir de 12 de janeiro
Apresentações: Sex, 21h | Sáb,  21h.
Local: Teatro Morumbi Shopping Av. Roque Petroni Júnior, 1089

20.12.2017
 

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